Ter mundo
Jerónimo de Sousa é o tipo de personagem que qualquer escritor gostaria de criar. Afável, sorridente e sem grandes conflitos psicológicos. Um personagem liso, previsível e íntegro, cuja tranquilidade é alimentada pelo ininterrupto caldear ideológico. A oficina do escritor limitar-se-ia, portanto, a conceber e a imaginar uma personalidade cúmplice e leal a muitos outros que, tal como ele, estariam sempre prontos a partilhar as mesmas frases, os mesmos gestos e até um idêntico tom de voz. Este fascinante mimetismo (de funcionários e militantes indefectíveis) podia ser trabalhado de modo paródico - fazendo-o contrastar com a normalidade do dia-a-dia - ou intensamente realista, dando ao leitor toda a latitude interpretativa que a atmosfera criada acabasse por suscitar. Eu preferiria esta última abordagem e iniciaria o relato dentro da fábrica onde Jerónimo foi metalúrgico... numa homenagem que lhe seria dedicada. A partir daqui, com diversos vaivéns no tempo ficcional, o mundo de Jerónimo surgiria, não através de uma sequência linear, mas do emergir de diversas e - se possível imprevistas - facetas (que ligariam o sorriso folgazão à impetuosidade da palavra). O mundo de Jerónimo é um mundo feito sempre da mesma matéria. Como se fosse praticante de uma inconsolável mediação de certezas. Como se toda a sua vida tivesse o sentido de uma travessia quase religiosa.
Ter futuro
O futuro que Jerónimo apresenta a quem o escuta é o futuro que o comunismo pode vaticinar hoje em dia. A ideia de um futuro paraíso terreno, que foi matéria de fé fortemente partilhada ao longo de décadas, não passa, nos nossos dias, de uma amálgama de cinzas e poeiras. É por isso que a palavra de Jerónimo é uma palavra doce, se comparada com o que foi, noutros tempos, o incisivo e mordaz profetismo de Cunhal. Jerónimo é um santo que ritualiza com abluções suaves todas as iras passadas. Nada já nele reflecte a tirania estalinista da antiga União Soviética. Mas também nada nele projecta seja que futuro for. Jerónimo une os comunistas como um mártir uniria os sobreviventes de um cataclismo. Só que Portugal viu o comunismo revelar-se no preciso momento em que uma ditadura caía por terra. E esse dado histórico e geracional sempre perfumou a substância dos credos leninistas. Jerónimo tudo tem feito para apenas simbolizar a continuidade desse perfume. Com sucesso, diga-se. É essa sobretudo a sua valia. E também, por consequência, a sua capacidade de criar empatia e simpatia.
Ter estrela
Jerónimo não é do tempo da comunicação. É, sim, do tempo em que a "Agitprop" se praticava com unicidade. De cima para baixo, a partir dos líderes iluminados e dirigindo-se ao povo. E, curiosamente, em nome dele. Esta capacidade de falar pelas massas (interpretando 'com perfeição' os seus interesses) faz dos comunistas seres que se transfiguram, quando vêem quinhentas mil pessoas na rua. As "massas", essas sim, são as agentes exclusivas do grande carisma. São elas a única estrela da política. Mesmo que numa manifestação caiba meio por cento da população total do país, para os comunistas, essa "festa colectiva" será sempre sinónimo de uma força sem comparação. Que nasceu "encarnando o querer do povo". "Que nasceu do povo". Esta teologia que acredita na essência e, ao mesmo tempo, na aparência é, toda ela, fonte de permanente convocação. Uma teologia que começa e acaba num grupo. Uma teologia que aprendeu, com os anos, a ser menos autista do que outras igrejas e do que outros cultos. De qualquer modo, para essa aprendizagem tem sido importante o modo como Jerónimo de Sousa expressa afectos, sorrisos e até algum humor. Jerónimo não é do tempo da comunicação, mas tem-se moldado a esse tempo. Não por entrega deliberada, mas sim por espontânea disposição. Um perfume que atrai com o fulgor da autenticidade.
Ter um desejo mobilizador
Um desejo partilhado por milhões é coisa que não existe na mensagem de Jerónimo. O desejo proposto pelo secretário-geral do PCP é um desejo limitado à frase "uma nova política" e já não às antigas preces - "um mundo novo e um homem novo". Trata-se, pois, de um desejo que - desdobrado de maneira pragmática a múltiplas situações - se destina a perpetuar a existência de uma barricada (muitas vezes imaginária) onde, de um lado, se encontrarão os justos e, do outro lado, os exploradores. Por outra palavras: de um lado, os comunistas (ou, recorrendo a outro léxico, a "esquerda" - numa extensão dos próprios comunistas) e, do outro lado, tudo o que é abominável (ou, recorrendo a outro léxico, a "direita" - numa extensão a tudo o que não sejam os comunistas e uma pequena orla envolvente). Esta imagem apocalíptica da imagem de Deus, de um lado, e da ameaça e dos castigos terríveis, do outro, alicerça a visão dicotómica e mobilizadora dos comunistas. Já teve melhores tempos, como é óbvio. A rede acabou por nos trazer, entre outras coisas, um mundo aberto que desfez a ordem vertical e indiscutível dos receituários e suratas.
Ter retaguarda
Jerónimo funde-se com a militância dada a natureza mesma do comunismo. Ter ou não retaguarda, para Jerónimo, é algo que não tem qualquer sentido. Nem é tema que motive a imprensa cor-de-rosa ou as entrevistas 'normais' dos media. Conhecem-se as fotografias dos netos e o itinerário das férias de Verão, mais por perfume do personagem do que por apetência em esconder ou não esconder seja o que for da vida privada. Um comunista submete a esfera pessoal aos princípios maiores da salvação militante. Por isso, a única retaguarda que um comunista pode salvaguardar é a que lhe garantirá a sobrevivência em meio e tempo hostis. Nada mais do que isso. Aliás, é ainda dessa salvaguarda que é feita a maior parte da história do PCP. Facto que era particularmente emblemático no discurso de Cunhal (e até de Carvalhas), mas que afecta já muito pouco o discurso de Jerónimo. O tempo faz esquecer. Jerónimo paz parte de uma aura que sabe muito bem separar o que deve ser esquecido do que deve ser lembrado. É essa a sua inteligência. É esse, também, o seu perfume pessoal.
Estar aberto à contingência
Em democracia, os comunistas trocaram o tacticismo da clandestinidade por um pragmatismo que se tem sempre tornado perceptível na população. Por outras palavras: o PCP conseguiu, ao contrário do que aconteceu em Espanha ou em Itália, por exemplo, ser uma quota-parte relativamente estável do cenário político português. A maleabilidade e o eclectismo de Jerónimo têm sempre em vista, no entanto, para além da tensão entre percentagens e oportunidades mediáticas, a capacidade de 'alterar a ordem' como forma de pressão. A influência nos sindicatos é importante para a afirmação do PCP na onda da contingência. Jerónimo tem sido, neste quadro, um esteio de estabilidade para a organizadíssima 'máquina de células' que dá corpo ao pragmatismo comunista. Jerónimo é, pois, um ser que sabe navegar na contingência. A sua escola é antiga, matreira e hábil. Neste particular, não se lhe conhece concorrência.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor