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Máfia: o Clima Apropriado

8:00 Segunda feira, 17 de dezembro de 2007

As aparências iludem: as máfias a trovejarem violência e morte são plantas muito delicadas; só conseguem crescer em certos climas. Depois de crescerem ganham raízes e tornam-se mais fortes. Mas serão sempre plantas de estufa que não suportam o frio ou os ventos fortes.

A primeira condição para que possam vicejar é a protecção de alguém que tenha influência política. Não se pode esperar que os homens da violência se relacionem directamente com o político B e lhe arranjem votos. Precisam de um protector que apareça sempre rodeado de políticos no activo e na reserva com uma imagem de invulnerabilidade.

O objectivo é criar um sub-sistema político que funcione com autonomia e que constitua a versão moderna do coito medieval: um espaço onde se não pode entrar sem a homenagem devida ao senhor da terra.

A segunda condição é a da penetração no sistema judicial e policial, uma operação para a qual é essencial a criação de espaços sociais de convivência geridos pelo protector.

Os magistrados são pessoas normais a quem a ordem jurídica proporciona o distanciamento dos conflitos que é a condição institucional da sua independência.

Para quebrar esse isolamento pretendido pelo sistema são necessários espaços de convivência onde as relações se possam travar e dos pequenos favores se possa passar para os grandes compromissos. O objectivo é conseguir influenciar a decisão judicial. O sistema é vulnerável às denúncias e infiltrações e é necessário que a influência no sistema judicial funcione como uma segunda linha de protecção.

O célebre conselheiro 'Mata-Sentenças' da Itália de Giovani Falcone ficou famoso por isso.

A primeira linha de protecção, contudo, tem de ser a polícia: nenhum sistema mafioso consegue enraizar-se e prosperar sem fazer com que a polícia olhe para o lado. Algumas das actividades mais rendosas têm que ser feitas à luz do dia (ou à luz da noite) e uma polícia agressiva é um empecilho permanente para o bom andamento dos negócios. Para o sistema de tráficos e extorsões ser próspero, um acordo (com partilha de receitas) é essencial.

A outra condição é que a justiça privada do bando seja feita sem demora, nem tibiezas: se alguém desrespeita os seus compromissos, a resposta não pode ser uma acção judicial com pedido de indemnização. O medo é essencial, a "omertà" a base de todo o sistema, e depois das acções de intimidação e das propostas que não se podem recusar, a consequência do incumprimento tem que ser a pena de morte.

Aqui entram novamente em cena a polícia e os magistrados: as testemunhas e os arrependidos têm que saber que não vão ser protegidos e por isso só lhe resta calar a boca mesmo que queiram falar.

Em condições ideais, o sistema a quem deveria ser confiada a punição dos criminosos mostra-se impotente e desorientado, transmitindo a mensagem de que não vale a pena contar com ele e que mais vale negociar, pagar a protecção e calar a boca.

Se isto for conseguido, o bando é invulnerável e o medo prevalece.

O poder do Estado torna-se ficção e o poder das máfias torna-se indestrutível.

Fiscalista

Palavras-chave  opinião
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Máfias
jorge ii (seguir utilizador), 2 pontos , 13:00 | Terça feira, 18 de dezembro de 2007

  Parece que a Máfia do Porto, encontrou o clima certo. Vamos ver até quando......!!!??
 
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Máfia: o Clima Apropriado
Von Buren (seguir utilizador), 1 ponto , 18:51 | Terça feira, 18 de dezembro de 2007
Parabéns sr. professor pela pertinência actualista da sua crónica face aos acontecimentos recentes vividos pela sociedade portuguesa. Num registo semelhante me pronunciei aqui neste blogue de Opinião, comentando o Titulo -" Acho que já vi este filme," da autoria de Reginaldo Almeida. De facto estes meliantes são uma versão rasca importada da camorra napolitana, com tiques de Alcapone. É uma realidade que não se pode esconder e que também não se pode combater com operações cirúrgicas de marketing. A escumalha não passa por meia dúzia de "bons rapazes, do Gang da ribeira" a complexidade é mais intrincada e não se combate por impulso ou reacções inopinadas, é preciso um trabalho de fundo devidamente coordenado em consonância com todos os corpos especiais de polícia.
Isto não vai com policiamento de proximidade nem com mais policias fardados na rua...é uma falsa questão. Há bons policias e magistrados, o canal de comunicação é que em boa medida falha. Os Condes, os Viscondes e as estrelas, ou melhor os senhores Feudais na sua casa mandam, não comunicam... retêm a informação.
 
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Re: Máfia: o Clima Apropriado
leitura (seguir utilizador), 1 ponto , 13:27 | Quinta feira, 20 de dezembro de 2007
Será que uma outra condição, não é esta?
“Os políticos não querem leis que os possam queimar”
http://www.correiomanha.p...
 
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