O PS apresentou um projecto sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo que exclui a adopção. O Bloco de Esquerda apresentou outro que por omissão a permite. O PS, porque a adopção não está no seu programa, não vai viabilizar o projecto do BE e até exige disciplina de voto aos seus deputados. O BE, apesar da proibição da adopção não estar no seu programa, deu sinais de que vai votar a favor da proposta do PS. Neste caso será um partido da oposição a ceder nos seus princípios para que uma medida passe.
Só há uma forma de governar em minoria: negociar e ceder. E com cedências não é possível cumprir à risca um programa eleitoral. A maioria dos portugueses escolheu a conciliação como caminho. Espera-se que o PS perceba que se por umas vezes cede a oposição, por outras terá de ser ele a ceder. Isto, claro, se estiver realmente interessado em governar.
Podia ser o Presidente a desatar o nó parlamentar. Só que Cavaco Silva não quer ser árbitro. Num dos poucos casos em que há uma maioria clara - restando apenas divergências em relação à adopção -, o Presidente toma o partido de uma minoria parlamentar contra uma lei que, com ou sem ele, vai ser aprovada. Tem esse direito constitucional. Apenas deixa claro que não passará por ele a resolução de nenhum conflito. O problema resume-se assim: Sócrates quer governar como se tivesse maioria absoluta, Cavaco quer fazer oposição como se fosse o líder que o PSD não tem. Nenhum dos dois parece ter compreendido qual o seu papel neste cenário político.
A fronteira
Um homem com problemas psíquicos agrediu Berlusconi. Tal não deveria ser assunto político. A loucura ainda não foi promovida a corrente ideológica. Mas, diz um analista, entre 20 e 25% dos italianos terão aprovado a pontaria do lunático. E da parte de Berlusconi veio a leitura política do incidente: perante as ferozes críticas da oposição e da imprensa, "uma mente fraca pode convencer-se de que matar o tirano fará de si um herói nacional". Ou seja, a crítica democrática passou a ser vista já como um primeiro passo para a violência. O resultado da agressão está à vista: Berlusconi, que tinha uma aprovação de 48%, está agora nos 56. Da mesma forma que muitos dos seus opositores terão visto naquele gesto tresloucado uma manifestação política legítima e que Berlusconi a viu como consequência das críticas que lhe são feitas, muitos italianos mudaram a opinião política que tinham do primeiro-ministro por verem um velho ensanguentado e frágil. E assim se diluiu a fronteira entre a violência e a democracia.
Silvio Berlusconi é um homem perigoso. E é perigoso porque tem apostado nesta indefinição: milícias populares foram legalizadas e as agressões a imigrantes e ciganos têm sido toleradas. O episódio de Milão não resultou desta espiral. Mas a estranha naturalidade como foi vista por muita gente pode ser explicada pela banalização da violência como argumento na política italiana.
A violência é uma epidemia. E só conheço uma forma de nos protegermos dela: nunca a aceitar como arma política legítima em democracia. Se olharmos para a vitória de Aminatu Haidar frente à ditadura marroquina percebemos bem a diferença: a recusa da violência é a arma mais poderosa para exibir a brutalidade de quem nos oprime sem nos confundirmos com ele.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009