Os hotéis backpackers são um bocado como o ovo do Colombo: uma solução óbvia para viajantes com pouco dinheiro, mas ninguém tinha pensado nela. Os backpackers são alojamentos informais geralmente organizados em dormitórios, com quartos de banho partilhados e enormes cozinhas comunais.
Nos últimos vinte anos espalharam-se exponencialmente por vários países turísticos do mundo, nomeadamente Austrália, África do Sul, Nova Zelândia. Ao contrário das obsoletas Pousadas da Juventude, não requerem que os seus hóspedes sejam membros de nada, não têm horários de entrada ou permanência, não precisam de pertencer a uma organização centralizada.
Inicialmente pensados para jovens mochileiros, o conceito alargou-se a outras faixas etárias e outras carteiras. Hoje, é comum encontrar, a par com os dormitórios, quartos individuais ou de casal, alguns mesmo com WC privativo.
Em Kaikoura, na ilha do Sul da Nova Zelândia, a pousada Dusky Lodge, membro da Budget Backpackers Hostels oferece uma semana de dormida aos voluntários que aceitarem, durante duas horas de cada manhã dessa semana, participar na limpeza do estabelecimento. Significa pôr ordem nas cozinhas e casas de banho, aspirar, arrumar os espaços comuns e também preparar os quartos para novos hóspedes.
Oito mochileiros das mais variadas partes do globo, sem qualquer contacto prévio entre si, decidem inscrever-se no programa. Têm apenas uma coisa em comum: mais tempo que dinheiro. São eles os cleaners desta semana em que eu fico hospedado no Dusky Lodge. Estão em vias de se tornar grandes amigos ou, pelo menos, cúmplices para o resto da vida no que a vida tem de melhor: ser jovem e estar em viagem. Falo com alguns deles.
O Paul tem 33 anos e vem de Galway. Depois de uns tempos a trabalhar como barman nas ilhas Jersey, decidiu-se por uma longa viagem à volta do mundo. Veio de comboio pela Europa central e Rússia até à Mongólia, onde passou umas semanas; depois continuou a 'descer' até Singapura e aí apanhou um voo para a Austrália. Trabalhou na apanha da fruta seis semanas e como servente de pedreiro quatro meses em Sydney. Acaba de chegar à Nova Zelândia, mas já fez um investimento substancial para um mochileiro: comprou um velho carro. Tem uma grande paixão: pescar trutas de montanha. E encontra-se num dos melhores lugares do mundo para isso. O carro é essencial para chegar às montanhas.
A Linda, de 22 anos, vem de Augsburgo, e interrompeu o curso de germânicas durante seis meses para investir no seu nível de inglês. Viajando pela Nova Zelândia. Podia ser outro país de língua inglesa, mas o filme do Senhor dos Anéis convenceu-a de que as paisagens mais bonitas do mundo estavam neste. Ao princípio teve medo de viajar sozinha, agora já não tem. Não se inscreveu em nenhum curso, quer estar livre e disponível para visitar todo o país. Mas esteve durante as primeiras semanas a trabalhar como baby-sitter numa família de Wellington.
O Smith tem 24 anos e é da Carolina do Norte. Gosta de trekking e sabe que chegou a um dos melhores lugares do mundo para caminhar. Pensa ficar um ano inteiro aqui. Comprou um carro por 350 euros que vai servir também de cama. Só tem um problema, não pega de manhã. Mal chegou à Nova Zelândia ficou logo hóspede de uma família que tinha conhecido no avião.
A Kate, 27 anos, deixou Plymouth num momento delicado da sua vida e chegou sem dinheiro, apenas com um bilhete de ida e volta. Mas sabia que aqui podia arranjar facilmente emprego: "O país é novo, revigorante, fácil e precisa de gente." Nas primeiras duas semanas, enquanto procurava trabalho, ficou num backpackers sem pagar; assim que recebeu o primeiro salário acertou as contas: "Foram impecáveis; mas é comum, quando um mochileiro está nas lonas, ter crédito num backpacker." Tem viajado à boleia, e está outra vez a precisar de trabalhar. Marcou o voo para a Inglaterra no Verão, "para custar menos o regresso".
Eu podia continuar horas a recarregar as minhas baterias, a sugar a energia que contêm quer as histórias, quer os jovens mochileiros que as contam. Mas, se eles querem dormir de graça esta noite, têm que trabalhar esta manhã. O grupo dispersa-se pelos corredores do backpackers, o cheiro de desinfectante e detergente espalha-se no ar.