Desde que Jerónimo de Sousa e um grupo de quadros comunistas que até então se mantinha na segunda linha tomaram a liderança do PCP que este vive dois movimentos contraditórios: estancou a queda eleitoral e empobreceu drasticamente a qualidade dos seus quadros. Esse empobrecimento tem sido feito através de um rejuvenescimento dos dirigentes, é verdade. Mas esses jovens, quase todos com pouca experiência fora do aparelho partidário, representam o sector mais ortodoxo e menos preparado do partido. Longe vão os tempos em que Octávio Teixeira, Lino de Carvalho ou João Amaral esmagavam em eficácia, rigor e eloquência as outras bancadas parlamentares. Tirando uma ou duas assinaláveis excepções que sobreviveram à limpeza interna geral - onde a fidelidade à afirmação da nova liderança contou mais do que a qualidade -, o grupo parlamentar do PCP é hoje uma sombra do que foi. E o que se passa no Parlamento acontece noutros sectores fundamentais para o Partido Comunista.
Os atalhos políticos subterrâneos ou visíveis - de que o uso recente do 'caso Casa Pia' contra Ferro e Pedroso no jornal "Avante!" é apenas um exemplo -, o regresso quase explícito ao estalinismo oficialmente abandonado no final da década de 50 e a degradação da qualidade técnica e política dos novos quadros do PCP não afectam as suas votações. E Jerónimo não só devolveu o ânimo aos militantes como resistiu ao crescimento de um concorrente directo - o Bloco de Esquerda - num momento histórico difícil. Mas o caminho que está a seguir terá um preço. Basta saber quem eram Lenine, Gramsci, Carrilho, Castro ou Cunhal para perceber que nunca nenhum Partido Comunista se afirmou sem os seus intelectuais orgânicos e a sua própria inteligência. Sim, o PCP continuará a resistir nas urnas. Mas, dia após dia, está a perder o combate pela hegemonia ideológica que, nos tempos de Cunhal, conseguia travar à esquerda.
As opções que fez são compreensíveis perante os ventos de desagregação dos partidos comunistas europeus que se tentaram renovar. Mas oferecem ao PCP, que valoriza mais a luta social e ideológica do que os resultados eleitorais, um futuro incerto. Com a perda de influência dos sindicatos, a redução de peso nas autarquias e a falta de quadros qualificados, o que sobrará se a simpatia de Jerónimo deixar de render?
Está preto
Justa ou injustamente, o PSD tinha na moralização da política uma arma poderosa contra o PS. As suspeitas esclarecidas ou por esclarecer que evolveram o nome do primeiro-ministro, o pouco apego de Sócrates ao rigor, a pilhagem a que se assiste no Estado e a promiscuidade entre público e privado, de que Jorge Coelho é um exemplo, davam ao PSD um razoável espaço de manobra. Manuela Ferreira Leite ensaiou esta estratégia, dando à 'verdade' o palco da sua propaganda. Mas cedo se percebeu que esta era uma guerra perigosa. O caso do BPN e de Dias Loureiro já tinha chamuscado a credibilidade deste discurso. Mas era apenas o passado do PSD. A escolha de António Preto para a lista de deputados foi a confissão de uma incapacidade de mudar rotinas. E com ela a direita perdeu a sua arma de campanha mais poderosa. Há coisas que se colam à pele. Preto colou-se à de Ferreira Leite. Sobra agora ao PSD o debate programático. E aí, as discordâncias com o PS são curtas demais para fazer a diferença.
Daniel Oliveira