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José Socrates, Simone Weil, José Saramago

8:00 Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
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Inferno


José Sócrates


Comecemos pelo básico: em nenhum momento me passa pela cabeça que José Sócrates enfiou dinheiro ao bolso quando era ministro do Ambiente. O meu cepticismo é inteiramente racional: pactuar com a corrupção no caso Freeport não teria sido apenas um acto grave, a merecer punição criminal; teria sido um acto de uma clamorosa e quase inacreditável estupidez. Uma coisa é assinar uns projectos na província ou sacar uma licenciatura no mínimo bisonha. Outra, bem diferente, é hipotecar o futuro político com um acto tão rasteiro e, a prazo, tão obviamente explosivo. Acreditar nisto seria passar um atestado de imbecilidade ao primeiro-ministro que eu nem sequer reservo para o meu cágado.

Dito isto, é no mínimo confrangedor assistir ao espectáculo que o eng. Sócrates tem oferecido ao país: uma gritaria contra "poderes ocultos" que, no essencial, se limita a atirar lama sobre partidos, órgãos de informação e sobre o próprio sistema judicial de que ele devia ser o primeiro defensor. A gritaria, para além de indigna, é deslocada: a investigação em curso, moribunda por obra e graça dos indígenas, ressuscitou por iniciativa inglesa.

De Sócrates esperavam-se duas atitudes: serenidade e, já agora, uma total abertura para, como escreveu Henrique Monteiro, disponibilizar as suas pessoalíssimas contas ou negócios. Sem falar do resto: um esclarecimento detalhado sobre a celeridade no licenciamento do Freeport, a mudança da Zona de Protecção Especial e as reuniões que teve, ou não teve, com os responsáveis pelo outlet. Começa a ser hora de Sócrates se comportar, verdadeiramente, como um inocente.

Purgatório


Simone Weil


Na passada terça-feira, passaram cem anos sobre o nascimento de Simone Weil. Não dei pelos festejos. Felizmente. Não que Simone Weil não tenha algumas virtudes que seria absurdo negar: nos inícios da década de 30, quando a maioria da intelectualidade francesa olhava para Moscovo com os olhos rasos de admiração e louvor, Weil recusava-se. O estalinismo, dizia ela, era uma tirania sanguinária e desumana, à imagem da tirania sanguinária e desumana que um certo cabo austríaco, de bigodinho ridículo, se preparava para construir na Alemanha. Hoje, ver o comunismo e o nazismo como duas faces da mesma moeda pode parecer um truísmo. Não era na França de 1930.

Infelizmente, as condenações antitotalitárias de Simone Weil não foram ao fundo do problema. E não deixa de ser desconfortável que, nas inúmeras páginas dedicadas às monstruosidades do Reich, o pormenor do anti-semitismo lhe tenha escapado. A ela, judia de ascendência, que sempre olhou para esta desconfortável identidade com uma repugnância só comparável à de Marx (et pour cause...).

Não admira que, neste nojo de si própria, o que mais tenha perturbado Weil no colaboracionismo de Vichy não tenha sido necessariamente a legislação anti-semita emanada do governo; mas a intolerável hipótese da França, a sua França, a tratar a ela como judia. A vida de Simone Weil foi uma recorrente identificação com o sofrimento dos outros - o proletariado que ela praticamente "santificou" num processo de mimetismo masoquista que a levou à morte por inanição. Mas nesta partilha do sofrimento, a compaixão de Weil parou às portas da sua própria tribo.

Paraíso


José Saramago


Para os intelectuais portugueses com espaço na imprensa ou nos blogues sofrem de um mal recorrente. É o síndroma Idi Amin. Em que consiste essa terrível maleita? Como o nome indica, ela retoma um comportamento assaz bizarro de Idi Amin, o antigo ditador africano que não ficou na História, apenas, pelas suas tendências canibais. Idi Amin tinha o hábito de enviar aos grandes do mundo alguns bilhetes da sua lavra, com conselhos económicos ou políticos. Se a economia americana abrandava, por exemplo, Idi Amin escrevia a Ronald Reagan e exortava-o a poupar. Se a insegurança crescia na Grã-Bretanha, o canibal Amin aconselhava a sra. Thatcher a investir nas forças policiais.

Morto Idi Amin, seria de temer que os grandes do mundo se sentissem perdidos sem uma voz amiga disposta a socorrê-los. Mas o espírito de Amin sobreviveu ao próprio e não existe plumitivo português que não escreva os seus bilhetes com a certeza de que eles serão lidos em Washington. O último cultor desta escola é José Saramago, que no seu hilariante blogue fala directamente para Hillary Clinton, convidando-a a abandonar o nome do marido e a assumir o seu Rodham de nascença. Saramago deplora a subjugação da mulher ao poder onomástico do homem e não tem pudor em dizê-lo, directamente, à sra. Clinton, perdão, à sra. Rodham.

Infelizmente, e como o próprio reconheceu em momento fugaz de lucidez, a Casa Branca não se pronunciou sobre os conselhos de Saramago. Uma desfeita que, em nome do riso, não deverá inibir Saramago de continuar o exemplo de Idi Amin. O canibalismo, claro, é opcional.

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A ignorância é um dom?
Durruti Blak (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 12:43 | Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
1) Simon weil era uma cristã francesa, filha de pais agnósticos – só um raciocínio tipicamente racista pode levar alguém a afirmar q/ela “sempre olhou para esta desconfortável identidade com uma repugnância” ou “nojo de si própria” por se afirmar como cristã e não como judia. Eventualmente, Jesus sofreu do mesmo problema, não?
2) Mas o mais grave no seu artigo, é a ligeireza com q/perpetua o mito de um Idi Amin com as “suas tendências canibais” – rumor amplamente divulgado nos média ocidentais mas nunca comprovado. Ele, de facto, para além de um ditador feroz, como muitos q/existiram e existem, foi o palhaço africano q/os colonialistas ressabiados e os neo-colonialistas necessitavam para alimentar a sua imagem do primitivo selvagem q/justificaria a missão civilizacional ocidental – e a sua ligação a um artigo de Saramago. Que tal compará-lo a Hitler, por defender a invasão do Líbano e do território sitiado de Gaza? Mais: Amin foi presidente do Uganda entre 1971 e ABRIL DE 1979; Margaret Thatcher primeira-ministra de MAIO DE 1979 a 1990; e Ronald Reagan presidente de JANEIRO DE 1981 a 1989. Na verdade, ele mandou telegramas a Kissinger (“You are not intelligent because you never come to see me when you need advice.”), à rainha Isabel II (“I hear that England has economic problems. I'm sending a cargo ship full of bananas to thank you for the good days of the colonial administration.”), e a Brejnev e a Mao Tse-Tung (“If you need a mediator I am at your disposal.”)
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    Re: A ignorância é um dom?    Ver comentário
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 16:08 | Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
    Re: A ignorância é um dom?    Ver comentário
Durruti Blak (seguir utilizador), 2 pontos , 17:39 | Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
nem voce se inibe das mais estapafurdias opinioes
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 9:17 | Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
porque raio averia o Saramago de faze-lo. Caso nao saiba todas as semanas se dirige ao povo Portugues.

Mais um que, antes de termos culpado, exige a toda a forca um inocente...infernal

quando a Simone Weil, ja nao basta sofrer e sofrer pelos outros, voce quer martires perfeitos...purgas
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Acto falhado - uma confissão alarmante
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 17:21 | Terça-feira, 10 de Fev de 2009
João Pereira Coutinho confessa-se canibal. Com subtileza. Acusando outros. Mas inequivocamente. É bom que as polícias e os psicólogos estejam atentos. Eu estou a alertar para o perigo.

João Pereira Coutinho afirma que é canibal quem dá opiniões por escrito. Por isso compara José Saramago a Idi Amim. Parece absurdo? É mesmo. Parece de um mentecapto? Seguramente.

Mas João Pereira Coutinho não esquece de um pormenor. Ele próprio todas as semanas escreve as suas opiniões. É uma verdadeira confissão. Um acto falhado. Ele está a avisar-nos das suas taras. De forma desajeitada e inconsciente, mas de facto.

  Espero que a Polícia portuguesa actue rapidamente, não esperando que, também neste caso, a polícia inglesa lhe faça o trabalho de casa. Espero que para a semana JPC já possa escrever as suas crónicas da cadeia de Caxias, depois de uma suculenta refeição vegetariana.
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