O céu cinzento e a chuva miudinha, que de quando em vez teimava em cair, não impediram que a atriz Maria João Bastos continuasse sorridente e visivelmente feliz. A poucos dias da estreia nacional do filme "Os Mistérios de Lisboa", realizado pelo mundialmente aclamado Raúl Ruiz, a atriz portuguesa confessa-se orgulhosa por integrar o mais ambicioso projeto cinematográfico português.
A personagem que interpreta, Ângela de Lima, é a protagonista da obra de Camilo Castelo Branco. Encarou este trabalho como um desafio ambicioso? O filme retrata uma época em que a sociedade era muito castradora em relação à mulher, e a minha personagem retrata bastante isso. Nesse sentido foi um grande desafio para mim, porque é uma realidade bastante distante dos nossos dias. É uma realidade que para mim não existe - e mergulhar nela foi um enorme desafio, que teve tanto de interessante como de difícil. Também interessante e desafiante foi ter de representar a mesma personagem em épocas diferentes da sua vida - desde os 18 anos até aos 35. O comportamento da Ângela de Lima no início da história é completamente diferente do seu comportamento no final do filme. Enquanto atriz, foi um trabalho bastante interessante e o maior desafio para mim durante um filme.
Uma personagem difícil? A Ângela de Lima é uma mulher que sofre e é vítima dessa castração da sociedade em relação à mulher. Ela vive um amor proibido, porque, supostamente, se apaixona pelo homem errado e é brutalmente separada desse amor e do filho fruto desse amor. Toda a sua vida é um grande sofrimento e mesmo quando, após oito anos, reencontra o filho, ela decide aceitar a sua condição de sofrimento e entrega-se a essa condição. É uma mulher que, apesar de estar fisicamente viva, está completamente morta por dentro.
Este é o papel da sua carreira? Apesar de ser injusto dizer que este seja o papel da minha vida, tendo em conta que todos os outros tiveram o seu contributo na minha evolução, este é o papel mais grandioso e forte da minha carreira, até pela dimensão do projeto em si.
Êxito e prémios nos festivais internacionais
"Mistérios de Lisboa" já ganhou prémios em festivais internacionais de cinema e promete continuar a seduzir os entusiastas da sétima arte. Qual é a sensação de fazer parte deste enorme sucesso? É uma sensação fantástica, que começou ainda durante a rodagem do filme. De facto, já sabíamos que estávamos envolvidos num projeto grandioso, realizado por um génio - porque o Raúl Ruiz é um génio. Portanto, era previsível que o projeto fosse uma obra-prima e tivesse uma vida longa.
Qual tem sido a reação do público que já assistiu ao filme? Tem sido fantástica e emocionante. No festival de Toronto, por exemplo, o filme foi apresentado à mesma hora a que era exibido o filme do Clint Eastwood, e seria de esperar que no intervalo as pessoas saíssem da sala para irem assistir a outros filmes. Mas as pessoas não saíram e a sala manteve-se cheia até ao fim. O mais interessante aconteceu depois, quando subimos ao palco e as pessoas fizeram perguntas muito pertinentes e inteligentes, perguntas de quem percebeu o filme. Foi um momento muito gratificante e pleno de vida para nós, que ali estávamos a representar o projeto. Toda a dedicação e trabalho valem a pena quando no final existe esta reação do público.
E em relação à sua prestação no filme? Tenho recebido muitos elogios e fico muito feliz com isso. É bom ouvir essas críticas positivas, porque também crescemos com elas. É o reconhecimento do nosso trabalho e isso é bastante gratificante.
"Raúl Ruiz é um génio"
Qual é a fórmula do sucesso? Em grande parte, deve-se à genialidade do Raúl Ruiz. Os filmes dele têm um cunho muito próprio. Neste caso, conjugaram-se duas pessoas - o Raúl Ruiz e Camilo de Castelo Branco - com universos muito particulares e parecidos. Mas, como é óbvio, o sucesso deve-se também a uma equipa fantástica que acreditou sempre no projeto.
É, de facto, inspirador trabalhar com pessoas como o Raúl Ruiz? Foi extremamente inspirador e estimulante trabalhar com o Raúl Ruiz, mas conhecê-lo como pessoa foi o mais importante. Trabalhar com o Raúl é ao mesmo tempo ir descobrindo o Raúl, porque temos de entrar no seu universo particular para o entender. Ele consegue criar uma envolvência tal - entre ele e os atores - que, sem nos darmos conta, estamos a fazer o que ele quer. É como deixarmo-nos voar nas asas de um génio - e magicamente as coisas acontecem. Foi, sem dúvida, a ligação mais forte que eu tive com um realizador. E, claro, foi qualquer coisa de fantástico vê-lo criar diariamente, porque ele tinha momentos iluminados à nossa frente.
(Artigo original publicado na edição de 16 de Outubro de 2010)