Jyotirindra Kiran Basu, conhecido desde novo por Jyoti Basu, que morreu a 17 de Janeiro, de insuficiência de vários órgãos vitais num hospital de Salt Lake, Calcutá, onde fora internado no começo do mês, decano venerado da política indiana, fora o principal arquitecto da união de partidos de esquerda eleita para o governo do Estado de Bengala Ocidental, primeiro, por pouco tempo, em 1967, e dez anos depois para ficar no poder até agora. Entre 1977 e 2000, ano em que abandonou a política activa por razões de saúde, Jyoti Basu foi sete vezes seguidas eleito primeiro-ministro estadual, fazendo reforma agrária bem sucedida, responsabilizando os governantes perante as várias etnias e religiões de Bengala e tornando mais eficazes órgãos tradicionais de poder local. A sua administração laica fomentou harmonia intercomunitária. Comentaria mais tarde que a sua longevidade no poder fora não só um feito sem precedentes na Índia mas também na história da democracia parlamentar em todo o mundo. Circunstâncias históricas e sociais contribuíram para isso mas contou mais do que tudo a personalidade de Jyoti Basu.
Vindo da alta burguesia, filho de médico formado nos Estados Unidos que deixara a Bengala Oriental (hoje Bangladesh) para se estabelecer em Calcutá, fora educado em colégios católicos (embora depressa descobrisse que era ateu) e numa universidade local prestigiada, antes de ir estudar direito para Inglaterra de onde voltou advogado. Os anos de Londres foram determinantes, encastrando-o na esquerda intelectual britânica quando Harold Laski pontificava na London School of Economics e Harry Pollit dirigia o partido comunista britânico. Em Londres tornou-se comunista (como o partido fora banido na Índia colonial, Pollit recomendou-lhe que não se filiasse para evitar dissabores quando regressasse a Calcutá), embebendo-se em marxismo para entender melhor o mundo e se orientar na luta política a que se dedicou até ao fim da vida. Em Londres teve os seus primeiros contactos com o Partido do Congresso, havendo acompanhado Nehru durante uma visita deste em 1938.
De volta a Calcutá, nunca praticou advocacia porque mergulhou na política de oposição, primeiro contra o poder colonial e depois contra o Governo da União Indiana; foi secretário dos Amigos da União Soviética e da Associação dos Escritores Antifascistas de Calcutá; dirigente do poderoso sindicato dos ferroviários, um dos dissidentes do partido comunista indiano que formaram outro rival. Na guerra sino-indiana de 1962 declarou-se do lado da China.
A tradição esquerdista em Bengala - marcada até hoje por acções violentas de grupos maoístas revolucionários - viria a ganhar poder na coligação que Jyoti Basu arquitectara e dirigira. Em 1996, depois de eleições terem levado à criação de uma coligação de centro-esquerda a nível nacional para formar o governo federal, Basu não foi primeiro-ministro da Índia por uma unha negra: à última hora o seu partido resolveu apoiar o Governo mas não participar nele. "Um erro histórico", diria Basu. Com efeito, muita gente pensa que se ele tivesse chegado a governar a Índia nessa altura a direita nacionalista e beata não teria mais tarde agarrado o poder.
Homem de rectidão intelectual e moral, de distinção e cultura, cortês, respeitador das opiniões dos outros, dotado de excepcional instinto político e jeito para ajudar as pessoas a entenderem-se, tornara o comunismo respeitável e, sem o rejeitar, seguira a via social-democrata e triunfara nela. Cometeu erros que ele próprio reconhecia: durante anos baniu o inglês na escola primária e não estimulou a iniciativa privada, atrasando assim o desenvolvimento da Bengala Ocidental, enquanto outros Estados da União enriqueciam.
Viveu sempre como um senhor. Na reforma, o Governo instalara-o no palacete onde Indira Gandhi ficava quando visitava Bengala, servido por pessoal que incluía cozinheiros, criados de fora, jardineiros e dois varredores das alamedas do jardim.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010