Voltei da Madeira ontem. Já tinha visto, como todos vocês, as imagens extremamente chocantes que foram transmitidas pela televisão - a tragédia humana, a lama, a força da natureza que inverteu completamente a "normalidade" das coisas - carros a andarem em marcha-atrás quando queriam seguir em frente. Então, meti-me num avião para o Funchal no Domingo agitado e preocupado; contudo, não encontrei nem caos nem lágrimas, mas sim normalidade - muitos turistas faziam as suas viagens normalmente (intrépidas Finlandesas!), equipas desportivas da ilha de regresso a casa, alguns jornalistas curiosos, sim, mas a maioria das pessoas fazia o seu dia-a-dia normal. Logo a seguir, percebi uma coisa que vi incessantemente nos dias seguintes no Funchal - que, ao lado de tragédia e de destruição, a vida (para, tristemente, quase todos mas não todos), continua - pessoas a caminho dos seus escritórios, turistas a fazerem os seus passeios. Este fenómeno, a combinação, lado a lado, do sofrimento e da normalidade é descrito muito melhor que eu pelo poeta W. H. Auden num poema sobre um retrato da queda de Ícaro
.
Admiro esta determinação para voltar a normalidade. Foi evidente no trabalho de recuperação das casas, das lojas, das estradas. Vi-a na maneira de ser dos madeirenses, que encarnaram um slogan muito popular em Londres durante os bombardeamentos da segunda guerra mundial - "keep calm and carry on"
. Vi-o na cooperação notável entre todos, do Presidente da República aos bombeiros, passando por hospitais,médicos, protecção civil e autoridades da ilha. Foi também evidente nos turistas britânicos e na comunidade britânica da ilha respeitando, ao mesmo tempo, o triste falecimento duma cidadã britânica.
Também vi este espírito nas minhas colegas; cheguei no Domingo com uma equipa de reforço consular - colegas de Lisboa, Portimão e Londres com várias competências, desde membros da Cruz Vermelha até a um técnico para pôr os nossos computadores a funcionar. Viemos para apoiar a nossa incansável e excelente equipa na ilha; uma Cônsul Honorária e uma assistente consular, sobre as quais tinha escrito há uns meses, em tempos melhores
. Fornecemos apoio consular a compatriotas que dele precisaram, coordenámos o nosso trabalho com o das autoridades locais, tentámos (e conseguimos) contactar dezenas de britânicos na ilha com quem familiares não tinham conseguido falar depois de tudo o que aconteceu no Sábado. E também actualizámos o nosso travel advice
com base na nossa experiência na ilha. Falei com estações de rádio
e televisões.
Ainda há muito trabalho para fazer; espero que não haja mais mortos ou feridos, de qualquer nacionalidade. Mas se há uma coisa para amortecer o golpe, é o espírito e a determinação que vi na Madeira nestes últimos dias.