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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 3 de Fev de 2010
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Como é bom viver nesta época. Aos sábados fintas a morte para 2ª ser blasé.
As minhas editoras, na sua imensa sabedoria, que me perdoem. Li na Única passada sobre o Medo e fiquei com a sensação de que se trata de um papão, que é uma coisa muito má, muito horrível que se deve temer. Ora tendo em conta que nesse mesmo sábado, de forma deliberada, me sujeitava a um puro, cru e azedo estado de terror esbugalhado, que seguidamente - qual soufflé de alma - se insuflou num êxtase grunho de autoconfiança tostada a endorfinas venho pois, com vossa licença, contestar. Eis-me então de mota, à pendura, a 270 km\/h, com a roda da frente no ar, numa pista com zonas ainda molhadas da chuva. Nesse momento, o cérebro envia sinais poderosos para o organismo e ali, feito vírgula esmagada sobre o piloto e coração a bombear pânico entra-se numa zona de onde há uma tranquilidade a slow motion irreal. Está-se lá, no olho do clichê: vivinho da silva porque morto de medo.
Mas isso é ao fim de dois longos minutos... Pode-se ter carta de mota, pode-se ter muito quilómetro de duas rodas... mas aquilo não tem correspondência para nada que se possa experienciar na estrada. Quando a Honda CBR1000RR, conduzida por Miguel Praia - piloto do Campeonato do Mundo de Motorsport - sai das boxes e engrena a mudança, a sensação é que vamos ser cuspidos ao som brutal do motor. E o cérebro fracciona-se em várias zonas de pensamento simultâneo. Uma área diz: "Meu grande imbecil, com tanto acidente de mota que já tiveste onde te vieste meter?" Outra zona gagueja: "Calma, calma, calma ele é profissional, sabe o que está fazer." Outra zona apenas grita de pânico, que se mistura com outra meio louca que grita e dança de prazer infantilóide... Passaram alguns segundos, estamos a tentar gerir as primeiras curvas e travagens e então... a mota vai a pique numa descida de 12% e sobe a acelerar numa curva cega. Nesse momento a parte do cérebro que diz "ele é profissional" já está agarrada ao hipotálamo a chorar. Ouço-me surpreendentemente a dizer palavrões em 43 línguas e 56 dialectos... E só um minuto depois com o tal cavalinho a 270 entro no tal nirvana sereno de horror...
O medo, este "medo-gourmet", auto-infligido, tem hoje correspondência numa indústria de fim-de-semana razoavelmente massificada mas num grau cada vez maior de sofisticação, dado que os consumidores vão ficando imunes às experiências anteriores. Ah, como éramos jovens quando saltámos pela primeira vez de bungee, gritámos sobre os céus de pára-quedas, rolámos desamparados serra abaixo de BTT, entrámos nas urgências a tirar fotos ao lanho na cabeça...
E, contudo, a "moda da adrenalina" não passou. Mudaram as formas de provocar a sua segregação hormonal ali, ao sábado, a diversos preços, no ar, na terra, no mar, a duas, quatro rodas e o que mais se inventar com asas, ou com cordas mas com gritos.
Dir-se-á que é vício, que tal como uma droga, tem a recompensa do pós. É verdade. Aqueles cinco minutos na mota com Miguel Praia têm um efeito assombroso ao nível orgânico e mental, sente-se que a pulsação fica com um timbre mais afinado e a visão mais apurada durante um ou dois dias. Mas também é o confronto com um final trágico no alcatrão que nos faz reavaliar os problemas de 2ª feira.
Aquilo a que se chama stresse é a maior parte das vezes apenas adrenalina choca e a apodrecer no organismo. São dias e dias em que o nosso australopiteco primordial nos manda atacar e respondemos tacanhamente "sim, sôtor, eu refaço o Excel". Stresse é calar quando as 160 batidas do coração nos estão a mandar cravar a lança no cachaço do bisonte. Mesmo que ele se chame Eng. Fonseca, da Contabilidade.
Pelo contrário, andar a 270 de roda no ar agarradinho ao Miguel limpa as válvulas de stresse e deixa o Homem destemido uns dois ou três dias. Fonseca: Põe-te a pau!
Miguel Praia
É um dos pilotos que faz a Táxi Experience Honda CBR1000RR (178cv, 308km\h, 0\100-3,8': 70 euros). É disponibilizado fato, botas, capacete e luvas. É possível efectuar vídeo com câmara colocada no capacete do piloto que filma expressões do pendura durante as duas voltas à pista do fantástico Autódromo Internacional do Algarve, um dos melhores da Europa e um dos preferidos de Michael Schumacher.
Marcação prévia 927 244 694
http://www.autodromoalgarve.com.pt/
http://www.miguel-praia.com/
Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 27 de Jan de 2010
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A frase passa por nós sem eriçar cabelo porque há uma fonética que é de alguma forma familiar: "Capote alentejano é moda para o frio de Nova Iorque." Só que este capote não é o Truman escritor, nem este frio o do sangue nas mãos dos dois parolos que brutamente assassinaram toda a família do lavrador do Kansas. Não. Temos que reabsorver o significado das palavras para perceber o estranho da coisa. O capote alentejano - sim, o casacão até aos pés, feito de várias camadas de pedaços de flanela pesadas e pele de raposa na gola - está a fazer furor na Grande Maçã. Li em vários jornais e vi referências em peças televisivas, e esperei que me mostrassem um pimp do Harlem ou uma Vanderbilt a ir tomar o pequeno-almoço no Tiffany's com cãezinhos saltitantes agasalhados em capotes miniaturas iguais aos da dona. Mas não. Inevitavelmente, os "apontamentos" de reportagem remeteram para a Praça do Giraldo, a Times Square de Évora, onde os locais gabaram os seus capotes resgatados à naftalina. "Isto é do melhor contra o frio. Fui buscar este ao baú que era do tio do meu pai..." Um fabricante autóctone, satisfeito, declarou: "Estão na moda, tenho vendido para todo o lado, até para Nova Iorque." Até para Nova Iorque... Terá provavelmente sido este soundbyte, pejado de confiança socratista, que transformou uma intenção de expansão de negócio além-mar na imprensa em efectiva tomada de posição no difícil mercado de moda nova-iorquino.
Eu, que também sou autóctone, fiquei banzado com esta recuperação do capote alentejano. Tivesse um baú e também teria ido buscar o meu. Até porque há duas semanas que somos ameaçados com esta perplexidade no mês de Janeiro: está frio. Dizem mesmo que estamos a ser vítimas de uma vaga de frio polar. Está tanto, mas tanto frio, de forma tão inesperada e avassaladora que o Expresso foi obrigado a fazer um antitítulo para, desculpem a chalaça, pôr água na fervura: "As temperaturas são normais para a época."
Tendo em conta que grande parte de nós passa a vida dentro de ambientes fechados e não se dedica à pastorícia, sendo que quando chega ao escritório entra num bafo contaminado e tem de se pôr em mangas de camisa, quase que sou tentado a pensar que esta paranóia com o frio foi lançada pelo lóbi da moda do capote da Praça do Giraldo\/2010. Mas não vou tão longe.
O capote merece este momento de glória. Há que experimentá-lo para perceber a dignitas que os quilos dele fazem transpirar. Basta ver D. Duarte com um, a sorrir em pose, que até parece ter mais terras que o Joe Berardo. Assim que se veste um capote, exige-se que se permaneça de pé - ou encostado ao cajado -, estático. Alentejano. Ao sentar-se com ele vestido, a estrutura abre-se e desmonta-se tristemente como uma raia morta e desasada. Quando os modismos repescam estas tradições tendem a abastardá-las. Mas estamos a falar do velho Alentejo e o sistema de castas estendia-se ao capote. Os cinzentos-escuros com gola de raposa eram dos latifundiários e os castanhos com gola de lã de borrego para os rurais e pastores (os verdes é coisa recente de espanhóis e caçadores chiques). Depois veio o 25 de Abril e democratizou-se o capote: desapareceu. Até que, subitamente, reapareceu em Manhattan, via Praça do Giraldo.
E há as samarras, a versão mais curta, algumas delas viradas do avesso, com o pêlo de lã para fora e imortalizadas na I Guerra Mundial, quando alguns alentejanos mais precavidos as levaram consigo no Corpo Expedicionário Português para o gelo e lama das trincheiras da Flandres. Uma velha história que sobreviveu foi a da sentinela que de samarra de pele de borrego sobre a farda provocava uns "bééééés" gozões do lado dos alemães e ficou baptizado de "lanzudo", expressão que ainda hoje se encontra no calão alentejano. Este pode ser um "mito rural", mas é como o "mito urbano" do capote alentejano que está a fazer furor em Nova Iorque.
Momento de glória
A única fábrica que faz capotes no sul do país, a José Alpedrinha Lda., está na zona de Elvas, e este ano garante ter expedido para "Paris, Londres e América". Mas na zona de Lisboa também apareceram nas montras capotes tradicionais cinzentos, castanhos e verdes, sempre com pele de raposa, que venderam muito mais que a versão curta (a samarra). O modelo feito pela Nfardas, que tem um toque clássico com um forro em xadrez escocês, recuperado de um croqui com "40 anos na casa", custa menos de 300 euros.
www.nfardas.pt
www.feitoria.com.pt
Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 20 de Jan de 2010
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Duas semanas após ter sido considerado um mito, eis que voltam a garantir que existe. Onde? Algures
No início de Janeiro, duas notícias científicas chamaram a atenção do consumidor médio de informação: o telescópio Hubble capturou uma imagem do Universo quando este ainda era bebé - e tinha apenas 600 milhões de anos após o Big Bang; um estudo britânico revelou que o Ponto G, esse misterioso eldorado do prazer feminino, era afinal "um produto da imaginação das mulheres influenciado pelas revistas e por terapeutas", não existindo bases fisiológicas para suportar a sua existência.
Ora, 15 dias após estas duas informações terem sido publicitadas ninguém coloca em causa que um telescópio possa ter fotografado o "nosso" Universo ainda em fraldas, mas avolumam-se as dúvidas em relação ao estudo dos cientistas do King's College, de Londres, que utilizou mais de 1800 mulheres gémeas, idênticas e não idênticas, de idades entre 23 e 83 anos, que se centrou na questão genética e que visou descobrir a existência de uma zona erógena na anatomia do corpo feminino do tamanho de uma moeda de 5 cêntimos.
Nos dias que se seguiram à alegada morte do Ponto G várias colunistas conformadas mencionaram que era um alívio e que até era melhor assim, que sempre era menos uma pressão, dados os casos de mulheres destroçadas por nunca terem encontrado o supracitado. Mas logo surgiram as que defendem ter o seu G bem cuidado e acarinhado e que não seria um estudo que faria com que elas o mandassem porta fora.
Finalmente, veio o contra-ataque da poderosa indústria do Ponto G.
Por um lado, há as dezenas de tipos de dildos de forma estrambólica unicamente para o Ponto G que teriam de ir para reciclagem, ou os cirurgiões que "constroem" pontos G artificiais, ou muito terapeuta que teria que se explicar, e há um imenso mundo editorial que roda à volta do G que não pode desaparecer: dezenas e dezenas de títulos apenas dedicados a esse cluster.
Beverly Whipple é possivelmente a maior expert mundial em Ponto G, uma das grandes especialistas em sexualidade humana, professora na Universidade de Rutgers, tem um livro sobre o Ponto G que vendeu mais de um milhão de cópias. Já olhou para o estudo das gémeas do King's College e ditou o que está errado. O problema não está nelas... mas sim nos parceiros das gémeas.
Exacto. Duas semanas após ter sido decretada a morte do Ponto G arranjou-se o bode expiatório de sempre para o ressuscitar: o ponto continua lá, algures, mesmo em gémeas idênticas. A culpa é da qualidade dos amantes. Há uns que conseguem lá chegar, outros que são uns patetas. Ilibam-se as mulheres disto que, sejamos francos, podiam fazer o favor de proceder a alguma investigação prévia. Mas, claro está, o órgão sexual feminino das mulheres é ultracomplexo, pois é o cérebro, e por isso é tão enigmático. Deixem as tarefas de trabalho efectivo para os companheiros. Digam-lhes: "Meu amigo... temos mesmo um 'interruptor mágico'. Cabe-te a ti acreditar que existe e descobri-lo... agora vai... sem pressão." Ora, sabe-se que a pressão e sexualidade masculina é uma relação binária. Onde há uma não há outra. Desenrasquem-se a descobrir 'isso', mito ou não mito.
Há, contudo, outras questões por esclarecer. Uma delas é que há testemunhos credíveis de homens que garantem ter estado lá, regressado e agora se sentem confusos: O que foi aquilo? Onde estive, afinal? Fui enganado? Aquele não era o local assinalado no mapa? O GPS não explodiu em milhares de luzinhas como o réveillon do Funchal? Ora, tudo isto é muito perturbador.
Há 60 anos que o médico alemão Ernst Grafenberg destapou esta caixa de Pandora ao descrever uma zona na anatomia feminina que seria baptizada como Ponto G em sua honra. Compreende-se que haja um lóbi muito poderoso que queira manter vivo este mito - se é que é um mito. Mas a Ciência necessita da Verdade e nós homens queremos saber se podemos abandonar as buscas. De uma vez por todas. Nem que para isso tenham que redireccionar o Hubble.
Ciência
Este assunto está longe de estar morto. O Ponto G não vai desaparecer sem dar luta. Os investigadores franceses Odile Buisson e Pierre Foldès têm neste momento para publicação no "Journal of Sexual Medicine" um estudo com ultra-sons em casais a terem relações onde se garantem provas fisiológicas da existência do dito. The G show must go on!
Exemplos de vibradores para o Ponto G
Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2010
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010
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Os dois poderão estar a fazer uma espécie de 'roleta russa' com os velhos aviões da FA.
A fazer fé na imprensa, Jardim Gonçalves, o antigo homem forte do BCP, já terá devolvido carros e os 40 seguranças que tinha negociado para o seu plano reforma. Ficou igualmente sem direito ao avião, um fantástico Falcon 2000, que a instituição lhe disponibilizava. As viaturas e o jacto já estarão paradas, os seguranças no desemprego e o ex-presidente do maior banco privado português aterrorizado, sem saber como sair à rua sem ouvir um armário musculado de óculos escuros dizer que o "Águia 1 está a deixar o ninho" em direcção ao seu Falcon de 14 poltronas cabedal crème brûleé apontado à Riviera francesa. Moral? Os banqueiros são bons a preparar os seus PPR mas uns medrosos. Não são da mesma estirpe dos políticos...
Ainda há dias se soube, pelos jornais, que a administração do BES adquiriu e publicitou um gadget anti-sequestro. Pelo que deu para ver, parecia um enorme comando de garagem com um botão de pânico. Ou seja, quando sua ex.ª está ser raptada (saco preto na cabeça e murraças na pança) leva a mão ao bolso ou ao meio dos papéis de crédito malparado, encontra o comando e acciona o botão que resolve - sabe-se lá como - a tramóia. Não estou muito ligado ao mundo dos sequestros mas parece-me grupe: se um administrador de banco for homem perde o comando da TV ao fim de meia hora, nos confins do sofá. Pelo que o aparelhito só serve para se sentirem mais seguros quando dizem que a economia vive de confiança. Pelo que podia ser pó de corno de rinoceronte. Era o mesmo.
Mas também se sabe do uso que esta clique faz dos jactos para ir à neve ou para raides de compras em Nova Iorque e da sua repugnância pelas viagens na 'carreira'. Ainda há poucas décadas a 'carreira' era o machimbombo da Rodoviária Nacional. Pois agora a 'carreira' é o voo da Tap, mon dieu! Não o low cost, mas o voo regular. Como mudou o mundo dos transportes em Portugal!
Questões políticas e marketeiras à parte, não é qualquer um que tem fibra para ser Presidente ou primeiro-ministro. Dificilmente os banqueiros serviriam. É preciso tê-los no sítio. Ou tê-los! Não basta uma boa condição física para aguentar as campanhas eleitorais, estômago para rissóis, tripas e chanfanas, ser livre de fobias, conseguir tocar, mexer, entrar em locais fechados, altos, abertos, escuros, abafados, suadiços. É preciso ser rijo e ter fibra.
Exemplo: há vários anos que Cavaco e Sócrates jogam o 'cobardolas' com os três Falcon 50 da Força Aérea. Todos sabem que os aviões estão caducos e em iminente risco de cair e até os bancos estão rotos. Cada vez que levantam voo colocam em risco uma instituição democrática portuguesa. Mas mesmo assim tanto Cavaco como Sócrates têm voado neles. É d'homem! Freitas foi-se abaixo como MNE. Amado praticamente tem a cabeleira toda branca... Falconite aguda...
Há quem defenda que tanto o PR como o PM se deviam limitar às 'carreiras' e deixar para outra altura a compra de aviões de 27 milhões de euros. E lembram mesmo que Tony Blair chegou a viajar em low cost e que não precisamos de minis Air-Force One.
Mas a questão é que há efectivamente questões de Estado e da UE que vão impor deslocações urgentes e rápidas. E a renovação da frota já foi aprovada por todos os partidos em 2008. Apenas o PCP levantou alguns pruridos por cobardia: por um lado tem medo das críticas do seu eleitorado mas por outro tem medo que Sócrates ou Cavaco morram num acidente.
Ora o Presidente angolano vai ter um ainda maior que o dos EUA. Sarkozy comprou há seis meses um luxuoso Dassault Falcon 7X de 70 milhões de euros que baptizou com o nome "Carla One". Ninguém quer que tenhamos um luxuoso 'Cavaca 1' mas seria boa ideia deixar Sócrates fazer o que ele sabe fazer bem: um telefonema aos bancários que substituíram os banqueiros no BCP. E rapidamente o Estado português teria um Falcon 2000 que têm para lá encalhado.
Carla One
Segue aqui o link para que se possa ajudar a FA a escolher os melhores Falcon. Não precisa ser como o que Sarko 'dedicou' a la Bruni mas que pelo menos seja uma compra inteligente e não como os 12 helis que custaram milhões mas pararam por falta de peças no contrato 'couves por armas', como lhe chamou Santos Silva. O preço? Uma agradável surpresa. Basta ver que em 2009, o Tribunal de Contas para apenas cinco obras (da casa da Música ao Túnel do Rossio) contabilizou 241 milhões de euros em derrapagens - haverá certamente uns 80 milhões para aterragens.
http://www.dassaultfalcon.com/index_flash.jsp
Texto publicado na edição da Única de 9 de Janeiro de 2010
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Luis Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 6 de Jan de 2010
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Os qualquercoisasexual são mais vulneráveis do que as mulheres e morrem mais cedo.
Numa década, os homens, enquanto género, moveram-se uns metros: deixaram o sofá, largaram o comando da TV e agarraram o rato do computador. Pelo meio retiraram-lhes muita da capacidade de interagir no espaço público, porque o politicamente correcto liderado por um comité semântico feminino tornou-se implacável com as palavras, que depois de dois copitos se tornaram minas a explodir na boca. Uma chatice. O tabaco e a comida pesada teve que ser deslocada no cérebro da zona "Prazeres" para zona "Nojo". Depois apareceram as definições - como o metrossexual. Beckham, o Homem do Século XXI? Que tempos aqueles... a anorexia grassava, o lesbian-chic era moda, o casamento gay começou a institucionalizar-se. Escreveram-se livros sobre o fim da masculinidade (outra vez) e o mirrar do homem. Podia ter sido o fim do mundo, aí por 2003. Mas não foi.
Os rótulos são uma coisa boa. Uma tábua de salvação sígnica para tipos perdidos no meio do caos existencial pós-feminista. E no meado da década surgiu o qualquercoisasexual, uma divertida tipologia de homens prêt-à-porter para escolher uma. Ou várias. Ou partes. Ou ir mudando.
É óbvio que a maioria não quis nem teve dinheiro para ser metrossexual ou pinta para ubersexual com causas e mulheres lindas e manteve-se orgulhosamente retrossexual: o chaço de barriga, pêlo no nariz e artérias entupidas. Muitos foram-se reconvertendo e são hoje militantemente ecossexuais, embora a predominância sejam os tais tecnossexuais, pairando uma certa exuberância para os bem-amados gastrossexuais, tão interessantes a cozinhar gourmet para elas.
Conforme as mulheres se foram instalando nos seus lugares de direito e as leis cristalizando, também se registaram movimentos reactivos, até porque na guerra e no divórcio vale tudo. Até já existe um Dia Internacional do Homem (19 de Novembro) para defender a necessidade de instituir role models inspirados no 'homem comum' e não nas estrelas do desporto ou em actores de cinema e lutar contra a discriminação nas 'atitudes, expectativas e leis'. Pais divorciados contra-atacam a partir de Tobago!
E porque a ideia do 'sexo forte', depois de espancada pelas feministas e emudecida pelo politicamente correcto, começou a ser tornada light pela Ciência... Até ver, os homens continuam fisicamente mais fortes, mas sabe-se hoje que são biologicamente mais vulneráveis à doença do que as mulheres, o que começa logo no útero e se acentua nos primeiros meses de vida. As doenças coronárias fazem a primeira ceifa aos 30 anos e a segunda pelos 65. Há quatro a seis vezes mais incidência de doenças mentais neles. Os homens têm muito mais tendências suicidas e para correr riscos idiotas, o que faz deles óptimos clientes da cultura radical e óptimos soldados... enfim, os homens vão continuar a morrer mais cedo. Segundo uma investigação da Universidade de Tóquio, publicada este mês, os genes dos homens limitam o seu tempo de vida: ao 'optarem' por uma compleição física maior comprometem a duração do tempo que vão por cá andar.
Além da destruição imparável dos mitos biológicos, os gurus da socioeconomia não antecipam nada de virtuoso para um mundo onde até à crise de 2008 ainda subsistia uma ideia masculina de sociedade. Na pós-recessão mundial falam de um homem deprimido e diminuído à escala global, tentando recuperar o trauma do desemprego que atingiu todos os sectores e níveis da força de trabalho. Ou o surgimento de fenómenos de ruptura inesperados, por exemplo na China, onde há dezenas de milhões de homens a mais que mulheres e onde podem surgir situações de caos e violência. Dezenas de milhões de homens sem mulher é muito gajo à nora.
Regressando ao mundo onírico das revistas de papel couché que embelezam as bancas. Há um macho pós-moderno de masculinidade resgatada
e engraxada. E uma retórica por construir. 2010 será o início. Cá estaremos.
Masculinidade resgatada
Um dos mais interessantes, bem escritos e visualmente fascinantes sites dedicados ao homem é este Art of Manliness, que já teve direito a um livro lançado no Outono e que visa recriar para os dias de hoje a ideia de cavalheiro do século XIX, do como se barbear ao salvar uma pessoa de se afogar, como oferecer flores ou ensinar o seu filho a andar de bicicleta, como fazer fogo, como derrubar uma porta...
A Arte da Masculinidade
http://artofmanliness.com/
Big Think - fórum global com 600 especialistas. Especial O Homem
http://bigthink.com/series/the-problem-with-men
Site do Dia Internacional do Homem
http://www.internationalmensday.com
Texto publicado na edição do Única de 31 de Dezembro de 2009
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Luis Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 30 de Dez de 2009
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Ganhar milhões iria fazer de si a pessoa mais feliz do mundo? Olhe que não, olhe que não.
É com satisfação que tenho constatado a reacção pujante dos professores de Harvard aos gurus mediúnicos de autoajuda. Quando de facto uma área considerável das livrarias (e hipermercados e gasolineiras) já está perdida para tudo o que é manual místico para resolver dramas quotidianos desta e da próxima vida, eis que os mais carismáticos cientistas colocam as suas palestras online num registo prime time TV: 25 minutos, com piadolas a pontuar, e slides a resumir. Este semestre tirei uma especialização em neurociência, enquanto estava por casa a dobrar meias e a tratar da roupa. As coisas do cérebro sempre me interessaram e dá melhor conversa de bar do que o Espaço não só pelo desinvestimento da NASA mas porque até os próprios planetas estão a ser despromovidos.
Em contrapartida o que se passa com o cérebro é um turbilhão notável de actividade noticiosa. Todas as semanas há novidades sobre o que lá se extrai de luzinhas a piscar nas Ressonâncias Magnéticas. Ainda há dias noticiava o Expresso que as memórias traumatizantes já podem ser apagadas. Uma destas tardes fiquei pespegado a um documentário no Discovery a ver um cientista explicar a dificuldade de conduzir uma experiência sobre as diferenças entre o orgasmo feminino e masculino no cérebro. A questão - fascinante - foi como colocar os objectos de estudo numa monstruosa máquina de scanner, injectar-lhes um líquido de contraste que só dura dois minutos e pedir-lhes que tivessem ali um orgasmo.
Uma das mais interessantes investigações está relacionada com a existência de Deus no cérebro seja no modo como as crenças religiosas "acendem" diversas zonas como na própria conclusão de que afinal Ele já se escapou de lá não existindo um único "Ponto Deus" - o "God Spot" - responsável pelas experiências divinas.
Ora quem chegou até aqui dirá que dobro muita peúga. Mas o propósito deste texto tem a ver com o modo como o cérebro banaliza e anula a felicidade de ganhar o totoloto (isto é Harvard, via Daniel Gilbert, do melhor, hein?). Há dias tentei sacar este material num jantar natalício com um estrangeiro que dizia que os portugueses eram todos uns pategos que não sabiam ser felizes. Expliquei que isso da felicidade é fruto de um simulador de experiências que temos no córtex cerebral, uma dança de neurónios, e que até funciona bastante mal quanto à capacidade de prever o que nos irá fazer feliz. A verdade, disse com complacência, é que tendemos para exagerar o impacto que determinados eventos irão ter em nós: sejam eles negativos ou positivos, triviais e de coração, namoros ou infidelidades, carreira e promoções, gafes, vitórias e derrotas, mas também desejos obsessivos como emagrecer ou mudar de carro. Esses eventos, disse ao beberricar a cola-light, diluem-se nas nossas vidas rapidamente. Há mesmo experiências científicas feitas com vencedores de lotaria e com pessoas que ficaram paraplégicas. Ao fim de um período de tempo essas pessoas estão igualmente felizes (ou infelizes) ao que estavam antes desse acontecimento marcante.
E embora sejamos maus a decidir e a calcular o que nos faz feliz no futuro - porque evoluímos muito depressa de grupos pequenos que tinham vidas curtas e queriam procriar - somos muito bons a racionalizar as novas situações em que nos encontramos: quer tenhamos ganho dez milhões ou tenham publicado uma foto nossa todo nu na primeira página da revista de fofocas. Pensei avançar com a equação de Bernoulli aplicada ao valor das decisões mas o peru de Natal chegou.
Digo-vos que este é naco de primeira para arrasar com preconceitos antropológicos sobre a infelicidade dos povos. "Que portuga mais babaca", disse-me o meu interlocutor etilizado e com cara de quem não tinha estado a pescar uma palavra da bela teoria do córtex pré-frontal com neurónios dançarinos. Lá falhara a capacidade de prever o futuro. Para a próxima limito-me a cantar o fado.
Daniel Gilbert
Professor de Psicologia em Harvard e uma das maiores sumidades sobre o modo como o cérebro produz e cria imunidade à felicidade é autor de uma série documental de seis horas para a PBS em Janeiro que estará à venda durante 2010. "This Emotional Life" conta com a participação de vários cientistas e de personalidades como Chevy Chase, Larry David, Alanis Morissette, Dalai Lama, John Leguizamo e Richard Gere.
Palestras de Gilbert no seu site pessoal
http://www.wjh.harvard.edu/~dtg/gilbert.htm
Documentário - This Emotional Life - Understanding our Human Nature
http://www.pbs.org/thisemotionallife/
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 23 de Dez de 2009
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Agora que se sabe que o golfe é para tarados o melhor é optar por uma carreira no póquer.
Já se sabia que nos verdejantes campos de golfe se faziam a céu aberto grandes negociatas escuras. Agora, graças a Tiger Woods e às suas 11 amantes também se ficou a saber que até o nosso Cristiano Ronaldo é um tenrinho. Ah, rapazes e desporto: dêem-lhes a sensação de poder ilimitado, autoconfiança de um Deus, a conta bancária de um xeque, um telemóvel com saldo e vá-se lá saber como eles começam a mandar sms malandros a miúdas. Independentemente se jogam golfe, boxe ou curling. Mas enquanto se discute o drama que as infidelidades de Tiger Woods podem ter infligido à reputação do classicista golfe gostaria de entender como é que de repente o póquer, esse jogo de cartas, perdição, com mulheres, fumo e uísque se tornou ele próprio um desporto aceitável, clean, assim como nos filmes de gangsters, a determinada altura, o Boss decide dedicar-se ao negócio da importação de carnes ou investir na sucata.
O póquer é hoje uma espécie de 'Novas Oportunidades' para rapaziada nova, pois promete uma carreira de futuro para os que têm argúcia e ousadia, capital para investir e capacidade para estar muitas horas sentado. Há programas na SIC Radical, no Eurosport e o Poker Channel transmite 24 horas no Cabo. O póquer ganhou uma patine tão respeitável que este ano se realizou mesmo em Portugal o 1º Campeonato Universitário com um prémio de 10 mil dólares americanos. Desconhece-se se algum destes estudantes participou no fim-de-semana passado, em Paredes, na reunião dos Jogadores Anónimos.
Os defensores do póquer dão sempre uma aura mental e estratégica ao jogo - perdão, ao seu desporto, colocando o casino apenas como pano verde circunstancial. O póquer seria assim um xadrez de cartas com uma percentagem de sorte no dealing, a que se junta a capacidade de autocontrolo e interpretativa na interacção, em que o bluff enquanto anulação de emotividade - mesmo ao nível fisiológico - exigiria algo especial do jogador. Pode ser. Mas tem dinheiro em jogo. E todas as componentes que levam à adição, dizem os psicólogos. Para não falar do póquer online, o grosso da poquermania hoje em dia.
O interessante foi constatar como foi possível adaptar um jogo de cartas silencioso à linguagem televisiva. O drama é activamente narrado (até há dois comentadores portugueses no Eurosport), que dão intensidade e descodificam as regras. Os jogadores são eles próprios fashion statements (excessivamente carregados de marcas dinheiro novo, de Gucci a Versace) mas com grande densidade e carga psicológica - afinal estão todos a fazer poker face - mas com um ar exótico e circense. O telespectador tem acesso a uma câmara que lhe permite saber as mãos de todos os jogadores. As decisões de quem arrisca são acompanhadas por quem está no sofá. Tal como acontece nos concursos de cultura geral, dá sempre aquela sensação de que 'até eu era capaz'.
Olhe-se para o franzino Joe Cada, um americano de 21 anos do Michigan que ganhou, em Julho, o World Series- o prémio de 8,547,042 milhões de dólares. Um prémio de póquer recebe-se sempre em dólar vivo, em 'narta' verdadeira. O que levanta a questão: para Joe ganhar 8,547,042 milhões de dólares alguém teve que os perder, certo? Terão eles ido à reunião dos Jogadores Anónimos, no fim-de-semana passado, em Paredes? Desconheço.
Verdade se diga que durante anos a ignorância das regras do basebol ou do futebol americano foram muitas vezes impeditivas para se compreender muito plot de filme. Tanta vez escapou a relação do encadeamento amoroso e problema no ombro do lançador. Agora, depois de ver uns quantos torneios de Texas hold'em, continuo a não pescar as regras mas pelo que vi de certeza que ganhava aquilo nas calmas.
Mas quando revejo "A Golpada" (The Sting) ainda torço pelo Newman e pelo Redford: burlões e não 'desportistas' como os jogadores de póquer da actualidade mas mulherengos como os golfistas do final de 2009.
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009
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Enviaram 12 mil inquéritos a 40 países. E obtiveram uma resposta.
E chegado o Natal, elas começam a dar dicas imperceptíveis sobre a prenda que realmente querem mas os homens continuam sem perceber. Mesmo que os sinais sejam evidentes: chega de perfumes, livros ou CDs. Um dia eles são finalmente chamados à razão, abrem a boca de espanto em forma de goraz na banca do peixe e exalam este pensamento: "Mas que raio é que as mulheres verdadeiramente querem?".
No filme "O Que as Mulheres Querem" (2000), o macho-alfa Mel Gibson, um publicitário chauvinista, chega mesmo ao desespero de se travestir, depilar, pintar e enfiar uns collants para entrar na mente de uma mulher e assim descobrir o enigma. Mas era um caso de desespero pois tratava-se de não perder o seu emprego devido à chefe, Helen Hunt. E só quando fica com a capacidade sobrenatural de 'ouvir' os pensamentos das mulheres (na língua 'venusiana' delas em contraponto ao seu 'marcianês') é que ganha a vantagem competitiva nas campanhas publicitárias direccionadas ao público feminino. E a meio do filme enlouquece.
Dez anos depois a questão não se entrega a publicitários misóginos com poderes telepáticos. A Boston Consulting Group fez uma pesquisa a 12 mil mulheres em 40 países - um dos maiores estudos de mercado alguma vez efectuados e que foi publicado há dois meses - e a resposta foi desarmantemente simples: 'tempo'. E não, não é 'dar um tempo' ou um 'preciso de tempo para mim'. Consta que essas até são tiradas de cromossoma y.
Alguns argumentam que esta é uma conclusão óbvia. Ora deve ser gente com poderes sobrenaturais, digo eu. Este trend feminino é um fenómeno à escala global nos países de economia industrializada seja na China poluída ou Suécia igualitária, sendo uma necessidade transversal a produtos fitness, financeiros ou domésticos. E a equação repete-se: quanto mais liberdade as mulheres têm para perseguir os seus objectivos de auto-realização, mais dinheiro possuem mas menos tempo têm disponível e mais infelizes se sentem.
Claro que os homens dirão que com eles se passa o mesmo. Só que não é preciso nenhum estudo da BCG para saber que, por exemplo, o 'tempo masculino' é razoavelmente diferente do E=MC2 e mais parecido com uma relação binária: nascer\morrer; acordar\dormir; levantar tampo sanita\esquecer baixar tampo sanita; mulher a falar\mulher calada; jogo\intervalo; receber\gastar. Pode é ter mais ou menos polimento civilizado mas esta é uma generalização aceitável (sejamos francos, boys).
O estudo conclui que as mulheres estão esmagadas entre a carreira e a sobrecarga de tarefas, a maternidade, o trabalho doméstico, e cuidar da imagem (para se apresentar como 'pronta' têm horas e anos na composição prévia da sua feminilidade), tendo que exercer em simultâneo vários papéis - esposa, mãe, sócia, profissional, amiga, colega, irmã e filha - lutando por esticar os dias reconvertendo a sua existência numa 'revolução da des-satistação'. Os homens fingem não saber isto enquanto lêem o desportivo no laptop.
Está contudo a surgir uma avassaladora 'economia no feminino' virada para o factor tempo, tendo em conta os valores destas consumidoras, dizem da BCG. As mulheres privilegiam os valores humanos e têm "objectivos sublimes", garantem os autores do estudo. As coisas mais importantes para elas são: amor (77%), saúde (58%), honestidade (51%) e bem-estar emocional (48%). O que é diferente da canalha dos homens que, como sabemos através de Charlie Sheen no filme "Wall Street" e agora foi confirmado por aquilo do subprime, Madoff e BPN, davam péssimos convidados da Oprah.
Que deve um homem fazer com esta informação? Bom, sem querer intrometer-me na vida alheia podia oferecer 'tempo'. Por exemplo... um ano a aspirar a casa ou a decidir as ementas das refeições da família. Para os mais práticos, um Rolex cravejado a diamantes é um derivado, mas também serve.
Valores Ao contrário da ideia feita, o estudo revela que poucas mulheres respondem "Quero ser feliz". As mulheres hoje dizem desejar um tipo de felicidade aspiracional ligada a algo, seja o trabalho, relação, família, finanças ou ao seu papel no mundo.
Livro "Women Want More - How to Capture Your Share of the World's Largest, Fast-Growing Market"
, Michael J. Silverstein e Kate Sayre, HarperBusiness, Setembro 2009.
Dados, conceitos e categorias da 'Economia no Feminino' bem como vídeos com os autores e possibilidade de participação na pesquisa
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 9 de Dez de 2009
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Isabel Alçada ousou colocar jornalistas sob escuta. Os teens percebem-na.
Tal como apareceu nos jornais, parece um atentadozito que noutros tempos faria primeira página, mais um Watergate à portuguesa: um elemento da Educação, Isabel Alçada, deixou deliberadamente um gravador ligado junto a um grupo de jornalistas que aguardavam uma declaração de um secretário de Estado. Um gravador... O grau zero das escutas, o método Richard Nixon. E assim falaram descontraidamente dos assuntos do dia, como o 'Face Oculta', tendo os seus desabafos e piadolas sido gravados. Isto exige concentração. Foi uma escuta a jornalistas que estavam a discutir entre amigos as escutas feitas ao amigo Vara e ao amigo Sócrates. Falta ainda o toque final. Após ter sido descoberto por uma jornalista da TVI (olhinho educado pelas bocas da Moura Guedes), o membro do ministério disse: "Assim temos as mesmas armas." O que nem é justo, porque os jornalistas têm os bufos na PGR ou lá onde é, e o assessor tem a ERC, o "DN", a RTP, o "JN", e os tais blogues de que o Pacheco fala.
Há já pouca disponibilidade mental para discutir mais escutas - ainda mais a jornalistas, embora estas não tenham sido caucionadas por um juiz e mandadas para a co-incineração pelo Noronha. Mas o que leva o gabinete da ministra da Educação a arriscar uma jogada destas? Demonstrar publicamente a conversão ao socratismo? Jack Bauer e o "24"? Saber o que pensam os jornalistas? É espreitar o twitter. Apanhá-los a dizer palavrões? É ir a uma redacção. Pesporrência caloira de um funcionário? Mas ainda não foi promovido. Ou, a ministra Isabel Alçada está muito à frente? É por aqui...
Só pode ser um resultado de muito ano a escrever para tweenies e teens - e isto é um elogio. Se há uns anos os adolescentes perderam a noção da sua própria privacidade, hoje estão convictos de que a privacidade dos outros é algo que está ali para ser pirateada e lhes pode pertencer, desde que não sejam descobertos.
Muitos ficaram espantados com a "extraordinária capacidade tecnológica" da PJ a escutar Armando Vara. Tinham como tabela a tecnologia utilizada nas escutas a Ferro Rodrigues em 1998: "estou-me a c&g%r para o segredo de Justiça". Mas, numa década, as obscenidades ditas ao telefone por políticos podem ser as mesmas ou até mais rurais. Mas a tecnologia avança.
Do seu contacto com a e-juventude, Isabel Alçada saberá que por todos os lados existem pubs que anunciam em inglês "desconfias que @ teu namorad@ te engan@?". E mostram os aparelhinhos para aceder aos SMS em directo, escutar as chamadas e até saber a localização GPS. Faz parte do TPC de qualquer escritora para teens saber estas coisas. Um 'Magalhães' para cada aluno da primária, um SIS em cada aluno da secundária.
Aliás, já se abriu uma nova oportunidade: a protecção de telemóveis de namorados traídos, ou empregados espiados. Para nós, simples cidadãos, há regras de bom senso, banalíssimas, e que podemos cumprir: basta pensar que é possível que o seu patrão, o ex-amor de sua vida, maior inimigo, ministro da tutela (redundância, sei) ou apenas um casual serial killer está a segui-lo e a espreitá-lo. É um bom começo.
Tem assim que viver numa constante paranóia e acreditar que o telemóvel é um microfone que conta tudo. Lembre-se que quanto mais sofisticado for o smartphone mais ele tem para chibar. E, mesmo assim, haverá sempre um funcionário de um ministério pronto para deixar um gravador ligado. Ou uma porta entreaberta, um micro direccional barato que ouve a 300 metros. É o pior pesadelo do Presidente da República e o sonho molhado dos sonhos molhados do ministro Santos Silva.
Depois de seguir estas regras básicas, temos que nos artilhar para escutar quem julgarmos que possa estar a escutar-nos. Afinal, se estamos a viver uma "Aventura no País dos Escutados" é "preciso ter as mesmas armas", como dizem do gabinete de Isabel Alçada.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009
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Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009
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Com mais de 900 mil utilizadores, a 'nossa' rede social dá sinais de enlouquecer.
A palavra do ano de 2009 segundo o "New Oxford Dictionary" foi sacada do Facebook e é unfriend que significa remover um utilizador da categoria de 'amigo'. Tipo 'desamigar' ou 'anulamigar'. É um verbo, uma acção, um enxotar. Mas mesmo assim menos violenta que bloquear - que é um acto de snipper, que visa evaporizar alguém, em vez de apenas o retirar da vista. Desamigar é um fazer 'desaparecer' da minha propriedade, mas não um é passeio de helicóptero com um ditador sul-americano dos anos 70. Para mais não ser visto.
O que me parece relevante é que a palavra deste ano seja uma reacção negativa no meio de toda a terminologia criada sobre a rede social Facebook. Não é um acto de hossana à amizade 'facebuquiana' mas um corte de relações. É um xóó.
Isto do Face não é apenas uma obsessão minha - até já saí de lá há umas semanas (um dia de cada vez, um dia de cada vez...). Em Janeiro deste ano o número de utilizadores em Portugal era de 150 mil. Hoje ultrapassa os 910 mil, e tem já grande incidência nas gerações mais cotas. Tal equivale a um aumento de 507% este ano. O que deverá ter efeitos na produtividade nacional. A nível mundial atingiu os 300 milhões de utilizadores, metade dos quais entre os 25 e os 44 anos.
E a verdade é que nos últimos meses a vida no FB português parece estar a mudar e a perder a sua inocência - verdade seja dita que a parte nebulosa dos relacionamentos amorosos tenha estado no subtexto por baixo do muro (alguns psiquiatras garantem que 'Facebook' é hoje das palavras mais ouvidas nos seus consultórios). Já diziam em 2008 os e-sarcásticos que o Facebook é o sonho tornado realidade dos stalkers, dos voyeurs, da CIA e do FBI, e não é mais que um concurso de popularidade que consiste em reunir pontos a que chamam 'amigos'. Ora tudo isso se regista também no caso português. Mas com quase um milhão de contas neste pequeno rectângulo a asfixia provinciana começa a revelar-se.
Em nove meses de Facebook arranjei uma imagem parva de face-playboy que criei no início para criar buzz para crónicas. Em Agosto fui 'alvo' de uma escroque profissional quarentona que ataca no Face para chantagear e está 'adormecida' a recolher info à espera do momento ideal. Fui convidado pela Sociedade Civil da RTP2 como alegre 'viciado' no Facebook. Uma finalista de jornalismo chegou ao desplante de querer escrever a sua tese final sobre o meu "comportamento no Face".
As histórias bizarras que me foram chegando, de mails nocturnos, guerras por trás do wall, zangas entre 'amigas fecebuquinas', comportamentos bizarros de santinhos, foram-se multiplicando. Uma alegria.
Mas perigosa. As mulheres (e homens...) perceberam que estão mesmo efectivamente vulneráveis a todo o tipo de tarados com que se cruzaram ao longo da vida e que, obviamente, percebem que este é o meio caído do céu para se 'vingarem', para aterrorizar e regressarem através de perfis falsos e de forma sistemática como só mentes doentes conseguem fazer.
Unfriend, 'desamigação' é assim um termo aplicável. Cada vez mais se vai constatando que os colectores orgulhosos de milhares de 'amigos' vão sendo substituídos por perfis fechados, em cocooning, em casulo, com apenas algumas dezenas pessoas. E depois há as notícias de patrões que despedem e seguradoras que descobrem via face. A realidade é lixada.
E quem hoje já tem uns meses desta rede social já consegue perceber o que quer dizer facechulo, facementiroso, facepêga, facejunkie, facecrise de meia-idade, facefilósofo, face-espião, facesnob, facemarmelanço, face-encornanço, facegaranhão, face-rainha, face-youtuber, facegenocídio, facebeicinho, face-suicídio, faceautista, facebipolar e podia continuar... Quem começa a desamigar vai por tipologias.
Estou com facenáusea. Se visse mais algum noviço a descobrir eufórico o vídeo do "Into My Arms" do Nick Cave, ou perder uma ovelhinha do Farmville deixaria de perceber porque é que algum dia voltarei a defender aguerridamente as redes sociais. Quase de certeza o Facebook. Por ora, continuemos o facedetox. Um dia de cada vez, um dia de cada vez...
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009
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