De um dia para o outro, a solidariedade deixou de ser uma palavra de combate, uma promessa ou uma reivindicação, consoante era gritada em Lisboa ou no Funchal por políticos furiosos. Tornou-se aquilo que sempre foi: um sentimento de pertença recíproca, natural e poderoso, que não cede nem vacila só porque uns políticos exaltados se põem a gritar uns com os outros. A solidariedade impôs-se como facto indiscutível perante a necessidade e a urgência reclamadas pela tragédia madeirense, tal como se impôs há 30 anos quando um terramoto destruiu Angra do Heroísmo.
Assim sendo, não admira que se tenha transfigurado repentinamente a relação política de Alberto João Jardim com José Sócrates, agora cordatos e cooperantes, após vários anos de guerra aberta. Os dois mostraram que, apesar do que algumas vezes aparentam, são capazes de perceber e agir de acordo com interesses superiores aos que atribuem às suas importantes pessoas. Mas, acima de tudo, mostraram que não são destituídos de inteligência política: os portugueses de lá e de cá não perdoariam a quem desse o primeiro sinal de resistência ou má vontade quanto à união de esforços indispensável para enfrentar o desastre. Só é pena que a mesma atitude cordata e cooperante não seja a regra de conduta habitual. E que Jardim se arrogue o direito ao insulto geral e gratuito, que muitas vezes atinge não só os seus adversários políticos, o que já é suficientemente mau, mas todos os portugueses do Continente.
Dito isto sobre os chefes dos Governos, é preciso acrescentar que houve alguém, nos últimos anos, que se esforçou por evitar que se quebrassem as pontes de diálogo entre o Funchal e Lisboa. Trata-se do Presidente da República que, aliás, tem pago um preço por essa preocupação nem sempre compreendida, tanto no continente como nas ilhas.
No plano institucional, não há, por agora, reparos quanto ao modo como se reagiu à catástrofe. Veremos - duvidando desde já - se este clima de concórdia prevalecerá quando se tratar de quantificar e mobilizar os meios financeiros para a reconstrução. Os apoios urgentes seguiram com a prontidão desejada. E os generalizados encómios à administração regional, com todo o seu poder de mobilização de pessoas e meios, são aparentemente justificados.
Compreende-se que, sendo a Região tão dependente do turismo, uma das primeiras preocupações de Alberto João Jardim tenha sido a de evitar uma dramatização excessiva das consequências da catástrofe. O que já se compreende mal é que se tenham alimentado dúvidas sobre o número de vítimas mortais, a ponto de o seu número parecer diminuir à medida que mais corpos eram encontrados. E que a explicação para tão insólito desacerto esteja no facto, não menos insólito, de as autoridades terem apresentado, à partida, uma "estimativa" por excesso, procedimento talvez inédito em situações desta natureza.
Não menos esclarecedor sobre um certo modo de fazer política é a resposta de Jardim às denúncias e alertas de especialistas, documentadas em jornais antigos e programas de televisão, para o que agora veio a acontecer. Se a trágica lição destes dias é esclarecedora do ponto de vista da solidariedade nacional e instrutiva quanto ao que devem ser as relações institucionais, não o é menos quando nos mostra, uma vez mais, como os erros e abusos urbanísticos se pagam caro em catástrofes naturais. A lição vale tanto para a Madeira como para o continente. E tentar calar com insultos os que apontam esses erros e abusos, ou é arrogância estulta perante a Natureza, ou apenas má consciência.
Manuela, à despedida
Poucas semanas depois de o Presidente, o Governo e muitos economistas terem jurado que a situação de Portugal não é comparável à da Grécia, Manuela Ferreira Leite afirma - não numa discussão parlamentar acalorada, mas numa conferência promovida pela Câmara de Comércio Luso-Francesa - que Portugal está "rigorosamente no mesmo caminho da Grécia". E que, se nada for feito, em dois anos a situação poderá ficar idêntica ou pior.
É uma opinião, tão legítima como outras. Mas acontece que Manuela Ferreira Leite é fiadora do Orçamento do Estado para 2010. E que só decidiu viabilizá-lo depois de se ter assegurado de que ele contém medidas para inverter as tendências quanto às contas públicas e ao endividamento externo. Quer dizer, foi a própria líder do PSD quem informou em primeira mão o país de que há medidas orçamentais para evitar que Portugal fique na situação da Grécia. Mas a mesma líder do PSD não hesita em reanimar o fantasma da Grécia, depois de ter assumido um compromisso destinado a afastá-lo. Não é só o alarme inútil que Manuela faz, mas a sua lógica política que se afigura, no mínimo, problemática.
Sócrates na TV
Quando o primeiro-ministro dá uma entrevista à TV, espera-se que traga alguma novidade. Infelizmente, as intervenções de José Sócrates nos últimos tempos, além de monotemáticas e defensivas, correspondem a um guião rígido predefinido, com argumentário repetitivo e, até por isso, cada vez menos convincente. Na entrevista a Miguel Sousa Tavares, Sócrates afirmou, porém, algo de novo: que o seu nome foi invocado de forma "abusiva" no caso PT/TVI. Pena que esta declaração, com a solenidade devida e as inerentes consequências judiciais, não tivesse sido feita no dia em que se conheceram as primeiras escutas.
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010