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Manto Tshabalala-Msimang (1940-2009)

A ex-ministra da Saúde, ao recusar primeiro e só depois admitir a conta-gotas o uso de anti-retrovíricos, deixou o número de casos de sida na África do Sul atingir quase seis milhões.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 16 de janeiro de 2010

Mantombazana (Manto) Edmie Tshabalala- -Msimang, que morreu em Joanesburgo no passado dia 16 de Dezembro, enquanto esperava segundo transplante de fígado, de complicações resultantes de um primeiro transplante, feito em 2007, necessário devido a cirrose hepática atribuída por muitos a consumo imoderado de álcool que começara no Botswana onde praticara medicina durante o seu exílio de militante do ANC em luta contra o regime do apartheid e donde fora expulsa para a Tanzânia por desmandos vários, havia-se formado no Primeiro Instituto Médico de Leninegrado - hoje de novo S. Petersburgo - em 1969, especializara-se em Ginecologia em Dar-es-Salam, obtivera um mestrado em Saúde Pública na Universidade de Antuérpia em 1980, voltara à pátria durante a transição do apartheid para a democracia, fora secretária de estado da Justiça durante a presidência de Nelson Mandela e quando Thabo Mbeki, seu grande e velho amigo na diáspora da oposição sul-africana, sucedeu a Mandela em 1999 nomeou-a ministra da Saúde - e manteve-a no cargo até ser ele próprio forçado a deixar o poder, apesar de críticas cada vez mais indignadas, na África do Sul e fora dela, ao desempenho escandaloso de Manto Tshabalala-Msimang na luta contra a sida.

Firmemente convencida de que não havia ligação entre o vírus da imunodeficiência humana e a sida, entendia que o uso de remédios anti-retrovíricos era não só inútil mas também prejudicial porque - outra profunda convicção sua - efeitos secundários desses remédios aceleravam e agravavam o curso da doença. Quanto ao efeito terapêutico, era um mito alimentado pela indústria farmacêutica. Na realidade, o tratamento da sida ou pelo menos a demora no desenvolvimento dos sintomas desta era possível e devia ser tentado com produtos naturais: o alho, a beterraba, o limão, a batata, o azeite (que, para alarme consternado do resto do mundo, brilhavam no stand da África do Sul na Conferência Internacional de Toronto sobre a sida em 2006, só lhes tendo sido juntas à pressa algumas ampolas de anti-retrovíricos depois de perguntas insistentes de jornalistas). Com efeito, declarara em 2005 que "a nutrição é a base da saúde e pode travar a progressão de seropositivo a doente de sida. Comer alho, azeite, beterraba e batata africana fortalece o sistema imunitário, garantindo que o corpo é capaz de se defender do vírus e de viver com ele". Houve sempre, em toda a parte, instâncias de ignorância e rejeição obtusa do conhecimento científico mas poucas certamente de consequências tão calamitosas. Por, durante quase dez anos, ter primeiro recusado e, a seguir, admitido a conta-gotas com demoras burocráticas escusadas o uso de anti-retrovíricos, Manto Tshabalala-Msimang deixou o número de casos de sida na África do Sul atingir quase seis milhões. (Tribunais obrigaram-na a abrir excepções: em 2002, para mulheres grávidas; em 2003, para doentes em fases avançadas). Um estudo da Universidade de Harvard concluiu que entre 1999 e 2008 a política anti-sida de Pretória causara pelo menos 365.000 mortes prematuras.

Thabo Mbeki apoiou-a sempre porque pensava como ela. Militantes convictos do ANC, o fim do comunismo deixara-os sem trave-mestra ideológica. Os dois grandes movimentos populares antiapartheid foram um, marxista (o ANC) e o outro racista (o Pan African Congress, de resto muito minoritário). O racismo é politicamente incorrecto mas a tentação de o usar - neste caso ao atribuir a relação de VIH e sida à propaganda do homem branco - sente-se às vezes na África do Sul democrática.

Na catedral católica de Pretória Jacob Zuma fez o elogio fúnebre. Num tour de force, mal tocou na política anti-sida preferindo evocar os programas de saúde pública, a luta contra a violência doméstica, a protecção das crianças, o combate contra a pobreza e pela liberdade antes, durante e depois dos 28 anos de exílio da militante e patriota Manto Tshabalala-Msimang. Convenceu poucos na igreja e fora dela.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
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Convicção e fé
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 14:00 | Domingo, 17 de janeiro de 2010
Mais um interessantíssimo relato de José Cutileiro que normalmente ninguém comenta, mas que é um claro exemplo de como a convicção tão querida aos comunistas (lembro-me bem de ouvir Álvaro Cunhal afirmar ser um homem de convicções) não se distingue da fé senão pelo vocábulo pois o conteúdo é igual.
Isto faz-me lembrar convicções de Mao Zedong no contexto do Grande Salto em Frente. As quatro pragas (ratos, moscas, mosquitos e pardais) cuja tentativa de exterminação, em especial a dos pardais, deu origem a um grave problema ecológico com resultado contrário ao esperado.
Os factos relatados por José Cutileiro, cujo conteúdo tenho a convicção que seja verdadeiro (limita-se a transmitir informação comprovável e as conclusões são minhas), indicam que não se pode distinguir a convicção comunista da fé religiosa que advoga que o preservativo não é admitido nem resolve o problema da sida.
Os exemplos de pessoas que nunca se enganam e que raramente têm dúvidas são o pão nosso de cada dia em qualquer parte do mundo desde o ayatolá Ali Kamenei ao papa Bento XVI (menos que João Paulo II), passando por Hugo Chavez, para referir apenas três lideres fortemente convictos da actualidade.
Tudo isto me faz acreditar que convicção e fé são uma e mesma coisa que não resolve os problemas do mundo se não estiver baseada em fundamentos científicos e, principalmente se os tentar contrariar.
         
 
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