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Mann, Visconti e o caso Casa Pia

8:00 Quinta feira, 22 de maio de 2008

Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, "Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade" (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de "teatralizar o quotidiano", o "estupendo sentido de metamorfose" e a "desenvoltura irreverente" sempre "capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável". Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado "numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa" (entre as que tinham uma dimensão nacional).

O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra "engrenagem" não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.

Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a "teoria da cabala" e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue "Muito Mentiroso"), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).

Quando soletro muito devagar a palavra "engrenagem", estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza - 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade com que vivi a obra de Visconti, à época, teve a sua origem em vínculos estéticos puros e em nada mais.

Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou 'não permissivo') de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz - pela primeira vez - de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

Luís Carmelo


Professor universitário e autor

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visconti, mann
patricio branco (seguir utilizador), 1 ponto , 8:17 | Sábado, 24 de maio de 2008
a luz de durão barroso estava na grand place, ao fim do tunel que ia da politica nacional à politica europeia. Hoje, dou razão a D B, não desertou, foi para onde devia ir.
por outro lado, não parece necessário fazer declaração aclaratória sobre as razões porque a morte em veneza agrada.
quanto a EPC, perdeu uma ocasião para escolher outra personalidade rosto do s.xx português. antes de herman josé está p.ex. vasco santana, um actor muito melhor e sem tiques, e antes de vs estão muitos outros rostos em vários sectores, do politico ao intelectual ao niversitário ao artistico.
 
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