Terminadas as 12 badaladas, o povo comeu as passas. Bebeu champanhe, espumante ou líquido correlativo, conforme o seu estatuto, bolsa ou capacidade de endividamento. Desejou tudo de bom para as pessoas de quem gosta. Fez votos do que deseja para si. Entrou feliz em 2010.
O ano começou com chuva e vento. Despenteou cabeças, mas o que nos espera em 2010 necessita delas bem arrumadas. Talvez por essa razão, o PR, na sua comunicação aos portugueses, lembrou-lhes a situação do país. Apontou os desafios que os esperam. Deixou uma palavra de esperança.
Digeridas as passas, ultrapassado o efeito dos copos bebidos no réveillon e antes que cheguem as contas do esforço pedido ao cartão de crédito no mês de Dezembro, será útil pensarmos em quatro pontos da mensagem. Desemprego elevado, que tudo indica se agravará. Dívida do Estado próxima de um nível perigoso, a qual vamos ter de pagar. Endividamento ao estrangeiro preocupante, sabendo-se que as reacções dos credores nunca são suaves. Défice das contas públicas que tem de começar a ser combatido já no corrente ano.
Apesar dos sacrifícios que têm sido pedidos aos portugueses, acredito que podemos superar mais esta situação se a mesma lhes for comunicada com rigor, transparência e verdade. Sem kanganhiça. Quem viveu em Moçambique, ouviu muitas vezes esta palavra. Os que apreenderam o seu sentido identificam, sem dificuldade, os kanganhiceiros. Nunca ofendem a lei. Falam muito, mas dizem pouco. Prometem tudo, sabendo que não podem honrar as promessas. Aparecem transpirados ao chefe, mesmo que o suor não seja do trabalho. Conseguem não perceber as situações que os podem prejudicar. Sabem fazer pela vida. Há kanganhiceiros em todas as profissões e em todos os tempos. A maioria safa-se bem. Quando, na década de 60, apanhava malária no Vale do Incomáti, assisti a actos de violência praticados por trabalhadores que descobriam os que estavam a fazer kanganhiça. Na nossa sociedade, a arte de kanganhiçar é mais sofisticada, mais fina e mais lucrativa.
O PR pediu aos agentes políticos para deixarem de lado as querelas artificiais. Mas não são só os agentes políticos que devem estar sob observação. Somos todos nós. Se políticos, empresários, sindicatos e cidadãos continuarem a pensar que o Estado tem um saco sem fundo para a tudo e todos acudir, que governar é ser porreiro e que as próximas gerações pagarão a conta, a situação só piorará.
A confirmação pelo PR que o governo dispõe de todas as condições de legitimidade para governar representa uma responsabilidade para o governo e a oposição. O país necessita de ser governado pelo partido que democraticamente o povo escolheu. A obrigação dos agentes políticos, empresariais e sindicais não é atrapalhar a acção do governo com o objectivo de conseguirem vantagens. Devem criticar, mas também têm a obrigação de adiantar propostas devidamente estruturadas, fundamentadas e quantificadas, por mais impopulares que sejam, que ajudem a atenuar os desequilíbrios. Oposição que queira comer a carne, chamando a si as propostas simpáticas, e deixar os ossos, as propostas antipáticas, para o Governo está a fazer kanganhiça. O próximo Orçamento do Estado será um excelente teste para os portugueses separarem quem quer governar dos kanganhiceiros.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010