Ter mundo
Manuela é uma daquelas personagens que qualquer escritor teria dificuldade em criar. Pouco disposta a pisar o coração da cena, apresenta-se-nos de modo crispado (embora dócil em pormenores espinhosos de conceber) e afirmativo. Este tipo de discrição é acentuado por um olhar ambíguo como convém ao que não se consegue (por mérito próprio) caracterizar de maneira sumária. Curiosamente, Manuela trouxe consigo, na mais recente encarnação política, um passado que quase lhe concedeu a silhueta de mito: a indefectibilidade. Os seus horizontes confundem-se com a severidade das finanças - facto com ampla genealogia nacional - e com a impertinência mais ou menos maleável face ao populismo. Cavaco Silva, o refundador do PSD pós-Sá Carneiro, é a sua maior cumplicidade politica. O que não é bom para um mito que precisaria de real autonomia. É por isso, porventura, que existe algo de heroína infortunada sua própria persistência. Nada, no entanto, que cause indiferença. Eis uma valia que Manuela pode jogar com afinco.
Ter futuro
Manuela correu o risco de ser mera testemunha de um 'passeio' político alheio. Sócrates surfava em campo aberto e nada realmente parecia detê-lo. No entanto, a interpretação viciosa e viciada que Manuela fez da crise do Outono de 2008 - por interesse táctico e não por incompetência - fez dela uma súbita ilha alternativa em tempo de franca inundação. O engenho próprio pesa bem menos do que o circunstancialismo... no futuro que se começa agora a desenhar para Manuela Ferreira Leite.
Ter estrela
Manuela sempre fez questão em viver de costas voltadas para a 'comunicação pela comunicação'. Chapeau. A particularidade da personagem vive mais do modo como elide alguns atributos de fachada, facto que, para a larga maior parte das candidaturas, se torna sempre vital. O resultado deste cinzentismo assumido tanto pode reverter num 'estudo de caso' como pode desaguar numa espécie de impasse a carecer de sentido. Mas a coragem sobressai sobre a natureza da expressão, independentemente da sua natureza. Só que a coragem apenas existe no mundo de quem a entende.
Ter um desejo mobilizador
Manuela é muito mais uma pessoa de programa do que de sonho. De Manuela não irradia nenhum imaginário que se deseje partilhar à imagem dos cenários épicos em que o herói nos leva - mesmo involuntariamente - até ao brilho dos sete céus. Sabendo-se que cumprirá o seu programa, qualquer programa, de Manuela espera-se tão-só cálculo, frieza e, por vezes, uma palavra capaz de se desdobrar entre o consolo e a (suave) amargura. Manuela é muito portuguesa, mas tem mágoa a mais para poder cantar o fado.
Ter retaguarda
Manuela é por natureza arredia. Tudo fará para manter incólume uma vasta zona que excede, de longe, a esfera da privacidade. Por isso o povo a baptizou como austera, distante, por vezes metaforicamente mortificada ou antiga. Manuela não é uma 'mãe' à moda argentina, nem é uma 'amazona' à moda thatcheriana. Manuela é uma solitária que podia não enfrentar, com tanto radicalismo, a sociedade mediática das 'emoções ao rubro'. Estar no tempo em que se vive é, também, saber - repita-se o verbo 'saber' - mostrar alguma retaguarda.
Estar aberto à contingência
Manuela é determinada, mas as grandes determinações nem sempre se dão bem com a tempestade. A maleabilidade é um território mais próximo da ironia do que da inabalável evidência. A ironia é um estado de espírito capaz de não levar a sério tudo o que se nos avizinha. O que é pode subitamente deixar de ser e mais vale perceber - a tempo - a mudança de terreno do que insistir como se nada fosse (como Sócrates fez no início da crise do Outono passado). Manuela nunca deu mostras de grande eclectismo. Quando falou nos "novos pobres", fê-lo por retórica e não por real disposição estratégica. Veremos, também, que contingências e acasos poderão levar Manuela a sorrir - ou não - neste Setembro.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor