PARAÍSO
Maria Filomena Mónica
Maria Filomena Mónica: quando cito o nome, os literatos fazem cara de caso. Filomena Mónica não gosta de Portugal, não gosta dos portugueses, dizem. Eu pasmo. Primeiro, porque a obra de Filomena Mónica, nos jornais ou na Academia, foi inteiramente devotada a Portugal e aos portugueses. Estaremos na presença de um caso de sadomasoquismo mental? E, segundo, porque a paixão talvez seja a inversa: Filomena Mónica representa o tipo de "estrangeirada" de que a pátria não gosta. Os portugueses preferem ser tratados como crianças, não como adultos. Filomena Mónica não paternaliza.
Um bom exemplo do que digo vem em novo livro de crónicas. Intitula-se, curiosamente, Nós, Os Portugueses (Quasi). Digo "curiosamente" porque não deve ser fácil, para a autora, usar a primeira pessoa do plural: Filomena Mónica é uma individualista no sentido mais nobre, e mais clássico, do termo, o que inevitavelmente significa, num país que sempre olhou para o Estado como princípio e fim dos seus desejos e aspirações, que a autora agradece que o Estado fique à porta de casa. Que não lhe diga como viver (ou morrer).
Mas Filomena Mónica, alma liberal, não é propriamente uma libertária. O Estado tem o seu papel fora de casa: acudir à pobreza; tratar de uma justiça morosa e comatosa; reformar, se possível, um ensino "sentimental" e medíocre; tratar da memória colectiva, o que implica tratar do nosso património histórico e documental; e, aplausos meus, parar com a destruição arquitectónica que os autarcas lusos foram impunemente promovendo nas respectivas paróquias. É pouco? Não. É tudo. E se isto é detestar Portugal, eu brindo a semelhante desafecto.
PURGATÓRIO
Barack Obama
Confesso que ainda não parei de rir. Obama: Democrata ou Republicano? Se eu tivesse aterrado agora mesmo no planeta Terra, teria algumas dificuldades em definir o homem. Uma coisa é o que dizemos durante a campanha eleitoral. Outra, ligeiramente diferente, aquilo que o mundo real nos obriga a fazer quando chegamos à Casa Branca. Durante a campanha, Obama prometeu "mudanças", e mesmo "mudanças radicais", se fosse eleito presidente. As promessas inflamaram os corações da criadagem, já devidamente amolecidos pela cor do candidato, que desataram a dedicar a Obama sonetos de amor eterno. E agora?
Agora, Obama devolve tanta poesia com um regresso aos consulados Clinton ou, pior ainda, com um mero prolongamento dos consulados Bush. Brinco? Não brinco. Basta citar o nome de Hillary Clinton para secretária de Estado: como justificar a escolha de uma mulher que não apenas votou a favor da guerra iraquiana (em clara dissonância com Obama) como parece ser um "falcão" de saias na sua extraordinária retórica anti-iraniana?
Eu juro que não sei. E também não sei como defender a escolha de Rahm Emanuel para chefe de Gabinete (um menino bonito da NAFTA) e mesmo de Timothy Geithner, o presidente da Reserva Federal em Nova Iorque que, a confirmar-se no Tesouro, não será propriamente meigo com qualquer delírio "socialista".
Claro que, pelo meio, Obama irá distribuir umas migalhas pelas "pombas": fechar Guantánamo e verter umas lágrimas pelo futuro do clima. Mas as primeiras escolhas tranquilizam qualquer moderado. E deviam exasperar qualquer radical, a começar pelos nossos. Eu já estou sentado na primeira fila para os ver e ouvir a gemer.
INFERNO
Pensamento politicamente correcto
A política moderna dá um certo asco. O problema não está na falta de líderes que mereçam o nome (também). Está na sensibilidade histérica e um pouco maricona com que jornalistas e políticos se tratam uns aos outros. Ferreira Leite, coitada, fez um desabafo inteiramente compreensível num país que não se reforma nem se deixa reformar. Portugal perdeu duas semanas a discutir as palavras da mulher, como se elas fossem uma ameaça real à existência do regime democrático. Isto é para levar a sério, meninas?
Pelos vistos, tudo é para levar a sério quando a retórica oficial se desvia um milímetro da cartilha nula, pastosa e politicamente correcta da linguagem oficial. E se Ferreira Leite é nossa, Radek Sikorski é polaco. Quem é Sikorski? Conheci-o há dois ou três anos, no Estoril, e na altura adivinhei duas coisas: que ele ia longe na política europeia; e que ele não podia ir demasiado longe pelo seu carácter politicamente incorrecto. Acertei. Duplamente.
Sikorski é ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia e, segundo parece, resolveu fazer uma piada com a eleição de Obama que lhe pode custar a demissão. "Sabem que Barack Obama tem uma ligação à Polónia?", perguntou ele, informalmente, entre colegas. E acrescentou: "O bisavô dele comeu um missionário polaco." A piada é excelente, mostra uma certa rudeza de maneiras que é imprescindível num estadista. Mas a imprensa e a oposição desataram a ganir, como aconteceu entre nós com Ferreira Leite, e já transformaram o "fait divers" em crise de Estado. "Sikorski acusa família de Obama de canibalismo", lia-se na imprensa da última semana.
Razão tinha o outro. Isto, de facto, dá vontade de morrer.