Marques Mendes não quer comentar publicamente as listas de Manuela Ferreira Leite. "Este não é o momento. Quando achar que o devo fazer, falarei", explicou o ex-líder do PSD ao Expresso. Mas nas suas palavras transparece o desconforto com a actual direcção do partido. A propósito da lei da inibição de candidaturas de cidadãos com processos judiciais, Marques Mendes não se coibiu de criticar a apatia de Ferreira Leite: "Nestas matérias de fractura, haver uma liderança forte é muito importante", explicou, ficando implícito o remoque à sua sucessora.
Muito mais explícito é o homem que foi seu secretário-geral no PSD, Azevedo Soares: "Mais uma vez, Ferreira Leite comprovou a sua incompetência política", diz a propósito das listas de candidatos a deputados. "Ela não tem estatura para ser líder do PSD", conclui.
Azevedo Soares não compreende as inclusões e as exclusões: "Ela tinha a obrigação de unir e de mobilizar. Fez exactamente o contrário". Do ponto de vista estratégico, o ex-secretário-geral do PSD denuncia a colagem à direita: "Absolutamente dispensável, quando as sondagens mostram que nós perdemos votos à esquerda".
O tom crítico é partilhado com o secretário-geral que lhe sucedeu, Ribau Esteves, na liderança de Luís Filipe Menezes. "Alguns dos nomes apresentados são inenarráveis. Confesso que não consigo sequer compreender a sua lógica", diz o também presidente da Câmara de Ílhavo. Menos polémico, Menezes disse ontem à SIC esperar que a crise passe rápido. Não deixou, no entanto, de se demarcar, afirmando que a não inclusão de Passos Coelho é um erro e que deviam ter sido ouvidas as bases.
Um dos históricos do PSD, Ângelo Correia, mais polido nos termos, diz o mesmo: "Tenho critérios diferentes dos dela, se bem que não possa afirmar que os meus são melhores". O antigo ministro da Administração Interna lamenta a "excessiva exclusividade" das listas: "Não abriu ao centro-esquerda (e precisava de o fazer) e abriu ao centro-direita de forma potencialmente conflitual com a candidatura de Santana Lopes em Lisboa e com uma eventual aliança com Paulo Portas" - diz, referindo-se à inesperada integração de Maria José Nogueira Pinto como número quatro por Lisboa.
Sempre suave, Ângelo Correia não deixa de ser demolidor: "Desde Sá Carneiro e até Santana Lopes, o PSD foi construído na base da diversidade. Agora é feito na base da unicidade", lamenta o histórico social-democrata que vê na atitude de Ferreira Leite "a posição de alguém com falta de fé na vitória". Instado a comentar a exclusão de Passos Coelho, Ângelo não tem dúvidas: "Se Ferreira Leite falhar, foi ela própria que escolheu o seu sucessor".
Passos não faz campanha
E Pedro Passos Coelho não vai participar na campanha eleitoral para as legislativas. O adversário de Manuela Ferreira Leite nas eleições internas de 2008 viu-se excluído das listas de candidatos a deputados - era indicado por Vila Real para cabeça-de-lista pelo distrito; a líder do partido explicou ao Conselho Nacional que não podia incluí-lo pois isso significaria pôr em causa a coesão do grupo parlamentar. Passos, que se remeteu ao silêncio depois de ter dito aos conselheiros nacionais que "o PSD não é uma monarquia", e "ser presidente do PSD não é ser dono do partido", criticando o "sectarismo" com que as listas foram elaboradas, vai participar em acções pontuais de apoio a candidatos autárquicos (a maioria no distrito de Vila Real) mas já fez saber que não pretende ter participação na campanha para as legislativas.
Do mesmo modo, entre os seus apoiantes não restam dúvidas: "A menos que surja alguma alternativa dentro do PSD em que ele se reveja, não há razões para que ele arrume a sua trouxa". Como quem diz que dia 27, em caso de derrota nas legislativas, Manuela Ferreira Leite pode contar com um pretendente ao seu 'trono'.
Da lista proposta pela distrital de Vila Real só o cabeça-de-lista, Passos Coelho, não foi aceite. E o mesmo se passou em Santarém, onde a direcção nacional apenas recusou o nome proposto para cabeça-de-lista (o de Miguel Relvas, um histórico do partido no distrito, e o braço-direito de Passos Coelho), substituindo-o pelo de Pacheco Pereira - que assim regressa à política após anos de afastamento.
A ruptura com Lisboa
Vasco Cunha, presidente do PSD/Santarém, entendeu o veto de Ferreira Leite como uma "censura" ao trabalho que tem vindo a desenvolver no distrito e quis sair das listas. Acabou por ficar depois de persuadido por elementos da sua equipa a ficar. Se isto vai condicionar o envolvimento da distrital na campanha eleitoral para as legislativas, responde laconicamente ao Expresso: "Tanto a líder d como eu queremos ganhar as eleições. Ela entendeu que a minha solução não era a perfeita. Cabe-me a mim e aos militantes acreditarmos que a dela é a melhor".
Mas foi em Lisboa que o caldo verdadeiramente se entornou. Manuela Ferreira Leite ignorou 15 dos primeiros 20 nomes sugeridos pelo líder da distrital de Lisboa, Carlos Carreira. À sua revelia, integrou nas listas António Preto, Helena Lopes da Costa (ambos com processos em tribunal, o primeiro por fraude fiscal - ver texto abaixo - e a segunda por abuso de poder) e, como independente, Maria José Nogueira Pinto.
Pedro Santana Lopes, contactado pelo Expresso, não quis comentar a escolha de Maria José Nogueira Pinto. A ex-dirigente centrista, que chegou a ser equacionada por Ferreira Leite como candidata pelo PSD à Câmara Municipal de Oeiras, apoiou António Costa em 2007 e em entrevista ao "Sol", há dois meses, afirmou não ver razões para não voltar a votar no actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa... contra Santana Lopes. A sua escolha para integrar a lista do PSD em Lisboa foi interpretada entre os sociais-democratas como "um ataque velado a Santana Lopes", assim como uma "provocação gratuita" a Paulo Portas - e que eventualmente poderá pôr em causa uma aliança entre os dois partidos.
Nogueira Pinto remeteu esclarecimentos para uma entrevista que sairá amanhã, domingo.
Neste panorama, o líder do PSD/Lisboa, Carlos Carreiras, assume a ruptura com a líder do partido. Sem que isso ponha em causa, garante, o envolvimento da máquina partidária na campanha: "Vamos assumir as nossas responsabilidades". Mas os seus prognósticos para 27 de Setembro são tudo menos optimistas: "Perdeu-se o momento em que o PSD podia galvanizar, aproveitando o desgaste do PS e de Sócrates. O PSD pode ter perdido as eleições no Conselho Nacional de terça-feira".
Escolhas polémicas
Excluídos
Passos Coelho, Miguel Relvas, Feliciano Barreiras Duarte, Pedro Pinto, Virgílio Costa
Incluídos
António Preto, Helena Lopes da Costa, Maria José Nogueira Pinto, Pacheco Pereira, Deus Pinheiro, Couto dos Santos
À margem
Nuno Morais Sarmento, António Borges, Sofia Galvão, Alexandre Relvas
Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Agosto de 2009