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Laurent Fignon (1960 - 2010)

O ciclista gaulês, duas vezes vencedor da Volta à França, ganhou fama pelos feitos desportivos e estima popular pelo seu caráter e pela coragem com que enfrentou a doença.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 11 de setembro de 2010

Laurent Patrick Fignon, que morreu na passada terça-feira no Hospital de La Pitié-Salpêtrière, em Paris, de metástases generalizadas de um cancro do pâncreas de que começara a sofrer na Primavera do ano passado e atribuía às drogas do doping, foi um campeão ciclista francês e mais tarde um comentador de ciclismo na televisão diferente de todos os outros que ganhou fama pelos seus feitos desportivos e estima popular pelo seu carácter (na televisão animou outros cancerosos a encararem a doença tão galhardamente quanto ele) apesar de lhe faltar o toque de Zé-Povinho: a sugestão de boné de pala e baguette debaixo do braço em vez do cabelo em rabo de cavalo e de óculos redondos de aro metálico fino, os gostos rurais simples de uma parvónia campestre na França profunda em vez das complexidades do curso dos liceus - o mítico baccalauréat que confirma em quem o tenha o estatuto de francês de primeira -, de alguns anos de universidade e de cultura literária extensa e rara no meio, uma alcunha infantilizante pela qual fosse familiarmente conhecido e não a de "o Professor" (em suma, a marca inconfundível do povo que De Gaulle dizia não encontrar em Giscard d'Estaing), atributos que os seus compatriotas achavam deverem fazer parte integrante dos ases do pedal que transformavam em ídolos durante as três semanas de verão que durava o Tour de France, pináculo da temporada ciclista que incluía, e inclui ainda, a Volta a Espanha, o Giro d'Italia, a Milão-São Remo, o Campeonato de França, o Paris-Nice, o Paris-Roubaix e vários outros clássicos.

A diferença entre Fignon e o modelo tradicional de um vencedor francês do Tour levou o escritor Jean Cau, depois de o entrevistar em 1984, a escrever que a França, que já tinha os enarcas (os diplomados superintelectuais da Escola Nacional de Administração que gerem o Estado e grande parte da economia) passara agora a ter também um ciclarca.

Nascido em Montmartre, um dos corações de Paris, numa fatia confortável da classe operária - o pai era chefe de oficina numa empresa metalomecânica, a mãe dona de casa - Fignon mudara em pequeno com a família para parte ainda campestre dos arredores e desde cedo acompanhara os estudos do liceu com prática intensa de desportos tendo-se distinguido no futebol quando era adolescente. Mas o pai tinha em casa uma excelente bicicleta que fascinava o miúdo e na qual começou a pedalar, descobrindo com ela o seu excepcional talento. Já com máquina sua ganhou várias corridas de amadores e depressa se lançou no começo fulgurante de uma carreira profissional que, a seguir a uma série de vitórias em provas cada vez mais importantes o levou em 1983 a ganhar a Volta à França. Tinha 22 anos e era o vencedor mais novo desde 1933. Em 1984 repetiu a façanha mas acabou aí a fulgurância inicial. Os anos de 1985 a 1988, marcados por lesões, foram de altos e baixos nas formas física e mental e nos resultados e em 1989 viveu os momentos que lhe dariam definitivamente lugar na história da Volta a França - mas não bem aquele que gostaria de ter tido.

Desde as primeiras etapas percebeu-se que tinha um rival sério no jovem americano Greg LeMond; os dois foram alternando na posse da camisola amarela até que nos Alpes um domínio da montanha espectacular de Fignon lhe deu avanço de 50 segundos na classificação geral que ninguém, a começar pelo próprio Fignon, julgou que LeMond pudesse recuperar. Mas num contra-relógio do último dia (24,5 quilómetros entre Versailles e Paris) o americano fez menos 58 segundos do que Fignon e ganhou a Volta por 8 segundos, a mais curta diferença de sempre entre o 1.° e o 2.° classificados. Fignon nunca se recompôs do choque - o primeiro capítulo da sua autobiografia publicada em 2009 intitula-se 'Oito segundos' e em 1993 abandonou as competições, passou a treinar e depois a comentar.

LeMond corria com capacete. Peritos em aerodinâmica dizem que se Fignon não levasse o rabo de cavalo ao vento teria ganho a Volta.

Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010


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cancro
pjcaldeira (seguir utilizador), 1 ponto , 16:45 | Domingo, 12 de setembro de 2010
Na vida podemos distinguir os sortudos e os infelizes pelas doenças que contraem. Quem anda iludido pensa ser com outro tipo de factores tipo a quem sai o euro milhões. Só é pena não serem os maldosos a apanhar as piores maleitas. Até tenho a sensação que são os melhores. Se for assim, será para nos pôr à prova?
 
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