Manuela Ferreira Leite diz que a situação "de quase emergência social" no país "pode justificar que se abdiquem de alguns investimentos para afectar recursos aos casos mais prementes". Sem avançar ainda quais as obras públicas que tenciona pôr em causa, a nova líder do PSD deixou claro, no discurso com que encerrou o Congresso do partido, que este "é um assunto que tem que ser ponderado", porque "a vaga avassaladora de propostas de infra-estruturas que este Governo anuncia e de que o país nem sempre carece e para os quais manifestamente não tem dinheiro, ficará para a história como um dos maiores erros políticos cometidos".
Num tom marcado pela sobriedade mas com uma expressão bastante mais distendida do que aquela que exibira no arranque do Congresso, Ferreira Leite não avançou ainda na concretização das medidas que vai propor ao país e nem nas exigências concretas que fará ao Governo, mantendo-se antes num registo de diagnóstico . Alberto Martins, o líder parlamentar socialista, não tardou, aliás, a acusá-la de ter feito "um discurso de generalidades".
Pedro Passos Coelho, que na véspera desafiara a nova líder a clarificar o seu projecto político e a não se ficar pelas generalidades pelos silêncios, considerou, no entanto, que neste segundo discurso, já houve mais sumo. "Já há aqui mais política. Foi um bom discurso", afirmou ao Expresso, garantindo que os 16 conselheiros nacionais que conseguiu eleger na sua lista (ficando apenas com menos quatro do que os que Manuela Ferreira Leite elegeu) irão "ajudar o PSD a ganhar as eleições".
Retomando o tema forte da sua campanha, a líder social-democrata alcandorou as questões sociais a prioridade nas preocupações dos portugueses e tratou de retirar argumentos ao Governo quando este diz que a causa está na crise internacional. "Isto não é o reflexo da crise, é sim o reflexo claro e inequívoco de políticas erradas e de insensibilidade social". Muito crítica da actuação do Governo - "quase tudo por fazer na reforma do Estado", "um crescimento económico totalmente insatisfatório como resultado de uma política mal conduzida ou inconsistente" -, Ferreira Leite sinalizou ter novidades para apresentar mais à frente em matéria fiscal..
"O Estado não pode ser apenas uma máquina eficaz de cobrança de impostos e considero imperioso avaliar o impacto das medidas na economia e nas famílias porque tão importante como a redução do peso da carga fiscal é a simplificação e a previsibilidade das regras fiscais", afirmou.
O fim da gratuitidade para todos na Saúde e a exigência da qualificação como pilar vital na Educação também mereceram referência. Bem como a necessidade de descentralizar o país, reforçando as autarquias. Sem esquecer as Regiões Autónomas, Ferreira Leite prometeu combater o desvio de "benesses" do Estado que acusou Sócrates de estar a fazer para os Açores para beneficiar o Governo socialista local. E à Madeira dedicou um rasgado elogiu, sublinhando o "extraodinário progresso na região " - tendo como destinatário Alberto João Jardim, apoiante de Pedro Santana Lopes e ausente deste Congresso.
Para dentro do partido, deixou duas notas: "Conto com todos vós"; e "Ouvi com toda a atenção tudo o que se disse e tomarei conta das vossas preocupações."