PARAÍSO
José Sócrates
José Sócrates foi considerado pela imprensa espanhola um dos homens mais elegantes do mundo. Não sei a que tipo de elegância se referiam "nuestros hermanos" - mas, em termos de elegância política, é difícil discordar. Nos últimos tempos, Sócrates tem presenteado o país com recorrentes números de circo que, pessoalmente, me encantam.
Primeiro, começou por confirmar o Estatuto dos Açores, uma forma elegante de ignorar, para não dizer insultar, o Presidente da República. Depois, no discurso mais delirante de que há memória neste mandato, Sócrates subiu ao palco da fantasia e prometeu um 2009 glorioso para o bolso dos portugueses: com a descida das taxas de juro, da gasolina e da inflação, a crise não passará por cá.
Como explicar o estranho comportamento do primeiro-ministro, que irá a eleições no próximo ano? Os especialistas não têm dúvidas: Sócrates perdeu contacto com a realidade e, em relação à "cooperação estratégica" com Cavaco, o primeiro-ministro pretende contentar a esquerda do PS.
Curiosamente, as explicações ignoram o facto mais basilar: semana após semana, nas sondagens da praxe, Sócrates é a única figura do regime que não treme. Mais: se ele não treme, tudo treme à sua volta, a começar por um PSD em lento processo de deliquescência política.
Por outras palavras: Sócrates age como age não porque deixou de ter contacto com a realidade - mas porque a entende melhor do que ninguém. E sabe que cada afronta é uma exibição de poder.
Claro que esse poder, precisamente porque incontrolado, pode destruí-lo no limite: ironicamente, a única pessoa capaz de derrotar Sócrates em 2009 é o próprio Sócrates. Mas, até lá, ele avança sozinho, e o resto é paisagem.
PURGATÓRIO
Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira ressuscitou para o cinema, em 1979, com Amor de Perdição. O filme, que hoje se vê por razões cómicas, inaugurou a consagração oficial de Oliveira. Motivo simples: em 1979, Oliveira tinha 71 anos, e a crítica, que largamente o vergastara (sobretudo a partir de O Passado e o Presente), pretendia fazer as pazes na fase final da vida do cineasta.
Fatalmente para a crítica, ninguém imaginava que Oliveira chegasse aos 80, aos 90, aos 100, possivelmente aos 110 - e que continuasse a acumular filmes, uns atrás dos outros, ano após ano. Moral da história: o balão do engodo foi enchendo, enchendo, enchendo.
Hoje, é tarde para apontar o dedo e dizer que o rei, se não vai nu, pelo menos vai em trajes menores. Foi assim que Manoel de Oliveira se transformou no maior equívoco do nosso medíocre cinema e da nossa provinciana cultura. Isto não significa que Oliveira, "lui-même", não tenha méritos.
Como pessoa, as meditações do homem valem pela sua radical ausência de vassalagem à "modernidade". Oliveira é o típico produto do Porto burguês e da sua fortíssima consciência conservadora, ou seja, atenta à tradição e aos excessos destrutivos da liberdade humana. Basta ler Oliveira, a começar pelas suas entrevistas, para perceber o mundo (quase) fantasmagórico a que ele pertence.
Infelizmente, Oliveira não se ficou pelas palavras - e, ao pretender filmar esse mundo e os seus dilemas morais e metafísicos, o autor optou por uma forma de cinema que é a negação do cinema: um pétreo artificialismo narrativo e compositivo que apenas denuncia a inabilidade do cineasta para dirigir actores, contar uma história em imagens e seduzir uma plateia.
INFERNO
André Tchaikowsky
Li há tempos que as nossas escolas de Medicina não tinham cadáveres suficientes para que a pequenada estudantil mexesse neles. Os portugueses, pelos vistos, não têm o hábito de legar a carcaça à ciência. Preferem dar pasto aos vermes ou, em casos mais poéticos, conspurcar as águas do rio com as suas espirituais cinzas.
E eu? Eu, confesso, gostava de ser empalhado quando o momento viesse (tipo Lenine). Ou, pelo menos, ter a cabeça embalsamada na sala de estar, como acontece com certos animais de caça.
Mas que dizer da ideia peregrina de André Tchaikowsky, um judeu polaco, sobrevivente do Holocausto, que fez carreira breve como pianista em Londres? No seu testamento, Tchaikowsky legou o corpo à ciência, mas reservou a caveira para a Royal Shakespeare Company. Tchaikowsky tinha o sonho de estrelar uma produção do bardo; e, se não o fez em vida, pelo menos que as ossadas o fizessem em morte.
Finalmente, aconteceu: na última produção de Hamlet, o defunto Tchaikowsky encarna a célebre caveira que o angustiado príncipe segura na mão enquanto relembra a passagem do amigo Yorick por este mundo. Conta quem viu que Tchaikowsky está muito bem no papel (sorriso expressivo, imobilidade total, brancura fantasmagórica); tão bem que o director da peça teve de suspender o uso da caveira, porque a plateia, informada sobre a história do adereço, não se continha e desatava em risos nervosos ou vómitos de horror.
Se isto não merece um prémio de representação, eu não sei para que servem os prémios. Mas sei para que serve o meu corpo: para que as meninas da Faculdade de Medicina possam mexer nele à vontade. Mal por mal, antes isso do que ir parar às mãos de Luís Miguel Cintra e sua descendência.