A sua cor era densa, de textura granulosa, de resolução super e de latitude à exposição generosa. Podia fotografar-se com luz a menos, que na hora da impressão estavam lá os detalhes nas sombras, as nuances nas cores.
A vida ficava naquela emulsão não tal qual era, mas como num mundo perfeito. A durabilidade das cores permitia conservar as imagens por muitos anos, quase sem alteração. Os profissionais da National Geographic terão sido os melhores publicitários desta emulsão que tornava as fotografias
transparentes (slides) e projectáveis em telas de grandes dimensões.
Mesmo os fotógrafos mais renitentes à cor, adeptos do preto-e-branco, acabavam quase sempre por admitir que "Kodachrome é outra coisa, outra cor". Sem o Kodachrome nunca veríamos os olhos verdes, aquele verde, da mítica fotografia de Steve McCurry da menina afegã, ou não teríamos ficado intrigados com as cores sobrepostas nos vidros dos edifícios de Nova York fotografados pela Leica R de Ernest Haas.
Usar um kodackrome era um ritual. Começava na hora de o comprar: era caro, demasiado caro para amadores vulgares, tramava os orçamentos dos editores mais abastados. A revelação exigia cuidados de grande rigor, logo não era possível ser revelado na maioria dos países onde era comprado. Quase todos os filmes eram revelados na América, alguns na Suíça. Mais alguns países dispunham da poção mágica da Kodak para revelar.
Esperar três semanas por um trabalho que tinha custado caro no investimento da película, era um longo sofrimento, uma grande ansiedade. Há 20 anos os correios nem sempre eram rápidos e a forma de controlar as encomendas ainda mais aleatórias do que hoje. Os envelopes postos à disposição para o envio dos filmes eram especiais, fornecidos pela Kodak, com avisos no exterior a dizerem que dentro ia a película Kodachrome.
Nos anos sessenta o aparecimento do Ektachrome democratizou o uso das fotografias a cores e permitiu o fabrico de várias emulsões a cores por outras fábricas, nomeadamente a Agfa alemã. O Ekta custava metade do Koda e podia ser revelado em casa no banheiro, desde que se tivesse um pequeno tanque de revelação e os liquídos apropriados. Depois foi o aparecimento da película em negativo a cores. Ainda mais barata, mais fácil de revelar, mas que só nos anos 90 atingiu qualidade profissional.
O Kodackrome acabou depois de uma longa agonia. A realidade superou o sonho: os profissionais que sempre usaram a película, foram confrontados nos últimos 5 anos com câmaras fotográficas profissionais com sensores de qualidade extraordinária e que superaram, sem polémicas, a qualidade da película.
Tirando o ritual (na verdade muito maçador por vezes) do uso da película ( põe rolo, tira rolo, revela, corta, guarda) o digital tem todas as vantagens: mais definição, mais barato, mais rápido, mais limpo, mais fácil de arquivar, e até há aplicações para o photoshop que dão na exactidão a cor do Kodackrome. Depois desta realidade só mesmo a sua morte. Anunciada, nostálgica e triste.