Inferno
José Sócrates
Comecemos pelo básico: em nenhum momento me passa pela cabeça que José Sócrates enfiou dinheiro ao bolso quando era ministro do Ambiente. O meu cepticismo é inteiramente racional: pactuar com a corrupção no caso Freeport não teria sido apenas um acto grave, a merecer punição criminal; teria sido um acto de uma clamorosa e quase inacreditável estupidez. Uma coisa é assinar uns projectos na província ou sacar uma licenciatura no mínimo bisonha. Outra, bem diferente, é hipotecar o futuro político com um acto tão rasteiro e, a prazo, tão obviamente explosivo. Acreditar nisto seria passar um atestado de imbecilidade ao primeiro-ministro que eu nem sequer reservo para o meu cágado.
Dito isto, é no mínimo confrangedor assistir ao espectáculo que o eng. Sócrates tem oferecido ao país: uma gritaria contra "poderes ocultos" que, no essencial, se limita a atirar lama sobre partidos, órgãos de informação e sobre o próprio sistema judicial de que ele devia ser o primeiro defensor. A gritaria, para além de indigna, é deslocada: a investigação em curso, moribunda por obra e graça dos indígenas, ressuscitou por iniciativa inglesa.
De Sócrates esperavam-se duas atitudes: serenidade e, já agora, uma total abertura para, como escreveu Henrique Monteiro, disponibilizar as suas pessoalíssimas contas ou negócios. Sem falar do resto: um esclarecimento detalhado sobre a celeridade no licenciamento do Freeport, a mudança da Zona de Protecção Especial e as reuniões que teve, ou não teve, com os responsáveis pelo outlet. Começa a ser hora de Sócrates se comportar, verdadeiramente, como um inocente.
Purgatório
Simone Weil
Na passada terça-feira, passaram cem anos sobre o nascimento de Simone Weil. Não dei pelos festejos. Felizmente. Não que Simone Weil não tenha algumas virtudes que seria absurdo negar: nos inícios da década de 30, quando a maioria da intelectualidade francesa olhava para Moscovo com os olhos rasos de admiração e louvor, Weil recusava-se. O estalinismo, dizia ela, era uma tirania sanguinária e desumana, à imagem da tirania sanguinária e desumana que um certo cabo austríaco, de bigodinho ridículo, se preparava para construir na Alemanha. Hoje, ver o comunismo e o nazismo como duas faces da mesma moeda pode parecer um truísmo. Não era na França de 1930.
Infelizmente, as condenações antitotalitárias de Simone Weil não foram ao fundo do problema. E não deixa de ser desconfortável que, nas inúmeras páginas dedicadas às monstruosidades do Reich, o pormenor do anti-semitismo lhe tenha escapado. A ela, judia de ascendência, que sempre olhou para esta desconfortável identidade com uma repugnância só comparável à de Marx (et pour cause...).
Não admira que, neste nojo de si própria, o que mais tenha perturbado Weil no colaboracionismo de Vichy não tenha sido necessariamente a legislação anti-semita emanada do governo; mas a intolerável hipótese da França, a sua França, a tratar a ela como judia. A vida de Simone Weil foi uma recorrente identificação com o sofrimento dos outros - o proletariado que ela praticamente "santificou" num processo de mimetismo masoquista que a levou à morte por inanição. Mas nesta partilha do sofrimento, a compaixão de Weil parou às portas da sua própria tribo.
Paraíso
José Saramago
Para os intelectuais portugueses com espaço na imprensa ou nos blogues sofrem de um mal recorrente. É o síndroma Idi Amin. Em que consiste essa terrível maleita? Como o nome indica, ela retoma um comportamento assaz bizarro de Idi Amin, o antigo ditador africano que não ficou na História, apenas, pelas suas tendências canibais. Idi Amin tinha o hábito de enviar aos grandes do mundo alguns bilhetes da sua lavra, com conselhos económicos ou políticos. Se a economia americana abrandava, por exemplo, Idi Amin escrevia a Ronald Reagan e exortava-o a poupar. Se a insegurança crescia na Grã-Bretanha, o canibal Amin aconselhava a sra. Thatcher a investir nas forças policiais.
Morto Idi Amin, seria de temer que os grandes do mundo se sentissem perdidos sem uma voz amiga disposta a socorrê-los. Mas o espírito de Amin sobreviveu ao próprio e não existe plumitivo português que não escreva os seus bilhetes com a certeza de que eles serão lidos em Washington. O último cultor desta escola é José Saramago, que no seu hilariante blogue fala directamente para Hillary Clinton, convidando-a a abandonar o nome do marido e a assumir o seu Rodham de nascença. Saramago deplora a subjugação da mulher ao poder onomástico do homem e não tem pudor em dizê-lo, directamente, à sra. Clinton, perdão, à sra. Rodham.
Infelizmente, e como o próprio reconheceu em momento fugaz de lucidez, a Casa Branca não se pronunciou sobre os conselhos de Saramago. Uma desfeita que, em nome do riso, não deverá inibir Saramago de continuar o exemplo de Idi Amin. O canibalismo, claro, é opcional.