O general Marcel Maurice "Bruno" Bigeard, herói de três guerras e o militar francês mais condecorado, a quem chamaram o melhor pára-quedista do mundo e terá provavelmente sido aquele que em mais batalhas participou, que no passado dia 18 - septuagésimo aniversário do apelo aos franceses feito da BBC em Londres pelo general Charles de Gaulle que para lá fugira quando o Governo do marechal Pétain se rendera a Hitler e assim iniciara a Resistência do seu país contra a ocupação alemã -, depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral em Março, morreu em Toul, Meurthe-et-Moselle, no nordeste de França, cidade onde nascera, filho de um agulheiro dos caminhos-de-ferro do Leste e de sua mulher, Marie-Sophie, mãe de família cujo patriotismo acérrimo marcou indelevelmente a personalidade do filho, deixara a escola aos catorze anos para ajudar ao sustento da casa, empregando-se num banco (e aprendendo boxe ao mesmo tempo), donde sairia seis anos depois para fazer o serviço militar como soldado raso num regimento de infantaria. Seis meses depois seria mobilizado; a seguir a guerra começara e quase no fim dela, já com o posto de sargento-ajudante, seria feito prisioneiro pelos alemães. À terceira tentativa de evasão do campo na Alemanha onde o haviam internado fora bem sucedido, passara para a 'zona livre', atravessara clandestinamente os Pirenéus e conseguira ir juntar-se às Forças Francesas Livres em África onde lhe deram o posto de alferes. Começava assim uma das mais extraordinárias carreiras militares da França contemporânea.
Em 1944, depois de treinado pelos ingleses, saltou de pára-quedas sobre o departamento de Ariège, na fronteira com Andorra, para aí organizar a resistência aos alemães. Numa das suas sortidas contra estes, muito mais numerosos e bem armados, matou tantos que Londres o condecorou com a Distinguished Service Order. "Bruno", seu nome de guerra na altura, ficou alcunha para a vida inteira. De Gaulle, que era austero e parco em cumprimentos, passaria a chamar-lhe "o heróico Bigeard".
Com a vitória aliada, Bigeard, já capitão, foi colocado com o seu regimento de infantaria colonial na zona de ocupação francesa da Alemanha para daí ser mandado para a Indochina, desembarcando em Saigão (hoje Ho Chi Minh) em Outubro de 1945, no que seria a primeira de três missões nessa parte do mundo, recheadas de episódios típicos do homem: actos de bravura (gostava de comandar à frente dos seus homens e não da retaguarda), desavenças com a hierarquia contra a qual costumava triunfar (guindando-se por feitos militares de soldado raso até general de quatro estrelas, desprezava por preconceito oficiais formados em Saint-Cyr) e inteligência política da sua acção, acompanhada por sentido de espectáculo que o fazia entender-se bem com jornalistas. No fim da terceira missão, em 1954, desceu em pára-quedas sobre Dien Bien Phu cercada, quando a batalha que acabou de vez com o domínio francês do sudeste asiático já estava perdida. Promovido em combate a tenente-coronel, foi capturado no dia em que a guarnição se rendeu e passaram três meses até ser repatriado.
A sua terceira guerra foi contra a independência da Argélia, nela demonstrando competência excepcional no combate a guerrilhas. Mas patriotismo e colonialismo podem dar mistura tóxica e a tortura sistemática praticada pelas tropas francesas na Argélia deixou mancha que o perseguiu. Bigeard dizia considerar a tortura "um mal necessário" mas, ao contrário de outros oficiais superiores que admitiram mais tarde havê-la ordenado e participado nela, negou até ao fim tê-lo feito. E não se juntara ao putsch inglório contra De Gaulle de quatro generais que queriam manter a Argélia francesa.
Em Fevereiro de 1975, Giscard d'Estaing convidou-o para secretário de Estado da Defesa. Demitiu-se em Agosto de 1976 por achar que a França gastava muito menos do que devia em defesa. Poucos meses antes de morrer declarou: "Sou o último dos idiotas gloriosos."("Je suis le dernier des cons glorieux").
Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010