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Louçã como personagem romanesco

Esta é a quinta de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim deste mês - alguns dos personagens em que votamos. Há quatro semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o quarto caso em análise: o de Francisco Louçã.

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
8:00 Domingo, 4 de outubro de 2009

Ter mundo


Ao contrário de Manuela Ferreira Leite, Sócrates e até Paulo Portas, qualquer escritor que tivesse a ideia de criar o personagem Francisco Louçã ver-se-ia obrigado a um enquadramento histórico das últimas quatro décadas portuguesas. Teria, pois, muito... mas mesmo muito trabalho pela frente. Poderia iniciar a sua longa marcha pelas carteiras do Liceu Padre António Vieira e depois pelos corredores (cheios de cartazes) do antigo ISE. De resto, o personagem seria menos complexo do que os restantes adversários políticos. Trotskista, adepto da quarta internacional, habituado a lidar com pequenos grupos e a acreditar em grandes causas, Louçã tem o recorte exigente do estudioso emocionalmente contido, cuja descrição física - depurada e estriada - encarna na rebeldia activa do pós-sixties. Louçã é indiscutivelmente um caso interessante, pois sempre viveu dentro do aquário da política. E o seu mundo - e todos os que nele desaguam - fazem parte da mesma convicção, direcção e insistência. Mais do que crença pela crença, Louçã incorpora o devir biográfico da crença. Como se o seu itinerário pessoal se fundisse com uma espécie de auto-cumprimento profético. Daí, por exemplo, a interpretação radical (do quase sucumbir do capitalismo) que fez à crise dos mercados do passado Outono. Mais do que um lutador, Louçã é um praticante da palavra implacável. Da palavra que, por si só, mudaria a face da realidade. Um xamanista marxista, se se preferir.

Ter futuro


O futuro que Louçã pode prefigurar é o mesmo que prefigurou até hoje. Com uma diferença: até 1999, os pequeníssimos grupos políticos onde militou (LCI e PSR) não tinham qualquer visibilidade; depois de 1999, à medida que o Bloco se foi posicionando em áreas sobretudo urbanas (substituindo o que antes era a disseminação de partidos comunistas de dimensão mínima), Louçã tornou-se em líder inquestionável. Hoje em dia, com um discurso muito diferente daquele que proferia há mais de uma década, Louçã projecta o descontentamento e diagnostica as inevitáveis falhas de uma democracia aberta, livre e sempre imperfeita. O futuro de que Louçã é anfitrião tem as características de vigilância e protesto que fascinam os mais jovens habitantes do coração do presente. Mas o futuro que cabe na retórica política de Louçã continua a ser tão impetuoso quanto essencialmente vago: tal como a névoa que ornamenta a palavra 'igualdade'.

Ter estrela


Carisma, sim. Capacidade comunicativa, também. Louçã passou de criador de performances de jovens liceais do PSR, no fim das quais falava para a televisão como sacerdote idolatrado, para o papel de temível parlamentar. Muito trabalhador, bem preparado tecnicamente, repentista formado nas antigas RGAs e superlativo nas atitudes (como se a ética se iniciasse no seu próprio arrojo), Louçã tornou-se num sedutor e deixou de ser um mero protestante. Para quem nasceu depois de 1980, Louçã foi sempre o irmão mais velho que era capaz de pôr em causa o establishment entretanto criado. Como se fosse o director de uma espécie de Independente pensado à esquerda e com muito mais experiência e fôlego "histórico" (para a esquerda, a história navega em direcção a uma verdade) do que as jovens direitas. O carisma de Louçã identifica-se com o desconforto que é próprio de um sistema aberto. E onde as rupturas - ao contrário do que acontece numa ditadura - estão sempre expostas.

Ter um desejo mobilizador


Imaginar um sonho de Louçã com o qual se identificassem vários milhões de pessoas parece-me algo sem sentido. A mobilização que Louçã propaga é difusa, parcelar e própria de franjas que se revêem em círculos restritos onde tudo, ou quase tudo, faz sentido (ou deveria fazer sentido). Os crentes na palavra de Louçã pressentem, de algum modo, que existe um conjunto de respostas para todas as grandes questões. O vazio atormenta-os. O desejo que o Bloco expande é um ininterrupto desejo de revolta. Uma intranquila vontade de ajustar, a todo o tempo, a medida das coisas. O desejo de apontar o dedo aos culpados pelo desconcerto. O desejo de mobilizar para equilibrar os desníveis injustos do mundo. Um desejo indiscutível na perspectiva de quem o deseja.

Ter retaguarda


Não se conhece mundo para além do mundo político a Louçã. A esfera privada é encarada, por um personagem à imagem de Louça, como algo sem importância e com um significado, cuja natureza não não se enquadra minimamente no domínio público. De tal modo assim é que rara também é a prospecção mediática de Louçã fora do aquário político. Mesmo se a reportagem vai a sua casa, sobrevive ao feito o mesmo assertivo e decidido tom de voz. Nada que espelhe uma emoção desencontrada se descortina. Nada que espelhe uma ironia espontânea e sem referências políticas imediatas se descortina. Louça é um personagem frio e secundário que fecha a sete chaves a sua retaguarda.

Luís Carmelo
Professor universitário e autor

Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009

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Louçã como personagem romanesco
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 14:47 | Domingo, 4 de outubro de 2009
Em relação ao BE no que se refere aos Deputados no Parlamento isto define-se mais ou menos assim:- Um é pouco, dois está bem e três é de mais. No que se refere ao seu Lider não passa de espuma. A votação neste partido, só vem provar que não sendo já um povo na sua maioria analfabeto ainda não atingiu o patamar de culto.
 
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    Re: Louçã como personagem romanesco    Ver comentário
clareza (seguir utilizador), 1 ponto , 22:26 | Domingo, 4 de outubro de 2009
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