Mantombazana (Manto) Edmie Tshabalala- -Msimang, que morreu em Joanesburgo no passado dia 16 de Dezembro, enquanto esperava segundo transplante de fígado, de complicações resultantes de um primeiro transplante, feito em 2007, necessário devido a cirrose hepática atribuída por muitos a consumo imoderado de álcool que começara no Botswana onde praticara medicina durante o seu exílio de militante do ANC em luta contra o regime do apartheid e donde fora expulsa para a Tanzânia por desmandos vários, havia-se formado no Primeiro Instituto Médico de Leninegrado - hoje de novo S. Petersburgo - em 1969, especializara-se em Ginecologia em Dar-es-Salam, obtivera um mestrado em Saúde Pública na Universidade de Antuérpia em 1980, voltara à pátria durante a transição do apartheid para a democracia, fora secretária de estado da Justiça durante a presidência de Nelson Mandela e quando Thabo Mbeki, seu grande e velho amigo na diáspora da oposição sul-africana, sucedeu a Mandela em 1999 nomeou-a ministra da Saúde - e manteve-a no cargo até ser ele próprio forçado a deixar o poder, apesar de críticas cada vez mais indignadas, na África do Sul e fora dela, ao desempenho escandaloso de Manto Tshabalala-Msimang na luta contra a sida.
Firmemente convencida de que não havia ligação entre o vírus da imunodeficiência humana e a sida, entendia que o uso de remédios anti-retrovíricos era não só inútil mas também prejudicial porque - outra profunda convicção sua - efeitos secundários desses remédios aceleravam e agravavam o curso da doença. Quanto ao efeito terapêutico, era um mito alimentado pela indústria farmacêutica. Na realidade, o tratamento da sida ou pelo menos a demora no desenvolvimento dos sintomas desta era possível e devia ser tentado com produtos naturais: o alho, a beterraba, o limão, a batata, o azeite (que, para alarme consternado do resto do mundo, brilhavam no stand da África do Sul na Conferência Internacional de Toronto sobre a sida em 2006, só lhes tendo sido juntas à pressa algumas ampolas de anti-retrovíricos depois de perguntas insistentes de jornalistas). Com efeito, declarara em 2005 que "a nutrição é a base da saúde e pode travar a progressão de seropositivo a doente de sida. Comer alho, azeite, beterraba e batata africana fortalece o sistema imunitário, garantindo que o corpo é capaz de se defender do vírus e de viver com ele". Houve sempre, em toda a parte, instâncias de ignorância e rejeição obtusa do conhecimento científico mas poucas certamente de consequências tão calamitosas. Por, durante quase dez anos, ter primeiro recusado e, a seguir, admitido a conta-gotas com demoras burocráticas escusadas o uso de anti-retrovíricos, Manto Tshabalala-Msimang deixou o número de casos de sida na África do Sul atingir quase seis milhões. (Tribunais obrigaram-na a abrir excepções: em 2002, para mulheres grávidas; em 2003, para doentes em fases avançadas). Um estudo da Universidade de Harvard concluiu que entre 1999 e 2008 a política anti-sida de Pretória causara pelo menos 365.000 mortes prematuras.
Thabo Mbeki apoiou-a sempre porque pensava como ela. Militantes convictos do ANC, o fim do comunismo deixara-os sem trave-mestra ideológica. Os dois grandes movimentos populares antiapartheid foram um, marxista (o ANC) e o outro racista (o Pan African Congress, de resto muito minoritário). O racismo é politicamente incorrecto mas a tentação de o usar - neste caso ao atribuir a relação de VIH e sida à propaganda do homem branco - sente-se às vezes na África do Sul democrática.
Na catedral católica de Pretória Jacob Zuma fez o elogio fúnebre. Num tour de force, mal tocou na política anti-sida preferindo evocar os programas de saúde pública, a luta contra a violência doméstica, a protecção das crianças, o combate contra a pobreza e pela liberdade antes, durante e depois dos 28 anos de exílio da militante e patriota Manto Tshabalala-Msimang. Convenceu poucos na igreja e fora dela.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010