11/02/2012 atualizado às 14:21
Página Inicial » Blogues » Luís Carmelo
Pág. 1 de 19  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.

Provas de Aferição: uma metáfora do país

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
10:30 Sábado, 8 de maio de 2010

Na Mensagem, Pessoa identificou o mito com esse "nada que é tudo". Bem sabia o poeta que o Nada tinha um grande futuro à sua frente. Um futuro igual a um rato que pariu, não uma montanha, mas as próprias Provas de Aferição.

Só o nome - Provas de Aferição - sabe a coisa sem sal. Deixemo-nos de juízos, até porque eu gosto realmente da designação. Porquê? É simples: trata-se da melhor metáfora do funcionamento do nosso querido país.

Ora veja-se: uma imensa ostensão mediática, o entusiasmo rocambolesco dos "agentes educativos", a excitação das crianças, uma polémica medonha e um nervoso do caraças na epiderme da 5 de Outubro. Enfim: um transatlântico a tremelicar como se houvesse maremoto e as trevas mesmo ali no fundo do horizonte.

Só que chegadinhos ao fim, estas Provas de Aferição não contam. Isto é: havia que explicar a estónios, afegãos e etíopes que estas Provas, embora sendo Provas, não avaliam coisa nenhuma. Não dão nota, nem aprovam, nem chumbam. Nada disso, pois a pedagogia vê mais além. Tal como os deuses do tártaro - do tempo dos romanos - que conheciam a batida do coração dos fundos da terra mãe.

As Provas de Aferição não separam o trigo do joio, pois servem apenas para ensaiar, para estudar, para investigar. Melhor: servem para os pedagogos medirem a didáctica com uma fita métrica conceptual. Finalidade: verificar se os objectivos, as competências e o espírito santo (os três num só) corresponderam ao planeamento e ao esgar do sistema. Não separam joio do trigo, mas permitem ver mais além. Como os deuses do tártaro. Uma iluminação pungente.

Toda a pesada logística, toda a complexa preparação das Provas e toda a sua operacionalidade, monitorizada - como agora se diz - minuto a minuto, dá origem, no fim do caminho, a Nada. Uma óptima metáfora do país: tanta tinta, tanto aceno palavroso, tanto relatório, tanto estudo de viabilidade, tanta discussão, tanto espaço público, tanto fórum, tanta comissão de inquérito. E Nada.

Para María Zambrano, o Nada foi a última aparição do sagrado. Ela bem sabia que havia missas na 5 de Outubro. Na Mensagem, livro onde Pessoa introduz a ideia do rosto europeu, o poeta identificou o mito com esse "nada que é tudo", como se fosse "o corpo morto de Deus/ vivo e desnudo" que "aportou" em Portugal. Pessoa bem sabia que o Nada tinha um grande futuro à sua frente.

Um futuro igual a um rato que pariu, não uma montanha, mas as próprias Provas de Aferição. Não há melhor retrato de um certo Portugal do que estas Provas de Aferição. Elas são a metáfora dos gases raros em que, infelizmente, nos tornámos.

3

Ricardo Rodrigues, a Luísa Vilaça de Eça

Luís Carmelo
10:00 Sexta feira, 7 de maio de 2010

Para Ricardo Rodrigues, um roubo é coisa que pode ter todo o sentido. Um acto previdente, não fosse o diabo tolhê-las ou o Eça mandar o seu Macário minhoto desancá-lo. 

Se o senhor deputado Ricardo Rodrigues fosse a Luísa Vilaça que Eça criou no seu conto, As singularidades de uma rapariga loura, teria tido outro destino. Luísa ficou sem o casamento prometido por Macário por ter roubado um simples anel mesmo no final do conto e não houve Assembleia da República que lhe valesse.

O sentido e a ausência de sentido, se é que tal existe, têm sido, há séculos, matéria de estudo em algumas ciências. Desde que o tempo é tempo que a interrogação sobre o sentido das coisas nos persegue. E, apesar disso, parece que estamos sempre na estaca zero, no início da maratona, numa espécie de angústia sem meta.

Por vezes, é na literatura que o sentido e o que escapa ao sentido melhor se elucidam. Continuo, claro está, a lembrar-me do modo como o protagonista do conto de Eça escutou, numa estalagem do Minho, o pobre Macário a confessar-lhe a história da sua desgraçada Luísa. Como se a angústia do que, subitamente, parece ter deixado de ter sentido nos paralisasse. Ou, pelo menos, paralisou o personagem Macário. Mas não o senhor deputado Ricardo Rodrigues.

Para o deputado açoriano do PS, um roubo é coisa que pode ter todo o sentido, sobretudo, se ele, coitado, se sentir - como parece ter sido o caso - a percorrer um precipício sem fundo (vá-se lá saber porquê). Foi por isso que, sem hesitações e como se fosse a coisa mais natural do mundo, Ricardo Rodrigues acabou por dar consigo a fanar dois gravadores digitais que eram propriedade de jornalistas da revista Sábado.

O delírio, ou o clímax da vergonha mais descarada, foi depois a conferência de imprensa - ou melhor, a declaração (com ares de coisa solene) - que o deputado promoveu com o objectivo de restituir sentido ao seu acto sem sentido nenhum. Um acto previdente, não fosse o diabo tolhê-las ou o Eça mandar o seu Macário minhoto desancá-lo.

1

A ilusão da liberdade

Luís Carmelo
14:18 Quinta feira, 6 de maio de 2010

O que comanda as escolhas no Facebook não é uma súmula de interesses ou critérios e muito menos a liberdade. Existe um fluxo bem anterior a tudo isso, espécie de voragem cega que manipula vontades, desejos e opções tal como se manipulam marionetas. 

Ao lado da página pessoal que tenho no Facebook, e que apenas utilizo para sinalizar as crónicas e editoriais que escrevo semanalmente, decidi criar, nessa mesma rede social, uma "página empresa" com o objectivo de difundir uma das actividades em que estou profissionalmente envolvido.

Os fãs apareceram com uma velocidade estonteante e, se essa cativação equivalesse a negócio, estaria já rico a beber gim tónico de charuto na mão a bordo de um resort qualquer da Polinésia. Mas percebi bem cedo que os fãs entram tal como a luz matinal entra no meu quarto, ou seja, de modo natural e sem interpelações. Dir-se-á, por outro lado: sem sentido nenhum, tendo em conta a actividade que ali deveria reunir apenas os interessados.

Uma das pessoas que por ali passou - e que logo ficou fã -, confrontada com esta inadequação óbvia, deixou escrito no mural uma passagem a todos os títulos esclarecedora. Ora leia-se: "...num site como este é fácil clicar num botão e, sem sabermos como nem porquê, tornamo-nos fãs até das reticências (só digo isto porque nada mais me ocorre)...".

Melhor do que esta prestação, é difícil. E a senhora apenas escreveu o que escreveu - óptima metáfora, realmente, a das "reticências" - por ter sido, no momento, a expressão mais apropriada para traduzir o que lhe iria na alma. Nada mais "lhe ocorreu"!

O que comanda as escolhas no Facebook não é, portanto, uma súmula de interesses ou critérios e muito menos a liberdade individual de poder seleccionar caminhos. Não, absolutamente nada disso. Existe um fluxo bem anterior a tudo isso, espécie de voragem cega que manipula vontades, desejos e opções tal como se manipulam marionetas.

Mas uma manipulação sem patrono orwelliano. Por outras palavras: uma manipulação de tipo novo que começa e acaba em quem a pratica. Uma automacidade que ilude a liberdade.

Apetece dizer: o vazio apenas existe para que as reticências o preencham. Como suas boas fãs. Porque nada mais lhe ocorre. Ao vazio.

Sinal dos tempos, diria eu.

Manuel Alegre: No, you can´t!

Luís Carmelo
22:37 Terça feira, 4 de maio de 2010

O pensamento sinceramente trágico de Alegre admite que a ausência de valores taxativos, fixos e capazes de marcar ideologicamente a sociedade significa, só por si, ausência de ética

Alegre apresentou-se em Ponta Delgada como o candidato da renovação. Foi essa palavra - a "renovação" - que melhor tentou traduzir a essência da sua candidatura. Contudo, para o bem ou para o mal, Alegre é um candidato muito pouco renovador.

Em primeiro lugar: o mundo está a mudar muito rapidamente e os valores que eram taxativos, certos, quase imutáveis, atravessando e marcando ideologicamente as sociedades, deixaram de ter influência decisiva. A partir da última década do século XX foi despontando, contra a inércia da geração a que pertenço (nasci em 1954), um mundo muito mais livre que se afastou das cartilhas rígidas. Este novo mundo, apesar das crises que são rostos habituais do nosso tempo, é muito melhor e bem mais sadio do que aquele que fez jus à Guerra Fria.

Vivemos, de facto, num mundo bem menos assente em cartilhas e mais problemático e mais aberto. É um mundo que adoptou o instantanismo tecnológico e que estreitou o espaço e o tempo do planeta. É um mundo talvez demasiado relativador e mediático, mas menos nostálgico e dogmático. É um mundo a que Alegre intimamente nunca pertenceu e a que, no fundo, não pertence. Este mundo, naturalmente, também não é o de Cavaco. Poucos são os políticos com espessura que representam o nosso mundo actual de modo positivo, criativo e estimulante. Crise profunda, a da politica, certamente. E não apenas em Portugal.

Estou convicto de que Alegre não incorpora um mundo aberto à iniciativa sem fim, de que a rede é, afinal, uma excelente metáfora. E é por isso que nos crê a todos como afundados. Ou perto disso. O pensamento sinceramente trágico de Alegre admite que a ausência de valores taxativos, previsíveis e capazes de marcar ideologicamente a sociedade significa, só por si, ausência de ética. E é por isso que se apresenta como campeador da ética. Uma espécie de PRD com gravata e barba anteriana: como se a ética fosse o imaginário de uma coutada própria a verberar-se poeticamente. Uma renovação destas precisava, talvez, o mundo do futebol. Não um país.

Toda a aparição de Alegre é almofadada, afectada, própria de quem ostenta um ceptro invisível. Ao invés de uma imagem política renovada - o PR em Portugal é essencialmente um símbolo que pressupõe capacidade de decisão -, Alegre propõe antes uma efígie política de nobreza sobre um plinto composto pelo mármore poético. 

O candidato a PR discursa com um tom declamatório e pausado. Trata a linguagem, não como uma ferramenta para anunciar o verbo político e um leque de mensagens concretas e mobilizadoras, mas como uma linguagem que fala acerca da linguagem. Um registo que se move à volta de si próprio, com óptimo ritmo, boa gradação e uma certa proximidade da rima. Mas, de qualquer modo, um tom proclamatório que pede emprestado ao Parnaso a prosódica para a política. Eficaz para cintilar em corações românticos ou para preencher os vazios de quem não entende - ou não aceita - o mundo em que vivemos.

Um tom exaltante para jovens saudosos, sebásticos de 68 e ideólogos desempregados. Mas uma renovação às avessas, certamente.

1

1ª de Maio: o tabu ou o nosso Ganges?

Luís Carmelo
8:00 Sábado, 1 de maio de 2010

Festejemos o tabu. As pessoas têm toda a legitimidade em crer nas suas Fátimas ou até no meu Benfica. Nem de outro modo a vida teria graça, polémica, ou motivos para os antropólogos se dedicarem às suas sempre curiosíssimas investigações. 

Herdamos ainda hoje um tempo que separava o trabalho daquela classe de "gente" - leia-se depreciativamente - que, um dia, teve a ideia de criar uma empresa e gerar postos de trabalho. Um tempo em que, de modo dicotómico, o anátema do chapéu de côco e a multidão miserável de operários (que o primeiro cinematógrafo de Lumière nos deu a ver) se chocavam de modo irremediável.

A ideologia, repartida por catecismos diversos, seguiu o modelo das propostas de redenção, quase todas herdeiras das escatologias que, no caso das religiões do Livro, prometiam milenarmente um paraíso onde a palavra "injustiça" viria a ser impronunciável. Ingenuidades terríveis, nascidas de factos não menos terríveis e que deixariam a "História" do século XX, em nome de princípios inflamados e até de promessas de igualdade, marcada por crimes hediondos.

Prometer o céu na terra ou para além da morte é algo, no mínimo, insano. Advogar como manifesto político a defesa dos "fracos", dos "oprimidos", do "povo" ou de outra categoria do género, como coisa exclusiva, é algo, no mínimo, insano. Mas, enfim, as pessoas têm toda a legitimidade em crer nas suas Fátimas ou até no meu Benfica. Nem de outro modo a vida teria graça, polémica, ou motivos para os antropólogos se dedicarem às suas sempre curiosíssimas investigações. Insano é um adjectivo parecido com as malas concebidas por certos designers: é algo, de facto, reversível.

Vem isto a propósito do dia Primeiro de Maio (hasteando... maiúsculas). Trata-se de celebrar o óbvio, isto é, aquilo que julgo fazer de manhã à noite, no dia-a-dia, seguramente a par de todos os que estão a ler, neste momento, esta crónica. Há feriados mais problemáticos, ou seja, que bem podiam ser encostados ao domingo mais próximo e celebrados, portanto, com mais afinco e seriedade: o primeiro de Dezembro, o 25 de Abril, o 10 de Junho, o 15 de Agosto, o 8 de Dezembro e mais uns tantos. Mas neste feriado, sim, neste feriado, nascido da fornalha feérica e dogmática do "trabalho", é que... ninguém jamais poderá tocar.

Festejemos então o tabu. E a ironia. E façamo-lo a trabalhar o mais possível. É o meu caso, que não cultivo o sabat, apesar de todos nós sermos - felizmente - um pouco judeus. Trabalhar: essa parte da vida em que se espera uma retribuição qualquer e não essa parte da vida em que nada se espera. Mas o ser humano espera sempre qualquer coisa, aspira sempre a tomar conta do que se lhe apresenta à frente; enfim: move-se para ser. Merecemos, pois, este nosso feriado. Tal como o Ganges merecerá a sua própria redenção diária.

3

Silêncio sem 'share' nem perdão

Luís Carmelo
19:36 Quinta feira, 22 de abril de 2010

No país real já ninguém tem paciência para Comissões de Inquérito. Se a justiça não funciona, ou funciona com morosidades conhecidas, como é que o país consegue colocar-se ao espelho desta febre das Comissões de Inquérito? 

Pedro Soares ficou hoje em silêncio na Comissão de Inquérito. Pois ficou. Grande escândalo. E vindo de quem vem. Do exemplo de menino-prodígio residente em administrações de cunho público. Perdição indigitada. Menino de ouro, 'golden boy'. O símbolo do habitat de corredor, do colhe-colhe, do foge-foge, do 'diz que diz' por trás do reposteiro milanês.

Enfim, providências e cautelas de lado, pois apenas os faraós adoravam o Sol, a verdade é que Pedro Soares foi - e tem sido - um valioso pioneiro. E pioneiro porquê? É simples, caros leitores: porque, daqui a dez anos, todas as Comissões de Inquérito que neste momento estão a decorrer estarão reduzidas ao silêncio. Às cinzas. Ao mutismo mais profundo. Ao esquecimento mais elementar. Este silêncio com asas de escandaleira é, pode crer-se, um silêncio profético, prefigurador, certo de um futuro que sabe ser apenas seu. Sempre o soube. 'Golden future'. 'Golden share'.

O facto é que a redundância é a mãe do nada. A quantidade sem fim de Comissões de Inquérito conduz apenas à anulação dos seus propósitos e das suas finalidades. No país real já ninguém tem paciência para Comissões de Inquérito. Se a justiça não funciona, ou funciona com morosidades conhecidas, como é que o país consegue colocar-se ao espelho desta febre das Comissões de Inquérito?

Propor Comissões de Inquérito apenas para lidar com as frustrações que atravessam os nossos fantasmas públicos - sobretudo porque nada, nem ninguém parece detê-los - é uma ilusão tão grande quanto o é a perda de energia que elas traduzem. E evidenciam.

Acreditem-me: Pedro Soares é magnânino. Só ele soube o que o havia a fazer. E muito bem. E rir-se-á do escândalo. E de muito mais. Porque é pioneiro. Marinheiro pessoano no porto vazio à espera da navegação que é apenas sua. Sem 'share'. Nem perdão. Mas feliz.

O abismo da confiança

Luís Carmelo
10:30 Quarta feira, 14 de abril de 2010

Custa muito construir uma marca, mas é fácil ver uma marca arruinar-se: basta uma ocorrência minimamente significativa que abale tudo o que antes se fez. Com as nomeações governamentais acontece o mesmo, com a diferença de que essa ocorrência minimamente significativa já, há muito, que se tornou em bola de neve. 

"António Castro Guerra, ex-secretário de Estado-Adjunto da Economia de José Sócrates, é o novo chairman da Cimpor": lemos uma notícia como esta quase todas as semanas. Nada tem de anormal. Trata-se da nomeação para um cargo de relevo numa grande empresa. Neste caso concreto, sabe-se que é já uma segunda escolha, na medida em que o governo havia antes proposto Mário Lino para desempenhar idênticas funções. Lembremos que a Cimpor é uma empresa, cuja privatização atravessou várias fases, desde o ano de 1994, e onde o estado detém, hoje em dia, uma 'golden share' de 10%.

Lê-se uma notícia destas e toda a gente sabe o que toda a gente pensa.

De qualquer modo, é demagógico e até populista dar apenas corpo a esse imediato 'estado de alma' que, tal como um arrepio, atravessa de ponta a ponta a nossa sociedade. A voz do taxista - passe a metáfora que não pretende retirar dignidade à profissão - é a primeira a repercutir esse sentimento geral - "São sempre os mesmos, saem do governo e arranjam logo um tacho!".

Mas a verdade é que o indígena ouve a alocução e silencia concordando ou concorda ampliando. É coisa corrente. Há mesmo quem se dedique à opinião, no coração dos media, e que mais não faça do que ampliar ainda mais esta construção. Exemplos há muitos. É o caminho mais fácil e, por vezes, mais apetecível.

Contudo, o nomeado pode e deverá ser - oxalá seja! - uma pessoa competente, íntegra e apropriada para desempenhar o cargo. Espera-se, também, que a esfera concreta onde se processou a decisão tenha sido particularmente ponderada e que os critérios adoptados tenham sido cristalinos. Espera-se tudo isto. E muitas vezes o que se espera confirma-se. Mas, infelizmente, muitas - talvez excessivas - vezes tal acabou por não se verificar.

O fenómeno funciona como as marcas: custa muito construir uma marca: há que alicerçar credibilidade junto do público, há que preservar a imagem e há que manter um óptimo serviço ou produto. Mas é facílimo, de um dia para o outro, ver uma marca arruinar-se: basta uma ocorrência minimamente significativa que abale toda a estrutura do trabalho antes levado a cabo. Com estas nomeações governamentais acontece precisamente o mesmo, com a diferença de que, há muito, que essa ocorrência minimamente significativa já se transformou em bola de neve. E o povo sabe disso.

O povo, enfim, as pessoas... deixaram de confiar. Há muito tempo que esta falta de confiança é o lado mais frágil da nossa democracia. Mas a falta de confiança não se faz apenas sentir por causa deste tipo de nomeações. Acontece, também, por causa da qualidade e da morosidade da justiça ou por causa dos sucessivos descarrilamentos da educação. Acontece um pouco por todo o lado: como uma bactéria que já minou grande parte da nossa iniciativa. E da nossa capacidade de crer colectivo, enquanto país e comunidade.

8

Os Fukuyamas da igreja

Luís Carmelo
14:29 Terça feira, 13 de abril de 2010

No pós-25 de Abril, a questão religiosa nunca foi relevada. O curso normal da convivência democrática sempre pressupôs, no entanto, um certo grau de tabu, de silenciamento ou, pelo menos, de retracção face à liberdade de escrever sobre a igreja. 

Torna-se difícil falar sobre a igreja por muitas razões.

Difícil, desde logo, por causa das fissuras históricas que todos incorporamos ainda que inconscientemente (no caso português, citem-se casos como os da primeira república, das guerras liberais, da expulsão dos jesuítas ou da inquisição).

Difícil, porque abordar a igreja pressupõe quase sempre o reducionismo 'crentes - não crentes', quando o dia-a-dia das pessoas é muito mais complexo do que isso.

Difícil, porque o discurso, os rituais e a proximidade da igreja com a população contrastam amiúde com o que os responsáveis da igreja dizem, fazem e, por vezes, escondem.

Difícil, porque a igreja, sendo uma instituição de homens, tem uma identidade que remete para algo que "está para além da vida".

Difícil, porque, entre nós, no ciclo histórico pós-25 de Abril (ao contrário do que aconteceu, com sinais distintos, no estado novo, na república ou na monarquia), nunca a questão religiosa, felizmente, foi relevada. Não tendo havido perseguições nem adulações. O curso normal da convivência democrática sempre pressupôs, no entanto, um certo grau de tabu, de silenciamento ou, pelo menos, de retracção face à liberdade de escrever sobre a igreja.

Enfim: é difícil falar sobre a igreja, pois a própria igreja - independentemente da natureza teológica e da posição de quem escreve - assenta as suas raízes e a sua razão de ser num "verbo" que se entende a si mesmo como fundo de verdade, de unicidade e, portanto, de salvação.

Só que, por vezes, aquilo que a igreja diz é de tal modo alheado da realidade e tão deslocado do mundo em que vivemos que chega a 'bradar os céus'. É o caso das recentes afirmações de Tarcisio Bertone que relacionam a pedofilia com a homossexualidade, como se a questão do celibato não fosse tida nem achada para os escândalos que têm vindo recentemente a lume.

Há alguns dias, um pregador do Vaticano já havia estabelecido uma relação (inserindo um texto na enunciação do seu próprio texto) entre os 'Progroms' e as piores perseguições históricas aos judeus com esta "cabala mediática" (o termo não foi este, mas o espírito foi-o) que tem denunciado casos de pedofilia oriundos, de modo sistemático, de instituições católicas.

É óbvio que estas relações ferem, escandalizam e sobretudo ofendem.

Se é difícil falar sobre a igreja, por múltiplas razões que a razão tem dificuldade em elencar, o certo é que as acções - e as declarações - da igreja apenas encorajam a que se desbloqueiem tabus e silenciamentos. É difícil não falar e não reagir, quando as mais altas esferas da igreja parecem precipitar-se à beira do abismo.

Não sou crente (no sentido estrito que o catolicismo adopta), nem sou - de modo nenhum - anticlerical. Mas constato que a igreja está a viver um período de raras vocações, de cada vez menor influência na sociedade e de grande crise na sua própria estrutura. Se existisse um Fukuyama da igreja, dir-se-ia que se pressentem tempos de efectivo 'fim da história'.

O Wrestling político e o PSD

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
23:48 Sábado, 10 de abril de 2010

Barthes escreveu há muitos anos sobre o facto de o wrestling não ser um desporto, mas antes um espectáculo. Tal como o strip-tease.

Acabo de ver o Real-Madrid - Barcelona. Passo para os canais de notícias e ouço logo falar em "unidade". Sim: uma espécie de unidade entre Real e Barça ou entre os gladiadores do melhor wrestling que se pratica em Portugal. O ringue de jogo é em Carcavelos, mas não é o velho Carcavelinhos que está ao ataque. É o PSD.

Na TVI24, João Pereira Coutinho sublinha, a certa altura, a "precaridade" da tão citada unidade, enquanto os demais comentadores referem o surrealismo político da situação (parece que Morais Sarmento não quis falar, nas "cordas" do congresso, para não ser entendido como aliado de Sócrates). Os protagonistas e os treinadores do congresso de Carcavelos discursam sobre uma espécie de 'nada' a que faltará a cor das máscaras e os rostos de uma identidade.

O enredo destes congressos mensais do PSD é tão peculiar que Passos Coelho incluiu a oposição interna no seu barco e parece adoptar um tipo de jogo em que obrigatoriamente as equipas marcam golos na própria baliza. É a táctica do empate perpétuo consentido. É a táctica da dissimulação: puro wrestling que tenta sugerir que há bom tempo no canal.

Barthes escreveu há muitos anos sobre o facto de o wrestling não ser um desporto, mas antes um espectáculo. Tal como o strip-tease, que sugere o palpite do sexo sem o ser, o wrestling sugeriria a avidez do desporto embora não passasse - e não passa - de uma táctica espectacular ao serviço de um tão perverso quanto desejado empate.

Qualquer dia, esta "unidade" do PSD ainda vai tornar Alegre num menino ciumento. Quem lhe dera - ao poeta - ter no PS estes furiosos adeptos do wrestling político! Faria bem às suas ilusões e às suas visões de lanterna mágica presidencial.

6

Valença e a alma ferida

Luís Carmelo
15:21 Quarta feira, 7 de abril de 2010

Quando a 'alma colectiva' se sente ferida - o pretexto pode ser o centro de saúde ou qualquer outro -, não há voz que se deixe perceber: o grito e o ritual substituem-na sem cessar, dando assim sentido à perda que não se pode nem quer aceitar. 

O estado moderno só encontrou a sua "plenitude com a aparição de uma nova religião: o nacionalismo". A frase à Monsieur de La Palice é de um jovem investigador da Complutense, Julio Galán, e encontrei-a, há minutos, numa citação que fiz num texto já com cinco anos de idade.

Não posso estar mais de acordo, até porque nunca fui nacionalista.

Aquilo que a nação veio traduzir, no final de setecentos, não se esvai nem se expande por se ser ou não nacionalista. É irrelevante, até porque o que estava em causa era a percepção e o reconhecimento da existência de uma 'alma colectiva'. O mesmo se poderia dizer das grandes teleologias da esquerda de meados de oitocentos. Ao fim e ao cabo, todas elas visavam a superação de obstáculos que a teoria definia com a clareza e a lógica de um microscópio.

Eis duas religiões da modernidade: uma tradicionalmente mais conotada com a direita, embora originalmente bastante jacobina: a nação; outra tradicionalmente mais conotada com a esquerda, embora originalmente de direita (a avaliar pela matriz do Leviatã de Hobbes, por exemplo).

Confusões interessantes como as que se revelam pela boca do generoso povo dos fóruns radiofónicos da manhã que sabiamente analisa o nosso dia-a-dia. Hoje, as bandeiras vermelhas e amarelas de Valença foram tema. A explosão tomou conta da cena e houve quem visse o fim do mundo nessas duas cores quentes e tauromáquicas, assim como houve brados sindicalistas que registaram a bonomia e a excelência da causa.

É caso para dizer que a racionalidade é uma espécie de lapso no meio do turbilhão. Nem direitas, nem esquerdas, nem muito menos os nacionalismos explicarão seja o que for, se os motivos da luta se confundirem com os de uma religião. Quando a 'alma colectiva' se sente ferida - o pretexto pode ser o centro de saúde ou qualquer outro -, não há voz que se deixe perceber: o grito e o ritual substituem-na sem cessar, dando assim sentido à perda que não se pode nem quer aceitar.

O governo saberá tudo isto. Duvido é que saiba lidar com tudo isto.

A prática já demonstrou que a engenharia social, por mais correcta e lógica que seja, depara sempre com o anátema da "Maria da Fonte", capaz por si só de fazer cair ministros e alimentar crises governamentais ou mesmo de regime. É uma das muitas fragilidades da democracia, afinal um preço que todos pagamos para vivermos civilizadamente e com alguma decência.

1
Pág. 1 de 19  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
PUB
Arquivo
Email
O Expresso no
MBA