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Isaiah Berlin em 2009

8:00 Segunda feira, 29 de dezembro de 2008

Na última crónica de cada ano, é costume fazer previsões para o ano seguinte. Sendo esta também a minha última crónica no Expresso, onde comecei a colaborar em 1981, dedico-a a uma das poucas previsões seguras para 2009: o centenário do nascimento de Isaiah Berlin, que o mundo civilizado se prepara para comemorar.

Berlin nasceu em Riga, na Letónia, em 1909. Mas os pais mudaram-se para Petrogrado e ele tinha oito anos quando assistiu ao golpe de Estado bolchevique, em 1917. O fanatismo revolucionário horrorizou-o para sempre.

Em Oxford - onde na prática se exilou desde 1927 até morrer, em 1997 - procurou absorver os ingredientes da liberdade ordeira inglesa. Concluiu que residiam no pluralismo e no entendimento negativo da liberdade, como ausência de coerção por terceiros. Foi um admirador de Winston Churchill.

No continente europeu, sob influência de versões dogmáticas do Iluminismo, a liberdade fora interpretada de outra maneira. Não apenas pelo marxismo, mas por várias correntes 'progressistas', foi entendida como conformidade com um determinado comportamento, alegadamente ditado pela 'Razão'. Esta fé ilimitada na razão humana assenta na crença de que a razão é capaz de explicar tudo a partir de premissas racionalmente demonstráveis. E consequentemente aconselha a destruir tudo o que não possa ser racionalmente demonstrado.

No continente europeu, sucessivas modas filosóficas intoxicaram os intelectuais e a opinião publicada, dizendo-lhes que esta arrogância intelectual era prova de abertura e progressismo. E instalou-se a superstição segundo a qual quem duvidasse disso seria partidário do irracionalismo, da tradição dogmática, ou, pior um pouco, da religião. Daqui emergiu a trágica dicotomia continental entre mudança e tradição, abertura e fechamento, tolerância e intolerância.

Mas essa dicotomia assenta num equívoco monumental: alguns dos piores promotores da intolerância estão entre aqueles que se apresentam como campeões da Razão. Porque a versão de racionalismo que preconizam - e a que Berlin e Popper chamaram racionalismo dogmático - é simplesmente impossível. A razão não consegue dar premissas isentas de premissas. Ela apenas opera criticamente - fazendo perguntas, conjecturando muito falíveis respostas - aos ombros das gerações anteriores, do que elas descobriram, acreditaram ou simplesmente apreciaram.

Limpar a tela e começar de novo - o colossal sonho de Platão, Voltaire, Rousseau, Marx e Nietzsche - é um sonho insensato e adolescente. Gera um pesadelo com custos políticos elevados: a eterna oscilação entre revolução e contra-revolução, entre o abuso e a servidão.

João Carlos Espada

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Renovação da Esquerda?

8:00 Segunda feira, 22 de dezembro de 2008

Muito se falou esta semana sobre a renovação da esquerda. É sempre agradável ver muitas pessoas reunidas para tratar da renovação de ideias - de esquerda, de centro, ou de direita. E a oportunidade é boa, precisamente para discutir ideais.

No caso da esquerda, qualquer renovação será difícil sem uma discussão séria sobre o último grande esforço de renovação à esquerda: os 'New Democrats' americanos e o 'New Labour' inglês. Os vincados sucessos governativos de Bill Clinton e Tony Blair foram precedidos de um longo período de maturação de ideias - precisamente com vista à 'renovação da esquerda'.

E houve uma renovação importante. Eles mantiveram o compromisso da esquerda de usar poderes e dinheiros públicos para proteger os mais vulneráveis e reduzir as desigualdades. Mas admitiram explicitamente que isso não devia ser feito contra o processo de 'destruição criativa' do mercado - para usar uma expressão de Schumpeter.

Por outras palavras, eles introduziram uma distinção crucial entre, por um lado, proteger os indivíduos atingidos por contrariedades do mercado, e, por outro, proteger os empregos desses indivíduos.

Eles admitiram que a chave do progresso económico é a renovação concorrencial do tecido produtivo. Por isso, deixaram de proteger empregos e sectores ameaçados. E optaram por concentrar esforços públicos numa rede de segurança e em formação profissional para os que perdem os empregos. (Haveria ainda muito a fazer nesta direcção: por exemplo, aplicar os mesmos princípios aos gigantescos quase-monopólios estatais na educação e na saúde).

Aqui está a chave do sucesso dos New Democrats e do New Labour. Ao adoptarem estes princípios, foram capazes de tranquilizar e até de alargar o seu apelo às classes médias. Há tempos, a sra. Thatcher disse-me num evento churchilliano em Londres: "Isto está muito difícil porque o New Labour roubou as nossas ideias".

Em contrapartida, este 'roubo' foi acusado de 'traição' por outras esquerdas. Mas é caso para perguntar: traição a quê? É que nunca existiu uma só esquerda: existiram sempre várias. E uma das que mais pedem renovação é a que ficou órfã com a queda do muro de Berlim e a redução do espaço para o frentismo anticapitalista e antiamericano. (É certo que, temporariamente, eles procuraram reabrir o frentismo com a campanha anti-Bush. Mas Bush vai-se embora e Obama está a esvaziar esse frentismo).

Receio bem que o esclarecimento destas diferenças requeira mais rigor do que estimáveis apelos poéticos à 'renovação da esquerda'.

João Carlos Espada

Livros para o Natal

8:00 Segunda feira, 15 de dezembro de 2008

No domínio da História, a minha primeira preferência vai para 'Churchill and the Jews' (Pocket Books) de Martin Gilbert. Numa época de renovado anti-semitismo, vale a pena recordar essa doença infecciosa, bem como a simpatia com que Churchill sempre encarou os "nossos irmãos mais velhos" - como lhes chamou João Paulo II. Também vale a pena recordar as invasões francesas e a aliança luso-britânica em 'Wellington contra Massena' (Gradiva), de David Buttery. 'Obama: Do desejo ao poder' (Aletheia), de David Mendell, é um livro particularmente actual.

Na Teoria Política, a lista é bastante longa. John Kekes volta a apresentar o seu conservadorismo céptico e liberal em 'Enjoyment' (Oxford) e 'The Art of Politics' (Encounter Books). Embora falte uma referência ao conservadorismo, João Cardoso Rosas dá-nos um excelente 'Manual de Filosofia Política' contemporânea (Almedina). Miguel Morgado publica a sua tese de doutoramento com as Edições 70 ('Aristocracia e os seus críticos'). E a Tenacitas publica o clássico de Robert P. George (que esteve recentemente em Lisboa), 'Choque de Ortodoxias: Direito, religião e moral em crise'. Nem por encomenda, a Aletheia volta a publicar 'Ortodoxia' de Chesterton.

'Como evitar golpes militares' (ICS), de Luís Salgado Matos, com prefácio de Jorge Sampaio, conduz-nos ao estudo da instituição militar e das suas relações com o poder civil democrático. João Freire reúne mais de duas décadas de investigação sociológica em 'Economia e Sociedade' (Celta). Marc Plattner , director do distinto 'Journal of Democracy', lança um olhar céptico sobre o supranacionalismo em 'Democracy Without Borders?' (Lexington). Bastante a propósito, Mónica Brito Vieira e David Runciman escrevem sobre o conceito de representação política em 'Representation' (Polity).

Duas colecções de ensaios merecem a nossa atenção. João Lobo Antunes regressa com 'O Eco Silencioso' (Gradiva). Em 'Nós, Os Portugueses' (Principia), Maria Filomena Mónica revolta-se muito saudavelmente perante a omnipresença do Estado entre nós.

A religião é, ou devia ser, uma esfera em que o Estado fica à porta. Isso mesmo nos recordou Joseph Ratzinger em 'Fé e Futuro' (Principia). Keith Ward, professor de Oxford e Fellow da British Academy, apresenta um argumento racionalista (popperiano) sobre 'Why There Almost Certainly Is a God' (Lion). Sobre o mesmo tema escreve João César das Neves em 'Deixem-me Falar-vos do Impossível' (Lucerna).

Porque os últimos são os primeiros, a nota máxima vai para 'A Espuma do Tempo: Memórias do Tempo de Vésperas', de Adriano Moreira (Almedina), e para Andrew Roberts com 'Masters and Commanders: How Roosevelt, Churchill, Marshall and Alanbrooke Won the War in the West' (Allen Lane).

João Carlos Espada  

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Obama e o contraste entre culturas políticas

8:00 Segunda feira, 8 de dezembro de 2008

A sucessiva nomeação de moderados, inclusive republicanos, para a equipa do Presidente-eleito, Barack Obama, confirma o que aqui tenho escrito sobre o tema - na verdade ultrapassa as minhas melhores expectativas. E assinala o início do desapontamento de certa esquerda europeia com Obama.

Estas nomeações não decorrem de meras considerações de circunstância. De certa forma, exprimem as profundas diferenças entre a cultura política anglo-americana e a continental. Reafirmo que estas diferenças são mais importantes do que as diferenças entre esquerda e direita, ou entre socialismo, liberalismo e conservadorismo.

Três conceitos políticos-chave, e as respectivas diferenças de percepção nas duas culturas políticas, ilustram bem o que está em causa.

Em primeiro lugar, o conceito de revolução. Na cultura política de língua inglesa, o conceito de 'revolução' não goza de grande prestígio. Prefere-se o conceito de mudanças graduais e descentralizadas, muitas vezes em direcções totalmente opostas, e não centralmente comandadas.

Edmund Burke terá dado o maior contributo para desacreditar a mitologia das revoluções. Tendo sido o líder parlamentar liberal do seu tempo, ele atacou severamente a Revolução Francesa de 1789. No continente, Burke é descrito como um reaccionário. Na tradição anglo-americana, é venerado pela direita e pela esquerda. Woodrow Wilson e John Maynard Keynes, nenhum deles de direita, falavam de Burke como o seu mestre.

A preferência pelas mudanças descentralizadas liga-se, em segundo lugar, ao conceito de ordem social descentralizada. No continente, a ideia de ordem social está em regra associada a uma organização minuciosamente comandada por uma entidade central. Na tradição anglo-americana, a ordem social é percebida como emergindo da interacção pluralista de pessoas, famílias e instituições - que tomam decisões e assumem responsabilidades por elas, sob a comum protecção da lei.

A recusa da revolução e a preferência por uma ordem livre sob a lei geram, na tradição anglo-americana, um terceiro fenómeno, altamente intrigante aos olhos continentais: o apego quase religioso a regras gerais de conduta, e a hostilidade a comandos particulares. Esta obediência espontânea a regras gerais de conduta, associada a uma rebeldia contra directrizes específicas e a uma surpreendente variedade de opiniões, hábitos e costumes, sempre captou a atenção dos melhores observadores continentais.

Acredito que reside em boa parte neste terceiro fenómeno a chave da estabilidade política - e da prosperidade - dos países de língua inglesa. A ela voltaremos na próxima semana.

João Carlos Espada

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Adriano Moreira: um senhor

8:00 Segunda feira, 1 de dezembro de 2008

Os leitores do Expresso terão lido a entrevista a Adriano Moreira, no sábado passado. Eu tive também o prazer de assistir ao lançamento do seu livro de memórias, 'A Espuma do Tempo: Memórias do tempo de vésperas' (Almedina), na sexta-feira anterior, na Sociedade de Geografia. E de ouvir as duas magníficas intervenções: a de Manuel Braga da Cruz, apresentando o livro, e a do próprio autor. Depois, fui para casa deliciar-me com a leitura do livro.

Não é possível resumi-lo aqui. Mas talvez possa dizer que há uma impressão forte que começa na primeira página: a da elevação do autor. O retrato de Trás-os-Montes e da família em que nasceu vai ser matricial de tudo o que nos é dito - e como é dito - a seguir. O sentido de dever, bem como o de honra, de independência e de dignidade não mais vão abandonar Adriano Moreira.

Há também um patriotismo genuíno, um "attachment" (para citar Oakeshott), aquilo que Adriano Moreira chama "a maneira de ser português". Não se trata de um patriotismo abstracto, dedicado a uma 'ideologização' de Portugal. Ele inicia-se com um sentimento de pertença aos "pequenos pelotões", como diria Burke: desde logo com a sua família, a sua aldeia, os seus conterrâneos.

É um patriotismo enraizado num sentimento de empatia, ou simpatia, para com os seus compatriotas e para com os seus modos de vida realmente existentes. É esta empatia que vai marcar o seu julgamento sempre afável sobre as falhas dos outros, e sempre mais rigoroso com as suas próprias.

As páginas sobre o período em que foi ministro do Ultramar são sem dúvidas das mais empolgantes. Apenas aí o professor concede um pouco do seu distanciamento. E relata com empenho o entusiasmo das reformas que impulsionou e do entusiasmo das populações - brancos, pretos e mestiços, como faz questão de dizer - em redor dele e das suas reformas.

O livro deixa-nos um retrato de Portugal, de uma época e das suas mutações. Não há amargura, nem ressentimento, nem espírito de vingança. Há frontalidade, sem dúvida, e elevação. E coragem de exprimir pontos de vista que estão longe de corresponder às modas politicamente correctas; em boa verdade, que estão longe de corresponder a qualquer estreita obediência ideológica.

Esta frontalidade e esta elevação, este sentido de independência pessoal, custaram-lhe sempre alguns dissabores. Mas deixaram-no bem com a sua consciência. E entre aqueles que amam a liberdade e que sabem que ela não sobrevive sem independência, fizeram crescer a admiração por um grande senhor.

João Carlos Espada

Tradição anglo-americana

8:00 Segunda feira, 24 de novembro de 2008

Apoiantes europeus de Obama mostram-se indignados quando lhes é dito que o Presidente eleito não poderá corresponder às expectativas que muitos europeus nele projectam. Julgam que se trata de pura guerrilha politiqueira. E respondem dizendo que esse é um argumento dos que não apoiaram Obama. É bem provável, no entanto, que estejam enganados.

As razões para a dissonância de expectativas são muito mais fundas do que esta ou aquela eleição presidencial. Elas decorrem de diferenças profundas entre a cultura política anglo-americana e a cultura política da Europa continental. Estas diferenças são mais importantes do que as diferenças entre esquerda e direita, ou entre socialismo, liberalismo e conservadorismo. É mesmo possível dizer que a esquerda está mais perto da direita no interior de cada uma dessas culturas políticas do que a esquerda está da esquerda e a direita está da direita em diferentes culturas políticas.

Por outras palavras, as diferenças entre a tradição política anglo-americana e a tradição continental, sobretudo de inspiração francesa, devem-se menos a características peculiares da esquerda ou da direita em cada uma dessas tradições e muito mais a características comuns da esquerda e da direita em cada tradição.

Não é simples caracterizar essas diferenças entre culturas ou tradições políticas. No entanto, elas são conhecidas e discutidas há vários séculos, sobretudo entre os que admiravam o regime constitucional inglês, por contraste com o absolutismo continental, sobretudo francês e castelhano. Depois da revolução francesa de 1789, essas interrogações permaneceram, com ligeiras alterações: porque é que a Inglaterra mantinha um regime constitucional ordeiro, enquanto na Europa passáramos a ter a paixão pelo absolutismo popular e republicano, no lugar antes ocupado pelo absolutismo real?

Anthony Quinton, antigo reitor do Trinity College, em Oxford, exprimiu estas diferenças numa fórmula memorável. Disse ele que as ideias liberais de John Locke tinham produzido em Inglaterra, em 1688, uma revolução conservadora contra a inovação absolutista, e, na América em 1776, uma revolução relutante e moderada. Mas, quando essas ideias atravessaram o Canal da Mancha (a que eles chamam Canal Inglês), elas produziram na França de 1789 o 'efeito do álcool em estômago vazio'.

Referindo-se ao mesmo tema, o historiador francês Élie Halévy, falou do "milagre da Inglaterra moderna". E disse que esse milagre não residia em a Inglaterra ter sido poupada à revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções - industrial, económica, social, política cultural - sem recorrer à Revolução. Nas próximas semanas, voltarei a estas diferenças de fundo entre a cultura política de língua inglesa e a continental.

João Carlos Espada

Redescoberta de Marx?

8:00 Segunda feira, 17 de novembro de 2008

Discute-se hoje a chamada 'redescoberta de Marx'. A expressão parece-me equívoca, a mais do que um título.

Se nos situarmos no domínio da história das ideias políticas, Marx não precisa de ser redescoberto: já lá estava, nunca chegou a sair. Por outras palavras, Marx é um pensador por mérito próprio que nunca deixou de constar de qualquer séria história das ideias. Qual seria então o sentido de 'redescobri-lo' agora?

A menos que se queira dizer a redescoberta 'política' de Marx, por contraste com 'académica' ou 'historiográfica'. Mas, nesse caso, a 'redescoberta' faz ainda menos sentido - ainda que por razões opostas. Politicamente, Marx exprime um arcaísmo reaccionário de resistência à sociedade aberta do mundo livre.

Através de opacas abstracções historicistas, insusceptíveis de teste, Marx convenceu muita gente de que o capitalismo era o modo de produção da burguesia, enquanto que o socialismo seria o modo de produção seguinte, o do proletariado. No primeiro, as decisões eram tomadas descentralizadamente, no segundo passariam a ser tomadas 'socialmente' - o que quer que isso queira realmente dizer, além do controlo central sobre as decisões das pessoas, das famílias e das instituições.

Ora, o 'capitalismo', nesse aspecto, não tem nada de novo - é aliás um termo equívoco, substituível com vantagem por economia de mercado, ou por economia livre. As decisões são tomadas descentralizadamente no Ocidente desde que este se reconhece como tal. A Magna Carta de 1215 recorda essas liberdades ancestrais. Limita o poder dos Governos a uma esfera superficial, não autorizada a redesenhar os modos de vida existentes. Consagra a liberdade religiosa, e protege-a da esfera governamental. Sublinha a liberdade de viajar ao estrangeiro. E o direito a um julgamento leal pelos pares de quem é acusado.

O 'capitalismo' limitou-se a tornar estas liberdades mais palpáveis para um número vastíssimo de pessoas - por via do espectacular aumento da produtividade e da espectacular redução dos custos de bens e serviços. Mas não foi o 'capitalismo' que inventou a liberdade ou a descentralização das decisões civis. Estas é que terão permitido a emergência do capitalismo, precisamente onde elas já existiam: no Ocidente.

A crítica de Marx à descentralização do 'capitalismo' é apenas uma variante da reacção à sociedade aberta do Ocidente, da nostalgia de uma sociedade fechada. É uma variante da aspiração autoritária à dominação por parte de um poder político ilimitado. Qual é a novidade dessa 'redescoberta'? E que falta nos pode fazer?

João Carlos Espada

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O sonho americano

8:00 Segunda feira, 10 de novembro de 2008

Em 1960, Friedrich A. Hayek dedicou o seu livro 'A Constituição da Liberdade' à "civilização desconhecida que está a crescer na América". A obra constitui uma defesa poderosa de um sistema político, económico e social fundado em regras gerais de boa conduta. Este sistema - expresso numa economia de me<CO></CO>rcado e empresa livre, bem como no governo representativo limitado pela lei - era por ele contrastado com todas as formas de ordem social autoritárias.

Todas as ordens autoritárias assentam, segundo Hayek, na substituição de regras gerais de boa conduta por comandos específicos visando promover resultados particulares. A América era, para Hayek, o melhor exemplo de uma ordem social aberta, para usar a expressão do seu amigo Karl Popper. Nesta ordem aberta, resultados particulares não podem ser previstos, nem centralmente desenhados: eles simplesmente emergem da interacção livre entre cidadãos livres. Por isso, a civilização à qual Hayek dedicou o seu livro - a que estava a crescer na América - tinha um futuro necessariamente desconhecido.

Que este argumento possa ter sido acusado de reaccionário, por vezes mesmo de fascista, é uma ilustração da mais febril e crua ignorância. Mas Hayek tinha razão: embora, no Ocidente, todos tenhamos a felicidade de viver em sociedades abertas, a sociedade americana é, de todas elas, a mais aberta. Só na América poderia um "outsider" como Barack Obama ser eleito Presidente à primeira tentativa.

Os críticos da sociedade aberta americana acusam-na de ser controlada pelo dinheiro. Mas foi a livre doação de dinheiros privados que permitiu a Obama ultrapassar largamente os orçamentos dos seus rivais, apoiados por poderosas máquinas partidárias.

Os críticos da sociedade aberta americana acusam os partidos políticos de serem federações de interesses, sem coesão ideológica ou organizativa. Mas foi essa fluidez dos partidos, abertos à escolha de candidatos pelos eleitores, que permitiu a emergência de um "outsider" com impressionante apelo popular.

Os críticos da sociedade aberta americana acusam-na de possuir um governo pequeno, incapaz de pôr na ordem poderosos grupos de interesses. Mas é esse pluralismo civil que permite a "outsiders" - como foi o caso de Obama, mas também de John McCain - desafiar e derrotar candidatos estabelecidos.

Em suma, Hayek e Popper tinham razão. Tanto quanto podemos supor, dificilmente teriam apoiado Barack Obama. Mas reconheceriam na sua eleição o resultado de uma ordem livre e aberta. A ironia desta história reside no facto de tantos defensores de Obama, sobretudo na Europa, detestarem as regras gerais de abertura que permitiram elegê-lo.

João Carlos Espada

O sofisma da raça

8:00 Segunda feira, 3 de novembro de 2008

A tese mais recente de alguma esquerda europeia sobre as eleições americanas da próxima terça-feira é que elas vão revelar se a América está ou não preparada para eleger um Presidente negro. Trata-se de um sofisma curioso, a mais do que um título.

Que a América está preparada para eleger um Presidente negro (ou não-branco) está neste momento mais do que provado. Caso contrário, o partido democrático - que é um partido pragmático de governo - não teria seleccionado o senador Obama.

Isto é particularmente óbvio se for recordado que o processo de selecção americano é extremamente aberto, duro e prolongado - como todos, aliás, temos podido observar. Acresce que o senador Obama foi seleccionado contra outra candidata muito credível e capaz, a senadora Clinton.

Se, após estes factos, a América não estivesse preparada para eleger Obama, teríamos de concluir que o Partido Democrático era um partido suicida: depois de oito anos na oposição, tinha premeditadamente escolhido o candidato com menos hipóteses de ganhar.

Em contrapartida, se o senador Obama não vencer na próxima terça-feira - o que é agora altamente improvável, mas não impossível -, os analistas terão de pesquisar e discutir os motivos. Atribuir "a priori" uma hipotética derrota à cor da pele do senador Obama seria um sofisma grosseiro - e uma efectiva manifestação de racismo ao contrário: quem criticasse, ou discordasse, ou não votasse em Obama seria racista.

Não é assim que nós funcionamos em democracia - embora eu não me surpreenda por certa esquerda europeia ainda não ter percebido. Nós realmente discordamos uns dos outros, e criticamo-nos uns aos outros. Como diria o outro, "nothing wrong about that": já estava na Magna Carta de 1215. E, como diria ainda um outro, "old habits die hard": ao fim de oitocentos anos, continuamos habituados a discordar uns dos outros.

Quem merece crédito por ter evitado aquelas falácias de alguma esquerda europeia é o senador Obama. A sua candidatura evitou sempre a questão racial e acentuou uma postura vincadamente centrista - apesar do seu passado posicionamento à esquerda enquanto senador.

Tudo indica que, se Obama for eleito, alguma esquerda europeia vai ter mais uma decepção. Seria apenas uma questão de tempo: de quanto tempo precisariam para começar a atacar Obama, tal como fizeram com Bill Clinton, depois de o terem considerado a esperança da esquerda?

João Carlos Espada

Centro vital

8:00 Segunda feira, 27 de outubro de 2008

A recente declaração pública de apoio ao senador Obama por parte do general Colin Powell, antigo secretário de Estado do Presidente Bush, sugere importantes questões políticas sobre o que está actualmente em jogo na América. Não se trata apenas da batalha eleitoral. Trata-se de saber se os contornos do mapa político americano estão ou não em mutação.

A grande coligação republicana posta em marcha por Ronald Reagan em 1980 - e que, intelectualmente, vem dominando o país desde essa época - assenta em três sectores distintos. Em primeiro lugar, vêm os liberais clássicos (também designados por conservadores fiscais), cuja principal motivação reside em travar o activismo do Estado. Em segundo lugar, vêm os conservadores sociais, sobretudo de inspiração religiosa, cuja principal preocupação consiste em travar a erosão das virtudes morais. Em terceiro lugar, vêm os chamados republicanos moderados, geralmente da velha aristocracia WASP ("white anglo-saxon protestant"), os quais sempre conviveram com alguma dificuldade com os outros dois sectores.

Estes republicanos moderados não tiveram grande contribuição, no plano intelectual, para a coligação gerada por Reagan. Mas a sua presença exprime um importante ingrediente político daquela coligação: a sua natureza defensiva, ou antiactivista, ou não revolucionária. De certa forma, é esta natureza defensiva que permite manter coligados três sectores tão distintos. Eles estão unidos numa reacção contra a engenharia social ideologicamente desenhada por burocracias activistas, ou militantes - associadas, mal ou bem, aos democratas (Bill Clinton foi o líder democrata que melhor compreendeu este fenómeno, tentando invertê-lo).

É esta natureza defensiva que tem permitido, em meu entender, a dinâmica ganhadora da coligação republicana. Os republicanos moderados têm vindo um pouco a reboque dos outros, mas dão-lhe uma âncora ao centro. Se esta âncora se soltar, a coligação republicana perderá a dimensão defensiva e surgirá aos olhos do eleitorado como uma plataforma ideológica activista.

Se for esse o significado da mudança de campo de Colin Powell - o que não podemos por enquanto saber - o mapa político americano mudará profundamente. Se isso acontecer, é uma injustiça para John McCain - que é um dos líderes republicanos menos ideológicos, desde George Bush pai. Será também uma ironia para o senador Obama - um dos candidatos democratas com uma base de apoio mais ideológica desde McGovern.

No imediato, a esperança de McCain reside na capacidade de mobilização eleitoral de conservadores e liberais clássicos. Mas, se isso acontecer à custa do 'centro vital', o mapa político da América pode estar à beira de uma profunda mutação estrutural.

João Carlos Espada

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