O homem da fotografia é Osama Bin Laden. Mais jovem. Mais cheio. Olhando duas vezes: não pode ser Osama. Quem é este homem? E que faz ele na primeira página do "Financial Times"? Vestido de branco, com um keffieh vermelho e branco e uma barba longa e grisalha, bem tratada. Uma figura aspirando à santidade. Os olhos não são os de Osama, são mais vivos e mais negros. Dois carvões apagados. O olhar de um assassino. De um assassino em série.
O homem é Khaled Sheikh Mohammed e foi capturado pelos paramilitares da CIA em Rawalpindi, em 2003. Foi a mais importante captura da Administração Bush na "guerra contra o terrorismo", quase tão importante como a captura de Bin Laden ou de Al-Zawahiri vivos. O chamado "cérebro do 11 de Setembro" foi capturado depois de os Serviços Secretos do Paquistão, ISI, terem decidido entregá-lo, no jogo de xadrez e extorsão que Musharraf e seus rapazes jogaram durante anos com Bush e seus rapazes. Toma lá o bispo a troco de armas e uns milhões de dólares. KSM era a rainha. E o "cérebro do 11 de Setembro" não foi apenas isto.
Foi o maior e mais importante chefe operacional da firma Al-Qaeda e terá sido o estratego de vários ataques terroristas, uns abortados e outros não, incluindo a Operação Bojinka (rebentar 12 aviões americanos na rota da Ásia) que foi o ensaio de 11/7, o atentado ao WTC de 1993, a operação da bomba no sapato do terrorista Richard Reid, os atentados contra alvos e edifícios ingleses e americanos (centrais nucleares, aeroportos, Big Ben de Londres, Empire State Building de NY, Sears Tower de Chicago), os atentados contra a NATO, as bombas de Bali. E planos para assassinar Jimmy Carter, Bill Clinton e o Papa, planos para assassinar judeus, atentados em Israel e em Mombaça, atentado no Kuwait em 2002, planos para atentados a embaixadas na Indonésia, Austrália e Japão, planos para atentados na Coreia do Sul, planos para assassinar Pervez Musharraf, etc., etc. E a proclamação de ter sido o autor da decapitação de Daniel Pearl, o jornalista do "Wall Street Journal" torturado e assassinado em Carachi, em 2001.KSM gabou-se em entrevista (na clandestinidade) de ter sido sua a mão que aparece no vídeo com a cabeça de Pearl a pingar sangue.
Os americanos nunca souberam bem o que fazer com a presa. O desejo de vingança sobrepôs-se à frieza e à aplicação rigorosa das regras do Estado de Direito e das leis militares, o que acabou por beneficiar este criminoso perigosíssimo procurado pelas agências do mundo inteiro. De Rawalpindi, KSM foi parar às prisões negras da CIA, black sites, onde terá sido torturado e interrogado. Jordânia, Polónia, etc. E acabou em Guantánamo, num bloco especial. Terá sido sujeito a waterboarding simulação de afogamento) mais de 180 vezes. Seria julgado por tribunal militar.
Advogados e organizações de direitos humanos contestaram a tortura e as confissões obtidas. KSM, assim que teve acesso à Cruz Vermelha, contestou e denunciou a tortura, negando factos e dizendo que usou a desinformação. No tribunal, foi o juiz a ser inquirido sobre a sua religião. Acabou a autorizar o uso de laptops na defesa. KSM auto-representou-se. Depois de vários episódios da novela, em Dezembro de 2008 KSM deu-se como culpado e propôs um acordo com os outros réus. O julgamento foi adiado, para verificação da capacidade de um deles. Inteligente, KSM sabia que a Administração ia mudar. A sua representação era a de um combatente missionário. KSM estudou na América e, durante períodos da sua vida, foi tudo menos um devoto do Corão. Nas Filipinas (Operação Bojinka) sabe-se que frequentava locais nocturnos, bebia e consumia prostitutas. Combateu no Afeganistão e na Bósnia e filiou-se na Irmandade Islâmica. Engenheiro de formação, viveu, trabalhou e circulou pelo mundo planeando atentados e financiamentos. Usou dezenas de nomes falsos. Nas fotos de época parece um homem de negócios, lustroso e de óculos. Nas fotos da captura vemo-lo sonolento e de barba por fazer.
Muitas ligações efectivas de KSM a estados e milionários que financiam atentados e a rede que estabeleceu e internacionalizou continuam por esclarecer. Construir um caso legal contra ele não é fácil. Envolve material classificado. Na tortura, diz-se que foi o que aguentou mais tempo. A Administração Obama decidiu julgá-lo em Nova Iorque, segundo as leis civis. E a Cruz Vermelha foi autorizada a fotografá-lo em Setembro deste ano, em pose de Osama. Enviou as fotografias à família, como fez com outros detidos. As fotos, que o humanizam e dignificam, circulam em sites islâmicos que recrutam terroristas. Na guerra da propaganda, KSM é um génio. E vai transformar-se num mártir. A Administração Obama acaba de se meter num grande e 'transparente' sarilho.
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009