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José Cutileiro, O mundo dos outros

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta-feira, 5 de Fev de 2010

Os europeus gostam tanto de Obama que não tinham reparado que cada vez menos americanos gostam dele. Os conselheiros principais do Presidente e o próprio Presidente reparavam - as sondagens; as tea-parties; a perda do governo de Nova Jersey - mas achavam que muitos descontentes voltariam à razão antes das eleições de Outubro para o Congresso. Obama e os seus eram tão sabedores e bem intencionados que o povo com certeza lhes renovaria a confiança.

Na véspera do aniversário da posse de Obama a conquista por um republicano desconhecido da vaga de senador aberta pela morte de Ted Kennedy fez estremecer o Partido Democrático, desde a Casa Branca a obscuras Secções de província. Se no Estado mais à esquerda dos Estados Unidos, tal catástrofe era possível, que iria passar-se em lugares centristas que em 2008 haviam escolhido Obama e vão votar em Outubro? Dentro do partido as recriminações começaram, com a directora da campanha da candidata democrata batida no Massachusetts e a Casa Branca a acusarem-se mútuamente da culpa da derrota.

Os democratas, muito variados em raça, fé e ideias, são mais difíceis de focalizar e dirigir do que os republicanos, quase todos brancos cristãos de direita, mas, da mesma maneira que o responsável pelo triunfo de há dois Outonos foi Obama, é ele o principal responsável pela derrocada actual. A calma exemplar da sua campanha presidencial, pairando acima da agitação dos rivais, que tanto apreço dos eleitores lhe trouxe, não lhe tem valido nas guerras impiedosas da governação. Enquanto Reagan e Clinton culparam sem hesitação os respectivos predecessores pelo estado em que encontraram o país Obama não teve uma má palavra contra George W. Bush. Insistiu durante meses no Congresso em aliciar o Partido Republicano a fazer alianças que estreitassem o fosso aberto desde o fim da presidência de Bill Clinton mas fê-lo soltando demais a rédea ao seu próprio partido e nenhum republicano votou pelo plano de saúde democrático; a América continua rancorosamente dividida. Os americanos vêem nele um ser distante, à vontade entre élites intelectuais mas alheio ao que sente o geral das pessoas, que não cuidou de explicar o plano de saúde ao público; esperou três dias até falar aos país sobre o atentado da Al-Qaeda contra o avião de Detroit no Natal e por aí fora. Os seus muitos dons e virtudes são esquecidos. Por todo o país uma direita ignorante e racista difama-o e parte da esquerda, frustrada e raivosa, deixa-o cair.

Reagan e Clinton enfrentaram Congressos dominados pela oposição mas cada um à sua maneira soube vencê-la, fez da sua presidência um sucesso e deixou o país melhor do que o tinha encontrado. Há um ano Obama era imbatível. Hoje há quem duvide que tenha instinto que dê para governar os Estados Unidos. Mas há ainda muita gente com fé nele - e talvez o discurso do Estado da União na quarta-feira, eloquente, decente e sensato, tenha começado a repor a sua presidência na calha.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta-feira, 29 de Jan de 2010

O terramoto de Lisboa de 1755 provocou debates filosóficos na Europa sobre o mal e sobre os desígnios de Deus. O optimismo de Leibniz, à moda na época, levou um rude golpe. No seu "Candide", Voltaire pôs em dúvida que tudo fosse pelo melhor no melhor do mundos possíveis. Espíritos religiosos exaltaram-se. No último Auto de Fé celebrado em Lisboa foram queimados o reverendo Malagrida, velho jesuíta para quem o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa ser pouco católica, e uma efígie do Cavaleiro de Oliveira, protestante exilado no estrangeiro, que escrevera que o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa ser católica demais. O marquês de Pombal entendia que o terramoto tivera causas naturais.

Desde as guerras napoleónicas até à II Guerra Mundial, o homem foi fazendo a si próprio tanto mal - ou mais - quanto lhe faziam 'catástrofes naturais', que em inglês se chamam 'actos de Deus'. Mas sobre tais malefícios houve menos debates filosóficos - a menos que discussões de pacifistas com quem o não seja mereçam tal classificação. Já no século XX, o Holocausto única desgraças causadas pelo homem a suscitar perguntas e dúvidas iguais às levantadas por alguns 'actos de Deus', tornou a trazer o mal para o centro de especulações filosóficas.

A enormidade da tragédia do Haiti já terá provocado esse género de reflexões mas, neste século XXI de informação instantânea e comunicações rápidas, a possibilidade de mostrar desgraças em pormenor dentro da casa de cada um, de levar ajuda aos lugares sinistrados, de mostrar também as peripécias da entrega dessa ajuda e de explorar intrigas políticas tecidas a propósito tomam precedência na informação sobre meditações filosóficas ou teológicas. Salvo no caso do telenvangelista norte-americano Pat Robertson, homem de extrema-direita e pregador reputado, que afirmou ao seus fiéis que os haitianos não mereciam agora ajuda pois haviam feito um pacto com o diabo para conquistarem a sua independência da França em 1804. (A maioria dos habitantes revoltados eram escravos e o chefe da revolta que iria levar à independência, Toussaint l'Ouverture, era um escravo forro) Mais terra-a-terra, Rush Limbaugh, outro herói da extrema-direita americana, cujo programa de rádio tem audição de mais de 20 milhões, recomendou aos auditores que não mandassem dinheiro para contas abertas pelo Governo americano a favor das vítimas do terramoto, porque Barack Obama só queria ajudar os haitianos por estes serem pretos. Se quisessem auxiliar fizessem-no através de organizações privadas.

Entretanto soldados americanos puseram o aeroporto de Port-au-Prince a funcionar; estão, com a força das Nações Unidas, a estabelecer a ordem e, juntamente com ONG e contribuições internacionais, sobretudo francesas, iniciaram a reconstrução. (Num reflexo pavloviano, jornais, telefonias e rádios de Paris começaram a acusar os americanos de prepotência e abuso de poder. Até que Sarkozy felicitou publicamente Obama e eles se calaram).

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta-feira, 22 de Jan de 2010

Famosamente (ou infamemente, dependendo das luzes de cada um e da disposição do momento) quando um dia em Bruxelas lhe explicavam o que queria dizer 'xenofobia' por causa de uma declaração que o Conselho Europeu ia fazer, Margaret Thatcher, então primeira-ministra, exclamou: "Detestar estrangeiros? Que mal é que isso tem?". Durante este ano, mais do que uma vez, Silvio Berlusconi se divertiu e divertiu o público de comícios que arengava, chamando a Barack Obama o seu amigo americano bronzeado. A senhora é cruzada de prefeito de colégio, Berlusconi de compère de circo de província, nenhum deles é, felizmente, politicamente correcto. Mas depois do que aconteceu agora na cidade calabresa de Rosarno fica-se tentado a perguntar se, nos tempos que vão correndo, um pouco de correcção política não daria jeito a tribunos europeus quando tivessem de falar de nações e de raças.

Há duas décadas que imigrantes sazonais africanos, muitos deles clandestinos, pagos a 25 euros por dia, alojados em armazéns desafectados e insalubres vinham todos os anos a Rosarno colher a fruta dos pomares de citrinos da região sem sobressalto de maior. Na quinta-feira da semana passada rapazes da cidade (brancos) alvejaram de dentro de um automóvel a tiros de pressão de ar vários trabalhadores imigrantes (pretos) e um destes ficou ferido. Os imigrantes vingaram-se indo em grupo bater em gente da terra, quebrar janelas, destruir automóveis e jardins; os citadinos mobilizaram-se e partiram numa caça ao preto que deixou muitos destes feridos. Boatos e contraboatos falsos animaram as partes: que um preto tinha sido morto; que uma branca grávida fora agredida e perdera a criança. A polícia interveio: empurrou os brancos para suas casas, arrebanhou os pretos e levou-os para centros de acolhimento a 100 quilómetros de Rosarno, de onde os que tiverem os papéis em ordem poderão depois ir para onde quiserem e os ilegais serão expulsos do país.

Não havia memória na cidade de distúrbios assim mas desta vez deu-se a conjunção explosiva do microcosmo de Rosarno, capital da Máfia local - a 'Ndrangheta - mais difícil de penetrar do que a siciliana porque ainda mais centrada na família, que controla toda a economia, desde o uso fraudulento de subsídios comunitários ao contrato de clandestinos de quem lhe conviria agora ver-se livre - e o macrocosmo da política italiana onde Berlusconi e os seus aliados de coligação da Liga do Norte falam em tom cada vez mais xenófobo e legislam a condizer, criando ambiente que tem facilitado incidentes racistas em Itália. No sábado passado, o ministro do Interior atribuiu os distúrbios de Rosarno a "tolerância a mais".

Há inquietação alhures na Europa: detestar estrangeiros está na moda e passar-se-ão maus bocados, embora sem máfia e com bom governo o risco diminua. Mais grave é que, segundo a ONU, a economia europeia precisará de 159 milhões de trabalhadores imigrantes em 2025. Por este andar não se chegará lá.

José Cutileiro   

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta-feira, 15 de Jan de 2010

E se eles fossem? As mulheres afegãs que protestaram contra a construção de um poço por militares da NATO, porque na sua aldeia tradicional irem todas as manhãs buscar água ao rio é a única oportunidade de falarem à vontade umas com as outras, ficariam contentes. Mas a seguir os talibãs fariam o que têm feito no vizinho Paquistão, onde não há tropas ocidentais: destruir escolas femininas à bomba - três em Novembro passado, nos arredores de Peshawar, cidade fronteiriça. Os talibãs querem as mulheres em casa e analfabetas, como impuseram quando eram governo em Cabul, tendo também dinamitado os monumentais Budas de Bamian e hospedado Bin Laden e o seu estado-maior quando estes preparavam os massacres de 11 de Setembro de 2001. A sua ambição quer controlar o passado, o presente e o futuro e é fanática: o suicida que há dias matou seis agentes da CIA numa base militar americana no leste do Afeganistão era um agente duplo, leal à Al-Qaeda. O queniano que no dia de Natal ia deitando abaixo um avião de passageiros sobre o Atlântico, o somali que tentou matar à machadada o caricaturista dinamarquês de Maomé, também emanavam da Al-Qaeda. A luta deles continua.

Não é por isso boa altura para pararmos a nossa. Amigo querido e fino como um coral disse-me há dias que quando ouvia generais americanos falarem do Afeganistão achava duas coisas: que eles não percebiam o que lá se passava e que a América queria mandar no mundo. Concordei com a primeira e discordo da segunda. Um relatório sobre o caso dos agentes da CIA (publicado na terça-feira à revelia do Pentágono) diz que o pessoal americano encarregado de recolher informação não entende as comunidades locais, a sua economia, a sua distribuição de poder, os seus valores, os seus costumes, e que a ignorância aumenta à medida que se sobe na hierarquia militar. Por seu lado, o caso do candidato a terrorista queniano revelou falhas estruturais e negligência na análise de informação nas grandes agências de segurança americanas. Tudo isto é muito preocupante mas é preciso corrigir e não desistir, tentando aprender onde se saiba (por exemplo, a organização dos serviços de segurança franceses; peritos americanos como o general Michael Flynn, autor do relatório citado).

Os americanos não querem mandar no mundo mas, felizmente para eles e para nós, procuram defender os seus interesses e impedir que o mundo se volte contra eles. Quem se ressinta do poder que os Estados Unidos ainda têm tente imaginar onde estaríamos agora se a Guerra Fria tivesse sido ganha pela União Soviética. Ou onde estaremos daqui a vinte anos se a China do partido único mandar no mundo a seu bel-prazer.

À medida que o efeito Obama se vai desvanecendo reaparece na Europa um antiamericanismo perigoso. O oásis de saúde, prosperidade e decência cívica que hoje se chama União Europeia só pôde construir-se e alargar-se graças à solidez da aliança transatlântica. Se esta deixar de meter respeito, adeus ó vindima.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta-feira, 1 de Jan de 2010

Escrevo ao fim da tarde de domingo, 20, véspera do solstício, acantonado numa pequena cidade do norte dos Países Baixos por neve que continua a cair e já fechou aeroportos, parou comboios e tornou intransitáveis muitas estradas do Noroeste da Europa. Dizem-me que há 30 anos não se via nada assim por estas paragens, mas que se irá tornar a ver em breve porque o clima está a mudar. Dado que a terra tem muitos e muitos milhões de anos e que extrapolações seguras para intervalos tão pequenos como os de uma ou duas vidas humanas a pouco mais de cem anos podem ir buscar dados fiáveis, parece-me que previsões assim devem mais a crenças irracionais do que à ciência - mais il faut de tout pour faire un monde. Lembro a exortação imortal do tribuno paulista Ademar de Barros no fim dos seus comícios: "E agora, macacada, pé na tábua e fé em Deus!"

Daqui acompanhei pela televisão, pelo Internet e por conversas ao telefone o fim do jogo de xadrez disfarçado de circo de Copenhaga que acabou mal mas, no meu entender, não tão mal quanto muitos dizem. Não temos um texto legal com carácter vinculativo mas isso importa pouco pois o que conta é a vontade política: Quioto era vinculativo e deu no que deu. Os governos (Que digo eu? As nações!) são como os cavalos: podem ser levados à borda de água mas não podem ser obrigados a beber. A pouco e pouco, porém, aprendem. A reunião de Copenhaga tornou o que está em jogo quanto a mudanças climáticas muito mais evidente do que parecia antes e iremos assistir nos marcos futuros já estipulados do processo e nos intervalos entre esses marcos a passos efectivos dados por governos de países ricos, emergentes e pobres para reduzir gases com efeito de estufa. Assim disse em entrevista a uma cadeia de TV inglesa o Presidente das Maldivas, que há semanas presidira um Conselho de Ministros debaixo de água para ilustrar dramaticamente um dos perigos do aquecimento global. Mohamed Nashid achava que o resultado da conferência não tinha sido mau, que as metas acordadas eram as possíveis agora e seriam substituídas brevemente por metas melhores. O seu bom senso contrastava com a fúria de alguns fanáticos: a causa ecológica (incluindo aquecimento global) é papel mata-moscas para órfãos de Lenine, da teologia da libertação e de anarquismos sortidos.

Outro aspecto da conferência se deve notar, que é porventura o mais importante. Má organização da ONU e a inexperiência dinamarquesa contribuíram certamente para uma negociação pouco satisfatória. Mas sobretudo viu-se muito melhor do que nas reuniões recentes do G-20 (que foram em grande parte sobre uma crise gerada nos Estados Unidos) como se está a redistribuir o poder no mundo. Em suma: os Estados Unidos e alguns poderes emergentes aceitaram as posições da China e ignoraram a Europa, que contou praticamente só com o apoio dos africanos. Diz-me quem lá esteve que a arrogância chinesa ao levar água ao seu moinho era impressionante. E obedece quem deve.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009
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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:01 Sexta-feira, 25 de Dez de 2009

Assim ficará o mundo se Obama não for capaz de lhe deitar a mão - de o agarrar pela pele do pescoço como se agarra um gato zangado - ao contrário do que esperavam os seus fiéis. Há três gerações que as nações não estão habituadas a viver num mundo sem rei nem roque.

A seguir à II Guerra Mundial os poderes europeus já não tinham envergadura para continuarem a mandar no mundo mas, entretanto, havia surgido quem quisesse tomar conta dele: os Estados Unidos e a União Soviética, depressa armados até aos dentes um contra o outro. Como havia, de parte a parte, a convicção de que uma guerra nuclear seria o fim da humanidade e como se receava que pequenas escaramuças pudessem degenerar em conflitos perigosos, cada lado trazia os seus arruaceiros à rédea curta. Durante meio século houve muitas guerras locais mas Washington e Moscovo não as deixavam alastrar e - milagre que os vindouros talvez venham a apreciar melhor do que nós - a Guerra Fria acabou a bem.

Por sorte foi ganha pelos Estados Unidos que - sorte suplementar - tinham nessa altura para tratar das relações com o resto do mundo George Bush pai, Brent Scowcroft e Jim Baker, três homens muito menos arraçados de escuteiro do que a maioria dos estadistas americanos. No mundo unipolar, entre a queda do muro de Berlim e a queda das torres de Manhattan, era como se se vivesse outra vez antes da Revolução, e as façanhas da Lewinsky abriam os noticiários - embora a Rússia de Putin se declarasse humilhada (não se percebe por quem), a China fosse amealhando dólares de mais e levedassem já outras complicações futuras. A junção dos ataques de 11 de Setembro à eleição de Bush filho foi explosiva e quando, 8 anos depois, Barack Obama apanhou o poder da rua, antiamericanismos de diferentes proveniências apostavam na chegada do mundo multipolar.

Não vai ser para já e nada garante que, se houver vários pólos, estes se dêem bem. Mais grave, o pólo existente é a garantia que nos resta de alguma ordem no mundo mas, em parte por culpa de Obama em parte por culpas de quem o quer provocar, parece dar sinais de fraqueza. Os Estados Unidos de Bush filho eram odiados mas eram temidos; os Estados Unidos de Obama são estimados mas não se dão ao respeito. Os casos acumulam-se: no Médio Oriente Netanyhau, Abbas e o Rei da Arábia Saudita ignoraram exortações de Obama; em Washington, o senador Lieberman anuncia que não dará o seu voto crucial ao plano de saúde; no Paquistão, a tropa rejeita pedido americano de atacar o principal chefe talibã (acha que precisará dele contra a Índia quando os americanos se forem embora). É gente de mais a dizer que não ao homem mais poderoso do mundo.

Obama faz discursos admiráveis mas faltam-lhe até agora actos decisivos. Se convencer Rússia e China a apoiarem sanções contra o Irão e o Congresso a apoiar o plano de saúde, terá ganho em casa e fora. Se não, arriscar-se-á a ficar a maior ilusão perdida da política mundial desde o fim da Guerra Fria.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009


 

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:01 Sexta-feira, 18 de Dez de 2009

A cappital da Dinamarca deu o nome à batalha naval onde o inglês Nelson primeiro se distinguiu quando levou ao olho cego o óculo assestado na direcção do navio-almirante que o mandava retirar, declarou não ver ordem nenhuma e continuou o combate até à vitória; deu também o nome ao cavalo de Wellington durante a batalha de Waterloo e, arrumadas as lutas napoleónicas e kaiserianas e nazis, porque os europeus entretanto deixaram de se guerrear uns aos outros (e de mandar no mundo), acolhe nestes dias uma gigantesca quermesse contra o aquecimento global.

Talvez animados pelas reuniões do G-20 que, contra o pessimismo dos cépticos, começaram há um ano a gizar tratamento coordenado dos males financeiros e económicos do mundo, muitos chefes de Estado e de Governo (quase 200 países estarão representados) resolveram ir ao fecho de Copenhaga e redobraram de animação quando a Casa Branca anunciou há dias que Obama, em vez de passar por lá no começo quando fosse receber o Prémio Nobel da Paz a Oslo, se juntaria aos outros na altura do último regateio e do anúncio das grandes decisões. Milhares de pessoas - políticos, diplomatas, burocratas nacionais e internacionais, cientistas, técnicos, empresários, sindicalistas, lobistas do petróleo, militantes aguerridos de ONG dedicadas à salvação do mundo - transformarão a capital da Dinamarca num jogo de xadrez disfarçado de circo, como Nixon chamou às convenções partidárias americanas. Sob cascatas de demagogia, de ingenuidade e de má fé, lá se tentará negociar um acordo sensato.

O grande problema cuja solução se quer pôr na calha é novo, global, extremamente complexo e exige empenhamento de todos em soluções que, de preferência, sejam também globais. Mas está ao alcance dos conhecimentos científicos e técnicos e dos meios económico-financeiros de que o mundo hoje dispõe. Perante, numa ponta da curva de Gauss, cientistas que pensam que o progresso do aquecimento já é fatal e, na ponta oposta, outros que o acham episódico e autocorrigível talvez não se possa saber agora quem tem razão mas é preciso fazer a aposta de Pascal, isto é, prepararmo-nos para o pior, tomando medidas que previnam mais aquecimento futuro. Além de divergências técnicas sobre estas, há questões políticas fundamentais e é esse o jogo de xadrez de Copenhaga. Simplificando muito: como tornar aceitáveis medidas rentáveis a longo prazo mas custosas a curto prazo (sobretudo nos EUA e Europa)? Como convencer os países emergentes (China, Índia, Brasil) a tomarem medidas que atrasem a sua aproximação dos níveis económicos dos Estados Unidos e da Europa? Como financiar a defesa de vítimas do aquecimento global que para ele nada tenham contribuído (Bangladesh, quase toda a África)?

De Copenhaga não sairá um tratado mas poderão sair compromissos quantificados e rota traçada, com escalas obrigatórias, na demanda de melhor domínio do clima. E, à maneira do G-20, mais uma banca onde levar problemas de todos.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009

 

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:01 Sexta-feira, 11 de Dez de 2009

Num referendo de iniciativa popular, versão helvética de "o povo é quem mais ordena", 57% dos suíços aprovaram uma emenda à Constituição que proíbe a construção de mais minaretes islâmicos no país, contra a preferência do Governo, de grande maioria dos deputados, da indústria, da banca, de sindicatos, de jornalistas e contra o prognóstico unânime das sondagens. Genebra, o cantão mais cosmopolita da Confederação, votou em força contra a emenda; dois cantões quase sem imigrantes foram os que mais votaram a favor. Promotores da emenda disseram, sem rirem, que banir os minaretes não era contra o Islão mas apenas contra os extremistas. Almas bem formadas indignaram-se com o resultado por razões morais - que acontecera, afinal, à tolerância europeia? Espíritos práticos assustaram-se por outras razões - a Suíça precisa mais do resto do mundo do que o resto do mundo precisa da Suíça e como há hoje vários lugares com bancos igualmente acolhedores e discretos, elegantes estâncias de férias de Inverno com óptimas pistas de esqui, e fornecedores reputados de bens e serviços de luxo, a clientela milionária dos países do Golfo tem muito para onde mudar a sua freguesia. Já começou a ser incitada a fazê-lo quer por muçulmanos ofendidos (com alguma hipocrisia à mistura) quer por humanistas indignados. A Confederação Helvética vai estar uns tempos na berlinda e perder bastante dinheiro.

Em França, na Holanda, na Bélgica, na Áustria, na Itália, políticos da extrema-direita islamófoba e intolerante embandeiraram em arco. Mais uma vez eram eles que sabiam o que o povo verdadeiramente queria e não os agentes da democracia representativa. Partidos da direita moderada condenaram o resultado, nem sempre sem ambiguidade. O porta-voz-adjunto do partido de Sarkozy disse não ter a certeza de que os minaretes fossem precisos em lugares de culto. Havia evidentemente campanários nas igrejas mas estes pertenciam a uma herança histórica; era preciso distinguir entre religiões que já existiam em França antes da proclamação da República e religiões que tinham chegado depois. (Outros comentários de políticos houve, ao mesmo nível ético e intelectual). As igrejas portaram-se bem. O presidente da conferência episcopal alemã declarou: "É justamente porque nós, cristãos, recusamos e condenamos as restrições à liberdade religiosa impostas em países muçulmanos que devemos não só socorrer os cristãos que lá haja mas intervir igualmente a favor dos direitos dos muçulmanos que cá estão".

Referendo e boa governação não são sinónimos, a voz do povo não é a voz de Deus e é a democracia representativa que lhe mete amortecedores para nos proteger do pior. Mauriac dizia: "Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror!" E a costureira arménia que nos trata da roupa anda furiosa porque lá na terra dela o Presidente quer fazer as pazes com a Turquia, ao contrário do bom povo que quer guerra. A alma humana é um abismo.

José Cutileiro  

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009

 

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:01 Sexta-feira, 4 de Dez de 2009

Muitos euroentusiastas continuam de monco caído e coração dilacerado por os 27 chefes políticos da União Europeia terem escolhido Herman Van Rompuy para presidente do Conselho Europeu. Homens e mulheres dedicados à construção europeia tinham tentado promover federalistas visionários como o luxemburguês Junker ou uma celebridade como Tony Blair "que parasse o trânsito em Pequim"; alguns, além de intransigência sem mácula nos valores europeus e ecológicos do candidato exigiam carisma (nostalgia de dois males: a pureza revolucionária e a ambição bonapartista). Toda esta gente acha que a Europa foi traída.

Tanta cegueira alarma. Quem queira salvar a integração europeia - que é o trunfo estratégico mais importante de que os europeus dispõem para conseguirem passar do poleiro a que se guindaram nos últimos 500 anos para um poleiro mais abaixo mas ainda confortável sem se irem estatelar no pátio das traseiras do mundo globalizado - terá de perceber que a União Europeia, ao contrário do que muitos dizem, não é a larva de um insecto perfeito futuro chamado Estado Federal Europeu; pátria nova a crescer enquanto 27 pátrias velhas definham. É um arranjo político sui generis com uma característica óbvia mas que muitas vezes escapa a quem a observe: "What you see is what you get".

E o que se vê hoje são interesses nacionais a regatearem compromissos. Onde esses interesses são bem defendidos em comum - no comércio externo, na concorrência, a pouco e pouco no ambiente (na moeda) - o método comunitário predomina, a Comissão Europeia (e o Banco Central) tomam precedência sobre os governos nacionais e a União é um dos patrões do mundo. Em defesa e segurança onde as nações europeias se têm dado bem na NATO e a lidarem bilateralmente com Washington, o método dito intergovernamental predomina. A União conta pouco embora os seus membros possam contar muito. (A meio caminho ficam questões de energia e de justiça).

A melhor maneira de lutar pela Europa não é pregar as suas virtudes ao resto do mundo mas reforçar-lhe o poder. A tarefa prioritária do presidente do Conselho Europeu será estimular o entendimento entre os 27, entrosando neste fios da malha comunitária. A União não precisa à sua frente de um "relações públicas" ou de um missionário. Precisa de uma cerzideira que não deixe o tecido da construção europeia ser rompido. O poder da União, muito maior do que a soma dos 27 poderes nacionais, é económico e assenta na força do mercado interno. Defender este dos instintos proteccionistas dos governos nacionais tem sido e continuará a ser a principal tarefa do presidente da Comissão Europeia que deverá contar a partir de agora com a ajuda do presidente do Conselho Europeu.

Não vai ser fácil. O mundo globalizado é duro para os europeus porque mandam muito menos nele do que mandavam no mundo que havia antes. Se a malha comunitária começar a abrir buracos - ou se a NATO levar um rombo - menos mandarão ainda.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009

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José Cutileiro (www.expresso.pt)
8:00 Terça-feira, 24 de Nov de 2009

Os governos europeus mostraram que o Tratado de Lisboa, apregoado como reforço da presença da União no palco universal, começava por a dificultar, soltando indecorosamente em público 27 cães nacionalistas a dois ossos intergovernamentais e revelando na escolha desses dois chefes políticos preocupações de equilíbrio entre Norte e Sul, Leste e Oeste, grandes e pequenos, homens e mulheres, louváveis em quem presumisse dar lições de moral ao resto do mundo mas prejudiciais para quem tenha de se defender dele. Entretanto, Obama, que não fora a Berlim festejar os 20 anos da queda do Muro, fazia visita pastoral aos fiéis da Ásia e do Pacífico e encontrava-se em Pequim com o seu colega chinês Hu Jintao.

Lendo textos preparados e sem admitirem perguntas dos jornalistas (na China, sê chinês), os dois afirmaram quererem fazer da Conferência de Copenhaga um sucesso na luta contra o aquecimento global (a China produz 20,7% dos gases com efeito de estufa do mundo e os Estados Unidos 15,5%) e quererem trazer a Coreia do Norte de novo à mesa das negociações; Obama disse que ambos exortavam o Irão a ser mais cooperativo e aconselhou a China a falar com o Dalai Lama; Hu Jintao disse que a China e os Estados Unidos iriam discutir bilateralmente direitos humanos e liberdade religiosa. A marcar bem a ascensão da China disse também que os dois países se tratavam agora de igual para igual, acrescentando chavões tradicionais da retórica da China comunista - "respeito mútuo"; "ascensão pacífica"; "não interferência em questões internas' - e, em alusão transparente a tarifas impostas recentemente por Washington a produtos chineses, lembrou que nas circunstâncias actuais ambos os países precisam de se opor a quaisquer medidas proteccionistas.

Comentadores europeus falaram sombriamente de um G-2 com muito mais comando do mundo do que o G-20 ou as Nações Unidas, mas aí há grande exagero - e o problema não é esse. O problema é que a ascensão da China ao palco universal onde a União Europeia se quer afirmar vem com reforço contínuo das suas poderosas forças armadas e com explosões de nacionalismo que confrontos recentes com minorias intramuros têm vindo a exacerbar. Não são só deputados a votarem aumentos dramáticos do orçamento de defesa e apparatchiks a aplicarem cegamente instruções do comité central. São dissidentes que acusam o Governo de ceder ao estrangeiro; um grupo rock banido que canta: "Taiwan é nossa, o Tibete é nosso. Transigir com a América e o Japão é uma desgraça"; o livro colectivo "China Infeliz", em que um dos autores preconiza que o país tenha forças armadas capazes de conquistar seja quem for, seja onde for e de bater em quem quer que falte ao respeito à China.

Napoleão previra tremor de terra quando a China acordasse - sabendo que não seria no seu tempo. É agora. A União Europeia, sem força militar, deveria concentrar tudo no aumento do seu poder comercial e esquecer sonhos mal partilhados de grande império do bem.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

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