Será possível 2010 ser um ano em que as eleições não estão subjacentes a cada acto político? Ou a estratégia do Governo passa por derrotar, nas urnas, o Presidente?
A última semana trouxe uma novidade em termos de comunicação. O Governo e o Presidente passaram a marcar-se homem-a-homem. Qualquer frase tem resposta, uma fonte é contraposta com outra fonte. Se no fundo do palco a cena é sombria, mais perto das luzes disfarça-se e, caso algo corra demasiadamente mal, culpa-se a rapaziada dos jornais.
Mas que interesse pode ter esta guerra para cada um dos contendores? Na perspectiva daquilo de que o país necessita, a resposta só pode ser nenhum interesse!
Poderá, no entanto, existir interesse político neste ambiente de guerrilha. E teme-se que o ano de 2010 possa ser desperdiçado nessa esterilidade. Do lado do Governo, seria uma enorme fonte de legitimidade e de poder acrescido poder derrotar, no início de 2011, o Presidente da República. O qual não tem escondido o desagrado que o primeiro-ministro lhe provoca. Mais: seria, nesse caso, o primeiro chefe do Estado da história da nossa democracia recente a não ser reeleito.
Mas da parte de Belém tem havido a tentação de responder à letra. E com isso parece, por vezes, estar a contribuir para a desestabilização do Governo e para a realização de eleições antecipadas, caindo na clara armadilha que Sócrates lhe monta.
O apelo à serenidade e colaboração entre as duas figuras cimeiras do Estado, é mais do que um desejo. Deve ser um dever, uma marcação cerrada que o país impõe a ambos.
O novo mundo
A Cimeira de Copenhaga foi um falhanço e ainda durará algum tempo até entendermos que consequências terá este fracasso.
Mas desde logo o final da cimeira mostrou algo de inédito: os países que impuseram o fraco acordo existente foram os EUA, a China, a Índia, o Brasil e a África do Sul. A Europa, que se orgulha de estar na vanguarda, ficou arredada da cimeira. A nova ordem começa a desenhar-se e não é boa para nós.
É a vida?
A entrada de capital angolano na Zon - ou melhor, de capital da família do Presidente de Angola na Zon -, justifica-se pela necessidade de a Zon entrar em Angola. É a vida...
E assim colaboramos com quem tem regras de mercado curiosas e muito familiares. Se fossem só privados a fazê-lo, poderíamos dizer que deviam ter um pouco mais de ética. Quando nesse negócio intervém uma empresa do Estado, resta-nos dizer que é uma vergonha!
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009