João Salaviza ainda está com a cabeça à roda depois do êxito na Croisette mas, aos 25 anos, dá provas de uma maturidade rara para a sua idade e de uma determinação que o mantém com os pés na Terra.
Das 2600 curtas-metragens que se apresentaram a concurso em Cannes, houve nove seleccionadas e a todas "Arena" levou a melhor, no passado domingo.
Há duas semanas, encontrámos Salaviza e entrevistámo-lo antes do festival, longe de imaginarmos que, à nossa frente, estava a pessoa que venceria a primeira Palma de Ouro do cinema português (até que enfim!). E logo no evento cultural, seja de que área for, com maior cobertura mediática em todo o mundo.
De novo em Lisboa, voltámos a encontrar o realizador. "Ainda não aterrei...", confessou-nos ele na esplanada do Jardim do Príncipe Real, perto do apartamento que alugou há pouco tempo e que partilha com uma amiga.
Que impressões trouxe de um festival com a dimensão de Cannes?
É difícil responder. Quando lá cheguei fiquei espantado com tudo. Não imaginava que um festival pudesse ter tantos acessórios exteriores ao cinema. O que mais me impressionou na Croisette, aquela avenida de vários quilómetros cheia de luz e de cor, foram os milhares de pessoas vestidas a rigor só porque Cannes é Cannes. E o espectáculo de carros luxuosos a passarem de um lado para o outro. E ainda as festas na praia, onde só se pode entrar por convite: tudo aquilo é um bocado irreal. Numa dessas festas estive mesmo ao lado do Eric Cantona.
Eu queria muito ir ver o filme do Tarantino, o "Inglourious Basterds", que adorei, apesar de não ser um fã incondicional do realizador. E não sabia que, para entrar na sala, tinha que vestir um smoking. Tudo isto foi uma surpresa. Mas percebi que todo aquele glamour faz parte do jogo: Cannes é uma máquina de fazer dinheiro e o que é incrível é que, em simultâneo, eles só mostram os filmes em que acreditam. Não fazem concessões. Não é qualquer um que entra ali. Também deve ser por isso que dizem que Cannes é o maior festival de cinema do mundo.
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| Foto de "Arena" |
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É uma realidade completamente oposta à do Bairro da Flamenga, na zola de Chelas, onde você rodou "Arena"...
É outro mundo. Eu gostava de falar um pouco do filme, para variar. Nas entrevistas que me fizeram, só me perguntaram coisas sobre o prémio. Fiquei com a sensação de que alguns jornalistas nem viram o filme, e isso entristeceu-me. E, no entanto, ele passou em Portugal antes de Cannes: estreou-se no IndieLisboa, no mês passado, e venceu ali o Prémio de Melhor Curta Portuguesa.
Não acredito muito em "cinema social" mas, em "Arena", senti vontade de filmar as pessoas que normalmente não se vêem nos filmes. Tinha um argumento que foi subsidiado pelo ICA e depois de vencer o concurso pus-me à procura de um bairro social nos arredores de Lisboa. Foi aí que descobri a Flamenga. Fica perto do local onde fazem o "Rock in Rio." E o argumento que eu tinha foi-se lentamente transformando.
Por quê?
Tão simples quanto isto: a realidade que descobri à minha volta e as pessoas que encontrei eram mais fortes do que o argumento. À partida, tinha uma narrativa esquemática, muito "certinha." E tinha este objectivo: trabalhar a liberdade como se esta fosse uma coisa muito frágil e efémera.
Mauro, a personagem do meu filme, é um rapaz que está em prisão domiciliária. Tem uma pulseira electrónica no tornozelo. Queria explorar esta situação de liberdade aparente porque, apesar de Mauro estar em casa, ele sabe que vive entre quatro paredes.
Carlotto Cotta, o actor principal que interpreta Mauro, é já uma figura conhecida do cinema português. Entrou em filmes de Miguel Gomes, de João Pedro Rodrigues, de Jorge Cramez... Foi uma primeira opção para si?
Não. Eu fiz um casting. Foi o meu assistente de realização que se lembrou dele. Acontece que, no casting, o Carloto foi o único actor que não parecia sê-lo. Era a pessoa que eu andava à procura. O resto dos miúdos do filme são todos actores amadores que descobri em bairros vizinhos da Flamenga e na margem sul. Mas nenhum deles faz de si próprio. E, no entanto, todos percebem os códigos daquela violência. Para eles, é uma realidade de todos os dias. Quis que essa violência fosse filmada com uma certa indiferença, sem nunca a reiterar estilisticamente, porque ela não pode ser imposta pela câmara. Isto foi uma questão de princípio.
Houve um jornalista de televisão que lhe perguntou o que é que este filme podia contribuir para mudar a vida desses bairros. Ora, isto parece-me uma pergunta sem qualquer fundamento...
Concordo, o objectivo do cinema não é esse. É como diz o Manoel de Oliveira: o futuro pertence aos políticos e aos cientistas, não aos cineastas. Eu não me sinto o representante de ninguém, nem das pessoas, nem do bairro. O contrato que há entre mim e o filme é uma licença para emitir uma opinião sobre a realidade e essa opinião pode ser contraditória. E é só até aí que eu vou: conheço os meus limites.
Pode contar-nos o que se passou no dia da cerimónia?
Foi um confusão, o dia passou a correr. Para já, não tinha papillon e tive que andar à procura de um. Só quando me sentei na sala é que me apercebi que, se ali estava, devia ser por alguma coisa, Cannes mantém o palmarés em segredo até ao último segundo. E a cerimónia é muito rápida, não tem aquela pompa e circunstância toda dos Óscares: quando dei por mim, já estava com o prémio nas mãos. Fui o primeiro a subir ao palco e o primeiro a sair dele para os bastidores. Não me deixaram voltar à sala e tive que ver o resto da cerimónia pela TV.
Nos bastidores, estavam lá os actores do Tarantino, o Willem Dafoe e uma série de pessoas que 'a gente só vê nos filmes.' Deram-me logo os parabéns porque fui o primeiro a entrar com o canudo. Depois, o festival 'raptou-me.' A sessão de fotos foi infernal: havia centenas de flashes sobre mim. Dali, fomos todos para a festa de encerramento.
Gosta de cinema português?
Gosto. Francamente, acho que se fazem bons filmes em Portugal e a prova disso é o modo como o cinema português é respeitado e seleccionado pelos grandes festivais lá fora. É óbvio que há diferenças de geração para geração. Por exemplo, na Escola de Cinema, que ainda estou a terminar (falta-me uma cadeira), pertenço a uma geração já posterior à dos alunos que tiveram como professores nomes emblemáticos do cinema português, como Paulo Rocha ou Alberto Seixas Santos. E é natural que os filmes desta geração espelhem diferenças com a geração do meu pai, por exemplo [João Salaviza é filho do cineasta Edgar Feldman].
As duas curtas metragens que fiz, "Duas Pessoas" e "Arena", não têm nada em comum com o cinema de Manoel de Oliveira... Agora, eu sei que há uma grande família chamada "cinema português." Uma família que sempre lutou pela liberdade e que eu admiro.
E leituras?
Gosto de Conrad, Flaubert, Hemingway, Pessoa, Carver... Vario muito. Em relação ao cinema, sigo com atenção as opiniões de um crítico norte-americano do "Chicago Reader", o Jonathan Rosenbaum. Leio-o na Net.
Você pertence a uma geração que cresceu na Net...
Sim, quando ela se tornou popular eu tinha uns 13, 14 anos. Mas acho que a Net trouxe um paradoxo. De repente, temos ali uma biblioteca universal ao nosso dispor, os filmes que queremos, a música que queremos, mas tenho a sensação de que aquilo que se vê e se ouve está cada vez mais uniformizado. É uma 'democracia estranha'. Ainda bem que ela existe, mas parece-me que não estamos a ser capazes de usufruir dela como devíamos.
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| "Inglourious Basterds", de Tarentino: um dos filmes que Salaviza viu em Cannes |
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Em Cannes, só viu o "Inglourious Basterds", do Tarantino?
Não, vi também o do Bellocchio ["Vincere"] e um filme brasileiro, "No Meu Lugar", de Eduardo Valente. O que é genial no Tarantino é que ele é um produto do nosso tempo e levanta questões que nunca foram levantadas. "Inglourious Basterds" é provavelmente o primeiro filme da história do cinema que se passa na II Guerra Mundial e que não fala da II Guerra Mundial. Porque aquela guerra é tudo uma invenção dele. Admite outra versão da história em que o nazismo vai ser morto numa sala de cinema. É um filme sobre o cinema.
Disse-me há 15 dias que esteve a fazer o último ano da Escola de Cinema na Universidad del Cine, em Buenos Aires, ao abrigo de um protocolo entre os dois organismos. O que aprendeu lá?
A Argentina abriu-me os olhos. Eu tinha ficado fascinado com uma retrospectiva do IndieLisboa sobre cinema argentino, que é hoje um dos mais activos e criativos do mundo. Fiquei logo com vontade de partir, de testemunhar aquilo in loco e hoje posso dizer que foi uma das decisões mais felizes da minha vida. Em Buenos Aires, tive cadeiras de literatura latino-americana, de arte contemporânea e de história do cinema sob várias perspectivas.
Há ali um entusiasmo imenso em fazer. Às vezes, em fazer sem quaisquer meios: o mais importante é experimentar. Os filmes, por exemplo, os de Pablo Trapero ou os de Lisandro Alonso, são defendidos e atacados apaixonadamente por uma imprensa especializada em cinema. Em Portugal, essa imprensa não existe. O José Manuel Antín, fundador e professor da Universidad del Cine, dizia que a escola se recusa a "formar tecnocratas". Recebi há pouco uma mensagem sua a felicitar-me pela Palma de Ouro.
Deve ter recebido muitas felicitações nos últimos dias...
Sim, mas o mais importante é que os filmes continuarão a ser sempre mais importantes do que os prémios. E já houve filmes que triunfaram em Cannes e que eu não gosto. Talvez esta Palma de Ouro me ajude a montar o meu próximo filme e a arranjar dinheiro para continuar, porque o cinema é uma arte muito cara. Vamos ver. Agora, não tenho ilusões: não estou em Hollywood e sei que não me vai aparecer nenhum produtor milionário a convidar-me para uma longa-metragem.
Gostava de fazer já uma longa-metragem?
Acho que não. Para já, quero tentar fazer outra curta, para perceber bem o que me interessa. Provavelmente, vou voltar a um bairro social. A um bairro que não seja o meu: aqui, no Príncipe Real, 'não se passa nada.'