Primeiro construíram-se os prédios azuis. São o epicentro de quase todos os problemas. Quem pode sai de lá, quem não pode fica sitiado. Depois foram os prédios amarelos. Por fim, os prédios rosa, a zona mais pacata do bairro. Cada zona corresponde a uma leva de realojamentos. Foi ali, na Bela Vista, que se acumularam todas as misérias de Setúbal. E, como as imagens revelam de forma clara, o bairro foi deixado à sua sorte, degradado e mal tratado, mostrando o desinteresse das autoridades nos dias em que não há crime nem televisões. Laxista não é quem está farto de dizer que estes bairros só podem acabar em tragédia. É quem só se lembra da tragédia quando chega o momento de chamar a polícia.
Em 1999 ouvimos falar da Bela Vista por causa de uns assaltos na CREL. Em 2002 voltou a ser notícia. Tony teve a má ideia de tentar mediar um desentendimento entre um polícia e um miúdo. Levou com um tiro de borracha e acabou por morrer. A revolta foi muita. Tony não era um delinquente. Trabalhava numa associação e todos o conheciam e respeitavam no bairro. Ficou uma pergunta: valerá a pena seguir o caminho certo? Agora, em 2009, por causa da morte de um rapaz que participava num assalto a uma caixa multibanco, explodiu tudo de novo.
Quando é notícia, o bairro fica em estado de sítio. Os recolheres obrigatórios e as rusgas espectaculares ajudam à má fama. Dizer que se é da Bela Vista torna-se um cartão de visita para a desconfiança. E se têm a fama, porque não o proveito?
Na Bela Vista não há nada para fazer e as associações locais, apesar do excelente trabalho, quase não têm financiamento. Quando chegam aos 13 anos os miúdos entram na pequena criminalidade. Imitam os irmãos que geralmente acalmam aos 16. Com mais de 20 por cento de desemprego, uma parte da população recebe rendimento mínimo: 300 euros em média para famílias numerosas.
Nem tudo é mau. Ainda que a maioria dos moradores seja portuguesa de origem, há gente de todas as etnias. E não há, ainda, conflitos graves entre os vários grupos. Mas a Bela Vista já passou por melhores dias.
Houve um comissário de polícia, daqueles que o senhor Paulo Portas não gosta, que fez a diferença. O comissário Guerra fazia rusgas na companhia dos miúdos, jogos de futebol entre polícias e jovens, churrascos com os moradores no pátio da esquadra. Falava com os jovens. Conhecia-os. Não se enganem: era um polícia da cabeça aos pés e não estava a brincar.
Mas sabia do ofício. E, durante anos, o bairro conheceu uma paz relativa. Nada ajudava: a falta de iluminação e os labirintos e becos provavam a incompetência de quem fez o bairro. Mas o comissário era bom e por isso foi para assessor do Ministério.
Os jovens da Bela Vista sabem o que fazem e sabem que fazem mal. Não quero por isso embarcar em discursos paternalistas. A polícia tem de fazer o seu trabalho, até para proteger as pessoas do bairro. E não é a crise que vivemos que explica tudo, apesar de na Bela Vista as crises se sentirem a dobrar. Mas todas as explosões sociais têm um contexto. Os políticos que vêem em cada motim uma oportunidade para amealhar votos acham que discutir o que ali se passa é justificar o crime. É natural que assim pensem. Para quem não quer resolver nada a solução está no fim da linha, quando a polícia tem de ocupar um bairro. E, nos intervalos de cada confronto, basta manter a miséria bem longe da vista. Parecem firmes, estes populistas. São só irresponsáveis.
Daniel Oliveira