Escrevo ao fim da tarde de domingo, 20, véspera do solstício, acantonado numa pequena cidade do norte dos Países Baixos por neve que continua a cair e já fechou aeroportos, parou comboios e tornou intransitáveis muitas estradas do Noroeste da Europa. Dizem-me que há 30 anos não se via nada assim por estas paragens, mas que se irá tornar a ver em breve porque o clima está a mudar. Dado que a terra tem muitos e muitos milhões de anos e que extrapolações seguras para intervalos tão pequenos como os de uma ou duas vidas humanas a pouco mais de cem anos podem ir buscar dados fiáveis, parece-me que previsões assim devem mais a crenças irracionais do que à ciência - mais il faut de tout pour faire un monde. Lembro a exortação imortal do tribuno paulista Ademar de Barros no fim dos seus comícios: "E agora, macacada, pé na tábua e fé em Deus!"
Daqui acompanhei pela televisão, pelo Internet e por conversas ao telefone o fim do jogo de xadrez disfarçado de circo de Copenhaga que acabou mal mas, no meu entender, não tão mal quanto muitos dizem. Não temos um texto legal com carácter vinculativo mas isso importa pouco pois o que conta é a vontade política: Quioto era vinculativo e deu no que deu. Os governos (Que digo eu? As nações!) são como os cavalos: podem ser levados à borda de água mas não podem ser obrigados a beber. A pouco e pouco, porém, aprendem. A reunião de Copenhaga tornou o que está em jogo quanto a mudanças climáticas muito mais evidente do que parecia antes e iremos assistir nos marcos futuros já estipulados do processo e nos intervalos entre esses marcos a passos efectivos dados por governos de países ricos, emergentes e pobres para reduzir gases com efeito de estufa. Assim disse em entrevista a uma cadeia de TV inglesa o Presidente das Maldivas, que há semanas presidira um Conselho de Ministros debaixo de água para ilustrar dramaticamente um dos perigos do aquecimento global. Mohamed Nashid achava que o resultado da conferência não tinha sido mau, que as metas acordadas eram as possíveis agora e seriam substituídas brevemente por metas melhores. O seu bom senso contrastava com a fúria de alguns fanáticos: a causa ecológica (incluindo aquecimento global) é papel mata-moscas para órfãos de Lenine, da teologia da libertação e de anarquismos sortidos.
Outro aspecto da conferência se deve notar, que é porventura o mais importante. Má organização da ONU e a inexperiência dinamarquesa contribuíram certamente para uma negociação pouco satisfatória. Mas sobretudo viu-se muito melhor do que nas reuniões recentes do G-20 (que foram em grande parte sobre uma crise gerada nos Estados Unidos) como se está a redistribuir o poder no mundo. Em suma: os Estados Unidos e alguns poderes emergentes aceitaram as posições da China e ignoraram a Europa, que contou praticamente só com o apoio dos africanos. Diz-me quem lá esteve que a arrogância chinesa ao levar água ao seu moinho era impressionante. E obedece quem deve.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009