Escrever é uma libertação ou um refúgio? É sobretudo um acto de alegria. Eu diria até de júbilo, se a palavra não fosse tão pomposa.
O que menos gosta do Mundo? Não gosto do lixo. Não sei o que fazer ao lixo, não queria que ninguém precisasse de mexer no lixo, não conheço cidade nenhuma que tenha resolvido esse problema. A sua dimensão é escatológica. O lixo simboliza a nossa imperfeição. Pensar no lixo é a tarefa mais séria que há para tratar entre cidadãos e entre as nações. Se o G-8 resolvesse o problema do lixo, resolveria os problemas do Mundo.
Há algum talento que gostasse de ter? Gostava de ter voz para cantar palavras, letras. Sinto muita pena por imaginar mentalmente o canto e não conseguir realizar os sons. Não precisava de ser a Maria Callas, contentava-me com a voz da Milva. Mas a minha garganta não foi feita para isso.
E o que mais gosta de fazer? Além de escrever, gosto de passear entre árvores e de ir para dentro do mar. E gosto de cidades, praças, teatros, gosto de me meter no meio das multidões. Gosto de sentir a presença dos grupos. Ir para um café e ficar a ver pessoas a comerem bolos e a beberem sumos dá-me alegria. E conhecimento. Sou filha dum homem que teve bares.
Qual é o seu autor e livro preferido? Os autores e os livros vão e vêm, mas na hora da verdade surgem sempre os mesmos - Virginia Woolf, em "Orlando", uma biografia fantástica de que todos nós, depois dela, andamos a escrever migalhas. Nem a Sally Potter, em filme, conseguiu fazer-lhe justiça.
E fora da Literatura, o que gosta de ler? Leio a imprensa portuguesa, impressa, e periódicos temáticos, impressos, de várias espécies. Prefiro a ciência, a política, a filosofia, a economia. Sou uma generalista. Em casa lê-se muito a Veja, a Nature, The Economist, Le Monde Diplomatique. E a Lettre Internationale, de que o Eduardo Prado Coelho não conseguiu fazer uma versão portuguesa.
Tem um filme de culto? Andrei Rubliev é o filme da minha vida. Foi o filme que me deu a conhecer Tarkovski, o filme que mais me ensinou a viver. Aquela história de iniciação à Arte, com uma acção passada no início do século XVI, povoa a minha imaginação. Tem umas dez cenas que são inesquecíveis. Eu prefiro aquela em que o miúdo se deita ao chão, por ter descoberto, sozinho, como se preparava a liga metálica para fazer um sino.
Em que cidade gostaria de viver? Se não vivesse em Lisboa, viveria em Paris. Digam o que disserem, a língua francesa pode estar hoje a sofrer um declínio, mas Paris está sempre em ascensão. Só que Lisboa transformou-se numa cidade maravilhosa. Ao entrar-se na Ponte Vasco da Gama, na direcção Sul-Norte, a visão é tão vibrante que cega a pessoa.
Acredita ou acreditou no feminismo? Claro que acreditei no feminismo, e nas feministas. O recuo de feministas como a Germaine Greer só mostra que entre o ideal e a realidade sempre existe uma tampa que explode. Mas os dias de hoje necessitam de um outro feminismo. Hoje em dia, o reconhecimento da dignidade das mulheres passa essencialmente por elas mesmas, e mistura-se com o reconhecimento de outras categorias.
Tem alguma devoção? Tenho uma devoção que actua por interposta pessoa. Trata-se da Mãe Soberana, a Pietà de Loulé. Quando tenho um problema ou um agradecimento a fazer, alguém sobe aquela ladeira por mim, e fala com ela. A festa da Mãe Soberana, quinze dias depois da Páscoa, é a minha fonte mística.
Qual é a sua ideia de felicidade? Nunca imaginei a felicidade como um pudim de ovos que alguém nos ofereça numa bandeja. Alcançar a felicidade é imaginar, sonhar, idealizar, programar, e depois, trabalhar por alcançar o que se sonhou. A felicidade acontece quando conseguimos isso.
É uma mulher de esperança? Sou. Chego a tê-la onde não é suposto. Chego a ter esperança de que a Arte e a Literatura podem criar uma Humanidade melhor. E, infelizmente, parece que não é assim.
(Versão original do texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009)