12/02/2012 atualizado às 13:55
Página Inicial » Opinião » José Manuel dos Santos » Jogo

Jogo

Na história do jogo, há de tudo: avidez, ruína, riqueza, traição, elegância, violência, fraude, penhor. E sedução, prazer, amor, sexo, morte, derrota, glória. A estética do jogo é única e intransmissível.

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 3 de setembro de 2010

Já não sabe quando começou, mas a imagem mais constante que tem de si é a jogar: cartas, dados, roletas, máquinas, tabuleiros, apostas, cautelas. Em todo o lado, bebe o álcool da sua sede. Aqueles que o veem de fora chamam a esse álcool veneno. Ele, se às vezes também lhe chama isso, há muitas outras que lhe chama remédio. Até nas conversas tem aquela mistura de ocultação e desafio que é própria dos jogos.

Quando li "Os Jogos e os Homens" (Caillois), "O Jogo como Símbolo do Mundo" (Fink), "Homo Ludens" (Huizinga), "Além do Princípio do Prazer" (Freud), acrescentei à minha visão umas lentes que a aumentaram. Não sei se ele leu estes livros tão perscrutadores.

Mas sei que age como se os tivesse à cabeceira. Há nele uma racionalidade repetitiva que se aproxima do rigor no desespero. Poderia ter sido um grande matemático: os seus raciocínios com cálculos e probabilidades são rápidos e invencíveis. É um jogador de clareza e exatidão, embora haja no seu modo de jogar aquele enfrentamento com o destino sem o qual o jogo é uma evasão vil - ou uma arruaça grosseira. Teria sido também um bom detetive, daqueles que descobrem sem ir ao local do crime. Ou um criminoso, serial killer talvez, dos que matam a partir de um silogismo e não de um sentimento.

Há jogadores de muitos tipos: desordenados e organizados, lentos e rápidos, impessoais e ardentes, perversos e desvairados, sensatos e aventureiros, sombrios e felizes. Vi, no casino de Marbella, uma mulher que se recusa sair da minha imaginação: personagem de uma história à qual vou acrescentando hipóteses, acontecimentos e episódios. Era uma mulher muito alta e muito magra, feia e fria. Vestida com uma roupa vulgar, tinha, nos pulsos magros, diamantes que brilhavam na sombra da noite. Estava sempre sozinha.

Ou, como se diria num mau romance do século XIX, a sua única companhia era um cálice de conhaque na mão ossuda e longa. Essa mulher passava as noites, até a madrugada chegar, naquela grande sala onde os gestos se atiram. Jogava em todas as mesas de todos os jogos. E andava, de olhos febris, vigiando os vários lances para ver o que o destino (ou o acaso) lhe dera ou negara. Nunca parava de jogar, Sísifa da sorte e do azar, mas Sísifa feliz. Havia naquela figura-fantasma mais ensinamentos sobre a psicologia humana do que nos milhões de páginas que hoje se escrevem com o nome narcísico e insuportável de 'autoajuda'. Sob o jugo do jogo, aquela mulher pareceu-me uma das pessoas mais livres que observei.

Eu não jogo, mas gosto de ver os jogadores jogarem. Este voyeurismo é o meu jogo com o jogo. Jogo no jogo dos outros. Há jogadores de todos os desejos: uns querem ganhar, outros perder. Um dia, um amigo meu viu um amigo dele sair do casino, no meio de uma tempestade, com um ar ainda mais desfigurado do que o da noite. Perguntou-lhe: "Perdeste?" O outro, em fuga, respondeu: "Pior! Ganhei!"

Na história do jogo, há de tudo: avidez, ruína, riqueza, traição, elegância, violência, fraude, penhor. E sedução, prazer, amor, sexo, morte, derrota, glória. A estética do jogo é única e intransmissível. Por isso, o cinema tanto se deu ao jogo: dos casinos (quem não se lembra de "Casablanca"?) aos salões dos paquetes, onde as mãos seguram flûtes de champanhe e jogam ao som de valsas, com corpos prometidos para mais tarde. Não é preciso olhar Chardin, Cézanne ou Vieira para vermos jogadores na pintura. Nem citar Dostoievski para sabermos que a literatura também está cheia deles.

A literatura, a arte, a filosofia são mesmo o grande jogo, o do tudo ou nada, aquele em que ganhar é ganhar-se e perder é perder-se. E a vida - também não é um jogo de morte? Aí, ir ganhando é ir durando ("o duro desejo de durar", de Eluard). Por sabermos isto é que a palavra 'jogo' se tornou tão nossa e tão contemporânea. Fala-se de jogos sociais, jogos políticos, jogos económicos, jogos amorosos, jogos desportivos, jogos matemáticos (a teoria dos jogos), jogos visuais, jogos virtuais.

A imagem mais constante que aquele homem tem de si é a jogar. Vê-se no espelho onde a roleta rola com o seu olhar. A sua vida tem o jogo no centro: é-lhe Deus e Demónio. Pelo jogo, casou e desfez casamentos, bebeu e tornou-se abstémio, viajou e parou de viajar, ficou rico e ficou pobre.

Uma noite de inverno, arruinado e só, o homem decidiu dar às perguntas do seu desespero a resposta do suicídio. Caminhou para o rio. Antes de se atirar, levou, instintivamente, a mão ao bolso. Surpreendido, encontrou, lá no fundo, uma pequena moeda esquecida. O jogo chamava-o! A tremer, disse com uma voz que murmurava no meio do nevoeiro: "Se for cara, mato-me; se for coroa, não." Atirou a moeda ao ar. Olhou-a: era coroa. O jogo perdeu-o. O jogou salvou-o. Vivo, continua a jogar, a jogar, a jogar...


jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Atual"

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010

Palavras-chave  opinião, , azar, fortuna, sorte, joga
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
O JOGO
gaivota 49 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:39 | Segunda feira, 6 de setembro de 2010
O jogo é um grande mal para quem é viciado nele.
Pode destruír uma vida,casamentos,levar á completa ruína.

"Se for cara,mato-me,se for coroa não".
Reconheci essa frase do livro «Vinte e quatro horas da vida
de uma mulher» de STEFAN ZWEIG.
lIVRO EXTRAORDINÁRIO...que retrata fielmente um jogador de casino.
Adorei esse livro pela grande profundidade de sentimentos
e a complexidade de emoções narradas por uma mulher,que um dia se cruza com um homem viciado no jogo da roleta até á exaustação...
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Despedida
0:00 Sexta feira, 25 de fevereiro de 2011, 4
O cartão
0:00 Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011, 9
O mal-entendido
0:00 Sexta feira, 11 de fevereiro de 2011, 11
A solução
0:00 Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011, 12
O crime
0:00 Sexta feira, 28 de janeiro de 2011, 15
O homem
0:00 Sexta feira, 21 de janeiro de 2011, 10
Começo
0:00 Sexta feira, 14 de janeiro de 2011, 15
Passagem
0:00 Sexta feira, 7 de janeiro de 2011, 13
Natal
17:00 Segunda feira, 3 de janeiro de 2011, 6
O santo do mal
0:00 Sexta feira, 24 de dezembro de 2010, 18
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP