INFERNO
José Sócrates
José Sócrates não cessa de nos surpreender: depois de garantir que 2009 seria um ano perfeito para as famílias portuguesas, o primeiro-ministro resolveu mudar de ideias e, em mensagem natalícia, prometeu um ano "difícil e exigente". É provável que, nos próximos dias, ou nas próximas horas, o primeiro-ministro volte a mudar de ideias, negando tudo o que disse até ao momento.
As piruetas são perfeitamente compreensíveis: o eng. Sócrates não faz a mais pálida ideia de como será 2009 e vai atirando ao sabor do vento. Uma ideia, porém, parece recorrente na esquizofrenia política do eng. Sócrates: aconteça o que acontecer, ele não será culpado de nada. Pelo contrário: ele está disposto a ajudar as famílias, os trabalhadores, as empresas; e, mais, foi precisamente a coragem do seu governo que, ao pôr as contas em dia, preparou a Pátria para as tormentas futuras.
Entendo que o primeiro-ministro tenha que dizer estas coisas em ano eleitoral. Mas também acredito que, lá no fundo, existirá um grilo na consciência do primeiro-ministro que lhe dirá a verdade: o défice foi mascarado a golpes de cosmética; o assalto contumaz ao bolso dos contribuintes foi um travão ao investimento e à criação de emprego; a despesa, essa gordura do Estado, não foi atacada com seriedade; o nosso endividamento esmaga-nos e paralisa-nos; a economia portuguesa, no fundo, não está preparada para coisa nenhuma porque o governo PS desperdiçou um mandato e uma maioria. Que o eng. Sócrates lave agora as suas mãos e prometa caridade aos nativos, eis um espectáculo que não redime quatro anos. Apenas os explica.
PURGATÓRIO
Velhos
Aqui há tempos, o escritor Francisco José Viegas lamentava publicamente o desporto de certas famílias portuguesas que, em plenas festividades, têm o hábito de despejar os seus velhos nas urgências hospitalares. Imagino que o Francisco desconheça a real proporção do fenómeno. Eu próprio desconhecia, mas uma pessoa de família encarregou-se de mo explicar. Só este ano, e no hospital onde ela labuta (como médica), três velhos foram largados no recinto. Um deles trazia bilhete colado ao peito, como se fosse uma criança recém-nascida e recém-rejeitada. Os médicos já nem estranham: recebem as encomendas e dão cama e comida aos pobres. No dia seguinte, começam as formalidades para encontrar os familiares ou, pelo menos, um lar "social" onde os estacionar.
Ouvi tudo isto com certo interesse antropológico e depois perguntei internamente se não haveria solução mais cómoda para o problema. Longe de mim moralizar as famílias e esperar que elas cuidem compassivamente dos seus estorvos; a minha loucura não chega a tanto. Mas questiono se não haveria forma de manter os velhos em casa, com vantagens para as famílias. Creio que sim. Bastava que as famílias deixassem de despejar os velhos no hospital e passassem a cozinhá-los. A medida não é inteiramente original: Jonathan Swift lidou com problema idêntico na Irlanda faminta do século XVIII. E, para Swift, os pobres podiam matar a fome desde que vendessem os filhos no talho. Bem sei que as crianças são mais tenras e saborosas do que carne envelhecida. Mas com o tempero certo, até a carne mais putrefacta pode gerar saborosos pitéus (lembrar a perdiz). Num ano que se adivinha de aperto, a poupança começa em casa.
PARAÍSO
Bento XVI
Bento XVI não tem descanso: sempre que o Papa abre a boca, o mundo entra em ebulição. E porquê? A julgar por certa imprensa, que faz gala da sua própria preguiça e ignorância, o Papa atacou os homossexuais e comparou-os às ameaças humanas e climatéricas que se abatem sobre a floresta tropical. No raciocínio do Papa, o heterossexual genuíno seria como as árvores, um produto "natural" que se vê dramaticamente ameaçado pelas bichas, perdão, pelos bichos da madeira.
Uma pessoa lê estas coisas e depois, meio trémulo, vai confirmar. Eu fui. E relendo a alocução de Bento XVI à Cúria Romana no passado dia 22, não encontrei rigorosamente nada que se afastasse um milímetro da tradicional, e secular, e assaz conhecida doutrina da Igreja em matéria sexual. Uma defesa da família e do papel específico que "homens" e "mulheres" têm no matrimónio como continuadores da espécie. Donde, a comparação: proteger a família é tão importante como proteger o ambiente. O que implica, segundo Bento, não aceitar as teorias de género que defendem uma sexualidade escolhida pelos homens, e não criada por Deus e sancionada pela Natureza. O discurso do Papa é, como habitualmente, um texto denso, erudito e, na sua ortodoxia, devia merecer melhor sorte: uma discussão civilizada sobre, por exemplo, a hipótese de a homossexualidade ser também "natural", como aliás se observa nas restantes espécies - um pormenor que parece desmentir o argumento central de Bento XVI. Mas o fanatismo anticatólico não pensa nem discute, preferindo reduzir tudo a uma farsa grotesca que seja compatível com a idade mental das patrulhas. As mesmas que desataram a berrar só porque a Igreja Católica continua a ter um católico a liderá-la. Quando cresce esta gente?