Em 1969, Nixon usou o termo "maioria silenciosa" para louvar milhões de americanos da classe média, humilhados e ofendidos pelo liberalismo (esquerdismo, diríamos na Europa) das elites políticas e culturais que dominavam o país mas sem ousadia nem organização que dessem para as vencer. A maioria silenciosa recompensou o Presidente: quando foi reeleito em 1972, Nixon conquistou 49 dos 50 Estados da União. Com o intervalo penoso de Jimmy Carter começara, mal-grado Watergate, a reafirmação da direita nos Estados Unidos que viria a florescer sob a batuta de Reagan ("Reagan metia a gente no coração", disse-me um dia o dr. Mário Soares que é insuspeito) e a definhar sob a batuta de Bush-filho, com pelo meio 8 anos de 'triangulações' de Bill Clinton (versão americana do New Labour, isto é, da arte de governar à direita com boa consciência de esquerda).
Bush-filho ajudou tanto os ricos em prejuízo dos pobres, armou tanto em arruaceiro em confronto com o resto do mundo e apaparicou tanto a direita evangélica que abandonara Bush-pai que o povo americano que o tinha reeleito em 2004 se entusiasmou com Obama em 2008. Para grande contentamento dos povos de muitos outros países, que se convenceram de que os Estados Unidos tinham mudado.
Não tinham, como nos mostra o movimento das "festas do chá". (Tea party faz referência a um episódio determinante na revolução da independência americana). Os membros desse movimento ostentam ignorância assustadora - muitos julgam que Obama não nasceu nos Estados Unidos, outros são criacionistas, há os que acham que não há aquecimento global, outros ainda acreditam que o plano de saúde do Presidente mandaria matar velhos quando fosse caro de mais tratá-los - mas as suas razões de queixa são fundas, versão norte-americana da luta de classes, do Zé-povinho contra os doutores. Afirmativos e barulhentos, reúnem-se em grupos pelo país fora, não têm chefe, idolatram Sarah Palin e em Massachusetts já fizeram o Partido Democrático perder o assento de Teddy Kennedy no Senado. Estão a levar muitos congressistas republicanos cada vez mais para a direita e se conquistarem o partido Obama correrá grande risco em 2012. Se forem só uma terceira força, como Ross Perot em 1992, talvez Obama volte a ganhar. A ilusão de que Obama daria autoridade à razão e faria prevalecer a virtude na política americana (ilusão que o próprio parecia partilhar) está a sumir-se. As coisas são o que são.
E são também o que são deste lado do Atlântico. Demagogia de governantes anima desconfiança do vizinho e medo do estrangeiro que enfraquecem os europeus. Lucidez e moderação foram esquecidas ou transformaram-se em cinismo e cobardia.
Terror de outro Estaline meteria a Europa nos eixos mas não há um à vista. Na sua falta, oxalá a crise financeira assuste tanto governantes e governados que acorde por fim neles o instinto da sobrevivência. Seria um progresso europeu - há 80 anos crise parecida acabou em guerra mundial..
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010