Quem as vê tão bem dispostas não diria que estão a pé desde as três da manhã. Mas a verdade é que enquanto a aldeia dorme, um grupo de mulheres da Lardosa troca o vale dos lençóis pelos cascoréis. A elaboração deste frito, semelhante à filhós, é a maneira como a freguesia do concelho de Castelo Branco agradece a S. Sebastião pela protecção divina. A tradição terá começado por causa de uma praga de gafanhotos, que depois da promessa feita pelo povo foram morrer onde hoje se encontra a capela.
Lurdes Santos é a veterana do grupo de artesãs dos cascoréis. Aos 70 anos conta mais de dez à volta dos vários passos que fazem a tradição. Tal como as várias gerações de mulheres da aldeia, Lurdes aprendeu a arte dos cascoréis a ver fazer e também foi passando o ritual.
Às três da manhã de terça-feira começaram a preparar a primeira leva de cascoréis do dia e a meio da tarde já tinham feito quatro tabuleiros, cada um com cerca de 35 quilos.
Em cada utilizaram 300 ovos, mais de 30 quilos de farinha, três litros de aguardente, o mesmo em azeite e ainda laranja e sal. A mistura é feita a força de braços. Dá mais trabalho, é certo, "mas com as máquinas não se cumpre a tradição", dizem Manuela Rodrigues e Alexandrina Amaral, outras das mulheres envolvidas no processo.
Depois fazem cruzes na massa e chamam os santos com rezas, para que o preparado cresça na masseira. Ao fim de três horas a levedar, a massa é repartida por porções do tamanho de uma bola pequena, que é estendida com o rolo da massa e cortada com uma carreta. A diferença em relação às filhós está na forma como a massa é colocada a fritar, já que é posta na fritadeira de modo a que ganhe um formato maior e mais arredondado que as filhós. Ao contrário destas não costumam levar açúcar polvilhado.
Até sexta-feira vai ser assim a rotina destas mulheres, cujo trabalho não termina à roda da fritadeira. Depois de arrumada a cozinha é preciso fazer os tabuleiros com os cascoréis, que são empilhados em açafates de verga e decorados com toalhas bordadas e flores, como cravos e camélias.
O cortejo está marcado para o meio-dia do próximo sábado, com a missa e bênção a acontecer meia hora depois.
Os tabuleiros são transportados à cabeça pelas mulheres e entregues na igreja para serem abençoados. Só depois chegam à boca do povo.
A tradição manda também que haja animais e enchidos para leiloar, havendo até quem se esmere no tamanho das chouriças que oferece. Alguns dos enchidos nem sequer chegam a casa de quem faz a melhor oferta e são assados logo ali na fogueira, sendo acompanhados de pão, vinho e tremoços.
Manuela, Alexandrina e Lurdes é que não costumam assistir a tudo, dominadas como estão pelos dias sucessivos de poucas horas de sono. Às vezes, nem o facto de começarem de madrugada é garantia de trabalho feito e os dias sucedem-se sem que elas tenham sentido o conforto da cama.