A demora de Manuela Ferreira Leite em sair e o impasse de Marcelo Rebelo de Sousa sobre se avança ou não para o seu lugar estão a asfixiar o PSD.
O Conselho Nacional do partido, marcado para quinta-feira, não empurrará a líder para uma saída imediata que ela recusa, mas muitos esperam que Ferreira Leite marque as directas para logo a seguir ao debate do Orçamento, poupando o partido a arrastar-se até Maio/Junho com uma liderança com morte anunciada. Nuno Morais Sarmento foi esta semana à televisão dizer isso mesmo: "Não há nenhuma perturbação se começarmos antes de Maio o processo de escolha das novas equipas".
É nesse sentido que os que esperam ver Marcelo a defrontar Passos Coelho apontam um prazo-limite para o professor se decidir: "Se o Orçamento for votado em Fevereiro e as directas forem logo a seguir, é necessário termos um candidato o mais tardar em Novembro", afirmam, apostados em começar a trabalhar no terreno onde Passos faz há longos meses um trabalho de formiga, agora mais discreto mas nem por isso menos eficaz.
Marcelo passou a semana em Paris, fechado em copas. Muito provavelmente a ponderar a decisão que marcará o fim da sua vida política: se se lança para o PSD (sendo que quem lá chegar desta vez tem fortes possibilidades de ser primeiro-ministro) ou se se guarda para as presidenciais, o seu verdadeiro sonho.
Em 2006, num almoço no Pabe, Marcelo confessou: "A única missão patriótica que me daria gozo seria a Presidência da República. Daqui a 10 anos veremos se é Durão Barroso ou eu". Há quem lembre que para defrontar Durão (então com dois mandatos na Comissão Europeia) em 2016, Marcelo precisa de um cargo institucional o que tende a empurrá-lo para liderar o PSD já. Mas também há quem tema que ele queira esperar para ver se Cavaco lhe liberta o caminho de Belém já em 2011.
Rio ao telefone
"Marcelo quer gerir os timings à sua maneira pensando que controla todo o processo, mas arrisca-se a dar espaço para Passos somar apoios", queixa-se um cavaquista empenhado em travar Passos Coelho. E a agitação deste lado da barricada é tal que Alexandre Relvas, Sarmento e Arnaut se reuniram terça-feira, ainda a ponderar uma terceira via em torno de Rui Rio caso Marcelo recue. Mas Rui Rio está mesmo em exclusivo no Porto.
Em Bruxelas, Paulo Rangel exercita o "direito à ponderação" que acusa Marcelo de ter "inventado". À espera que o professor se defina. Há quem o acuse de ter liderado a bancada parlamentar com um individualismo que agora o limitará; mas também há quem o prefira a Marcelo e apenas respeite o "direito histórico" reconhecido ao professor de falar primeiro.
Certezas, há uma: Aguiar Branco será o líder parlamentar no arranque da legislatura. Depois, se Marcelo pegar no partido, se verá. O professor tem sinalizado querer apostar em valores seguros da nova geração, como José Eduardo Martins. Além do direito a ponderar, o PSD interiorizou o dever de renovar.
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009