Nos caminhos da vida futebolística existe a tentação dos seus principais intérpretes, treinadores e jogadores, dizerem que "o futebol é o momento". Faz sentido. Todos vivem numa montanha-russa que os faz ora heróis ora vilões, dependentes de uma bola bater no poste ou decidir ir para dentro. E todos sabem como a vontade da bola é caprichosa e insondável.
A chegada de um treinador novo é um momento em que tudo parece mudar. Carvalhal entra no Sporting quando ainda se ouve, nas trevas, a voz do seu antecessor, Paulo Bento. Quatro anos, um losango como herança e quatro segundos-lugares festejados sobretudo porque, como disse Bento, foi o Benfica que ficou atrás. É a forma perfeita de perceber como este duelo secular é mais do que clássico. Como diria um pensador de outros temas: "Eles são mais do que inimigos. São irmãos!".
Carvalhal entra com a intenção de causar uma boa primeira impressão. Pelo discurso, ninguém fica aos saltos na cadeira. A segunda opção, a mais importante, é 'falar' através do jogo da equipa. Para isso, é importante uma boa primeira impressão táctica. O início do jogo com os Pescadores da Costa da Caparica foi perturbante. A nova táctica, 4x2x3x1, e os jogadores hesitantes onde pisar para ver se estavam nos sítios certos. 0-1. Tudo voltaria depois ao 'normal'. Com tanto entusiasmo o onze da Costa não soube dosear o esforço e perdeu clarividência. 4-1. Uff...
Moral da história: não é fácil destruir um losango tão cimentado. Uma 'estrutura de pedra' que mora na cabeça dos jogadores quase como um dogma. O segredo passa então por, aos poucos, dar-lhes outros hábitos, outras formas de, em campo, se moverem. Chamam-se "princípios de jogo". Claro que isso é mais fácil mudando o sistema, mas, entrando a meio da época, ao treinador falta tempo para criar uma nova filosofia de jogo, algo que se começa a desenhar desde a pré-época.
O ideal é uma equipa ter sempre mais do que um sistema em que possa jogar. Manter o losango como opção e acrescentar outras ideias será o melhor caminho. Durante o jogo, recuar mais Moutinho, para ser ele a sair mais rápido com a bola desde trás. Adiantar mais Vukcevic para ser quase um segundo avançado junto de Liedson. E, assim, variar o 4x4x2 para 4x2x3x1 e, depois, de novo para 4x4x2. De fora destas notas tácticos estará o 4x3x3 mais puro, porque não existem extremos na casa leonina.
Por tudo isto o jogo será diferente para o Benfica na cabeça de Jesus. Não diria mais difícil. Diria mais improvável. No sentido de adivinhar o adversário e assim antecipar problemas e soluções para eles. A derrota na Taça devolveu a equipa à terra. Fê-la baixar da 'nuvem emocional' onde estava. Nesse percurso, um jogador regressa: Cardozo. Tornou-se o pilar do ataque 'encarnado'. Quer pela forma como se move (em espaços curtos) quer pela forma como está... parado (dando referências e espaços de movimentação aos outros jogadores, como Saviola e Aimar).
Em geral, para lá das tácticas, costuma ganhar o jogo a equipa que, durante os 90 minutos, nunca perde a fé em si própria. No fundo, aquela que aproveita melhor o 'momento'. A parte do jogo em que se sente que as coisas (tendências tácticas e emocionais) estão mais a favor do seu lado e, astuta, essa equipa não a deixa fugir. Porque o futebol, o jogo, é o 'momento'. O de um dérbi Sporting-Benfica dura uma vida inteira.
Sempre goleador
Sempre que vejo um jogador dito veterano a fazer golos recordo sempre o que dizia outro velho goleador, Hugo Sanchez: "O segredo está em, ao longo dos anos, ir adquirindo certa perfeição nos movimentos e a percepção certa entre o que se quer fazer e as capacidades do organismo. Assim, com o decorrer do tempo, fica-se capacitado para executar certos gestos com maior naturalidade. É como na ginástica olímpica, onde certos exercícios, dada a sua dificuldade, conquistam maior pontuação".
Desta vez, a memória surge vendo João Tomás manter, aos 34 anos, o poder goleador. Diria mesmo que refinou a relação com a baliza. Ele que nunca foi um poço de técnica. O melhor tempo da sua carreira foi passado no ar: no jogo aéreo, os cabeceamentos. Agora, está mais exigente nos movimentos. Escolhe melhor as bolas. E estuda cada remate com mais cuidado. Por isso, continua a fazer golos. Mais bonitos até, como se, nesta fase final, tivesse duas cabeças nos pés. Pensar na selecção é humano. Chegar lá seria como revirar o vento.
Espanha mágica
É um jogo da Liga espanhola, mas já se tornou um duelo planetário. Na era global em que vivemos, Real Madrid e Barcelona já não são meras 'equipas espanholas'. São 'equipas do mundo'. Cada jogo entre eles atravessa o lado desportivo do futebol. Ronaldo e Messi, o craque-atlético e a pulga-mágica, desafiam o impossível em cada jogada. No regresso do mago lusitano, os murmúrios do medo que a sua lesão reapareça. Nos toques do baixote argentino, o olhar esbugalhado para não perder um toque que seja da sua bota canhota. No meio de tudo, as tácticas não são coisa menor. São a moldura que pode dar, ou não, o melhor habitat ao génio. Nesse mundo quadriculado, o 4x3x3 de Guardiola é hoje mais forte.
Até porque tem Xavi e Iniesta atrás. O 4x4x2 de Pelegrini ainda vive sem mecanização, com Kaká a jogar como se tentasse agarrar o volante de um fórmula um. No meio de tudo isto, génios, pulgas e tácticas, está um grande jogo de futebol. Para ver com uma vela acesa. Porque esta é a única religião que não admite ateus!
O futebol tricô
Ele é baixinho, com uma barbinha belzebu e meio careca. Por isso, é El Pelado Belluschi. Por fim, surge como aposta séria na relva do Dragão. Do outro lado, a 'montanha' do Chelsea. No banco, o super-herói amuado, Hulk, um jogador entre o génio e a vulgaridade. Três factos, um jogo para decifrar alguns mistérios.
Primeira descoberta: o Porto ganha outra dinâmica, outra 'cor' criativa com Belluschi. Porque ele mete no jogo coisas (fantasia perto da área e velocidade com remate) como mais nenhum outro médio do plantel mete na equipa. Enquanto ele durou, durou o melhor Porto. Ou seja, o Porto com a face mais criativa. Foi fundamental num jogo frente a uma equipa musculada mas que, já apurada, nunca quis acelerar o ritmo. Quando o baixinho começou a cair (física e tacticamente) foi-se perdendo esse elo criativo e o onze voltou à sua previsibilidade combativa. Depois, entrou Hulk. Cada jogada sua é uma afirmação de personalidade. Aplicando-a ao jogo todo, porém, viveu sempre à margem da equipa. Até então (com Belluschi vivo e Varela atento a... defender, sem bola) o Porto esteve sempre seguro. Impôs-se a palavra-chave de uma grande equipa: organização. Sem eles, a equipa ficou um "castelo de cartas" táctico e sofreu o golo pelo lado esburacado pelas alterações feitas.
Os 60 minutos em que Belluschi jogou podem ser suficientes para dizer que tem lugar na equipa. A leveza do seu 'futebol-tricô' necessita, porém, de protecção táctico-física (robustez) que equilibre a equipa sem bola. Por isso, compatibilizá-lo com Hulk, em 4x3x3, é quase uma equação impossível. Mais uma pista para Jesualdo seguir o trilho do 4x4x2. Fazer a equipa variar entre os dois sistemas e, por fim, combinar criatividade com robustez, fantasia com disciplina.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009