INFERNO
Manuel Alegre
Manuel Alegre esteve na televisão. Gostei de o ver: "tweed" castanho; gravata de seda no mesmo tom; e, por falar em tom, a voz do homem melhora com a idade: grave, poética, com certo travo marialva. A barba é perfeita (ler Leite de Vasconcellos, in "A Barba em Portugal") e o rosto de Alegre adquiriu feições romanescas evidentes. Um Hemingway à nossa medida, que infelizmente não escreve como o Hemingway original. Pena que Alegre continue a alimentar a fantasia de que é "dr.", permitindo que os jornalistas o tratem por um título imaginário. Não precisava. E o resto? O resto não merece comentário. Falo das dúvidas, das inquietações, das "ambiguidades" de Alegre. Ele está triste com o PS? Ele aproximou-se da esquerda radical? Ele quer criar um novo partido? Razão tinha o outro: nasce um otário a cada minuto. E Portugal está cheio deles. Basta ler a imprensa das últimas semanas e verificar o número de plumitivos que "compraram" o partido de Alegre. Consta até que alguns já se filiaram na sede do Júlio de Matos. Infelizmente, ninguém formulou a questão decisiva: Manuel Alegre está interessado em concorrer novamente contra Cavaco? Não que Alegre respondesse à pergunta. Mas a pergunta bastava para esclarecer os namoros de Alegre com a esquerda. A exacta esquerda de que ele precisa para chegar a Belém, sobretudo se Cavaco não vencer à primeira. Não admira que, em mensagem natalícia, o actual Presidente da República tenha apelado à concórdia institucional. Cavaco não falava apenas da matéria conhecida (Açores, divórcio, etc.). Falava também da matéria desconhecida: do cerco socialista que já cresce à sua volta. Enganam-se os que acreditam que Sócrates tem insónias com as tropelias de Alegre. Eu apostava um dedo (o mindinho) em como Sócrates anda feliz da vida com o seu futuro Presidente.
PURGATÓRIO
Cuecas
A crise caminha para nós e os portugueses já começaram a poupar. Mas a poupar em quê? Segundo o "Público", os portugueses ainda não cortaram nos produtos essenciais; mas já começaram a usar a tesoura nos produtos supérfluos. É o adeus aos carros. Às viagens. Aos restaurantes. Às cuecas. Peço desculpa: às cuecas? Pelos vistos, sim: diz o jornal que o negócio da roupa interior teve um rombo considerável desde que a crise mostrou as garras. E os portugueses, amedrontados, deixaram de engalanar as partes. Meu Deus: o que dizer de um povo que considera as cuecas um produto de luxo? Não sei. Mas sei, ou presumo, que muitos portugueses já andam por aí sem cuecas. Ou, em alternativa, usando cuecas em lamentável estado de conservação.
São os dramas da poupança e eu juro que não faço comentários sobre a miséria alheia. Mas, se me permitem, gostaria de agradecer publicamente à minha família em nome da miséria própria. E então recordo os últimos natais, momentos particularmente repetitivos em que a família me esmagava com quilos e quilos de cuecas. Eu recebia os presentes, alguns já nem abria, e depois questionava os céus se tanta cueca representava, no fundo, um comentário sobre a minha personalidade. Ou, pior, sobre a minha higiene pessoal. Erro meu. Durante anos, a minha família, perfeitamente sintonizada com o espírito nacional, oferecia-me autênticas jóias, autênticos rubis, autênticos diamantes. E eu, na minha selvática indiferença, limitava-me a rosnar a um canto. Prometo redimir-me. E prometo também que as últimas cuecas deste Natal já têm um destino à espera: o cofre. Com a crise que se avizinha, a cueca é um investimento sólido.
PARAÍSO
Charles Dickens
Gosto de ler Charles Dickens no Natal. Dickens é, digamos, o meu Frank Capra literário e um escritor que, no seu genial sentimentalismo "kitsch", me conquista para a quadra. Também não admira: Dickens praticamente inventou-a. Brinco? Não brinco. O Natal, este Natal, o Natal "moderno", concentrado num único dia (e numa única véspera) e tido como acontecimento privado, familiar, em que se trocam prendas e "afectos" (peço desculpa pela aberração do termo) não existia antes dos vitorianos. Existia, sim, uma festa vagamente feudal, que durava 12 dias e que era comunitária no propósito e bastante estroina no espírito. Mas tudo mudou em 1843, quando Dickens escreveu "A Christmas Charol". Não existe criatura à face da Terra que não conheça a história: Scrooge, sovina e misantropo, é visitado por Três Espíritos e converte-se ao Natal.
Vale a pena ler realmente a novela de Dickens. Porque é um prodígio de criação literária, sim. Mas também porque seremos capazes de detectar nela os traços contemporâneos do nosso Natal: a sua intimidade fraterna, comum a ricos e pobres. E com peru a acompanhar. É esta visão, revolucionária para o tempo, que os Espíritos mostram a Scrooge. E é também por causa dela que Scrooge descobre, ou redescobre, a mais antiga das verdades cristãs: a ideia de que a redenção dos homens não está fora deles: está dentro, no limite último das suas consciências. Ao pretender acordar a sociedade inglesa do século XIX para os horrores da industrialização, Dickens, talvez sem o saber, "secularizava" o cristianismo para as massas e oferecia-nos um novo Lázaro, subitamente ressuscitado para a vida - e para os outros.