Jerome David Salinger, que morreu na quarta-feira, 27 de Janeiro, na sua casa de Cornish, New Hampshire, no nordeste dos Estados Unidos, onde preferira viver longe do resto do mundo há mais de meio século, onde se recompusera de fractura do colo do fémur feita em Maio passado e segundo o seu agente literário - que deu a notícia da morte "por causas naturais" - só no começo deste ano entrara em decadência física acelerada, foi um dos escritores mais célebres e influentes nos Estados Unidos dos meados do século XX tendo, por um lado, marcado a escrita de Philip Roth, John Updike, Saul Bellow e outros ficcionistas contemporâneos, e tendo, por outro lado, gerações seguidas de adolescentes conhecido, admirado, sido inspiradas ou animadas por Holden Caulfield, herói (ou anti-herói, como muitos preferem dizer) do seu primeiro livro, o romance "The Catcher in the Rye" ("Uma Agulha no Palheiro" ou "À Espera no Centeio", nas duas traduções à venda em Portugal).
Publicado em 1951, o livro teve imediatamente os dois sucessos que qualquer editor ambiciona, sucesso crítico e sucesso nas vendas - a sua primeira frase, citada em homenagens prestadas agora a Salinger, sugere Mark Twain e, para devotos extremos de "Uma Agulha no Palheiro", Holden Caulfield deveria ombrear num santuário mítico da alma americana com Huckleberry Finn - e teve pouco depois outro tipo de consagração, garante de que continuaria por muitos anos a atingir catadupas de adolescentes: entrou nos programas de leitura do ensino secundário das numerosas autoridades educacionais americanas, em todos os estados da União, e ainda de lá não saiu. Rapazes e raparigas de 16 anos (a idade de Holden Caulfield) continuam a ler obrigatoriamente o livro, mas a obrigação não tem morto o interesse ou impedido a fascinação. Holden é vulnerável, angustiado, desconfiado do mundo dos adultos que sente hipócrita, pomposo e insensível às suas incertezas e ansiedades, e contra o qual se revolta - mas é também um herói do seu tempo, um tempo diferente do tempo de hoje, em que entre a infância e a idade adulta não havia uma adolescência definida, balizada, com os seus valores, os seus direitos, a sua indumentária, o seu mercado. Era terra de ninguém, à mercê do absurdo. De certa maneira, Holden Caulfield tem mais a ver com Meursault (o anti-herói de "O Estrangeiro" de Camus) do que com Harry Potter. E, todavia, o fascínio permanece e isso talvez seja sinal de obra-prima. O livro continua a ser editado, até em livro de bolso - como continua a sê-lo, também em livro de bolso, um outro clássico de infelicidade juvenil, "Os sofrimentos do jovem Werther", embora Weimar tenha mudado muito mais desde o fim do século XVIII, quando Goethe escreveu, do que Nova Iorque mudou desde o fim dos anos quarenta quando Salinger lá vivia e escrevia.
A obra que deixou é pequena. A última peça que publicou, "Hapworth 16, 1924", uma espécie de conto em forma de carta escrita de um campo de férias por um miúdo de sete anos, Seymour, personagem, em mais crescido, de outros textos seus, saiu na revista "The New Yorker" em 1965. Em 1948 tinha também saído na "New Yorker" 'A Perfect Day for Bananafish', o seu primeiro conto publicado, em que num belo dia de Verão Seymour, homem novo, fala na praia com uma menina de seis anos, sobe depois ao quarto de hotel onde a mulher dorme e se mata com um tiro na cabeça. Nos anos pelo meio publicou outros contos na "New Yorker". O director da revista era uma das poucas pessoas cujo convívio admitia.
Tal como Glenn Gould ou Greta Garbo, Salinger ganhou fama por fugir ao público. Em New Hampshire falava aos vizinhos e ia a jantares da paróquia local mas no resto mundo era outra coisa. Não dava entrevistas, não autorizava fotografias nem biografias, detestava publicar, dizia que gostava de escrever mas para si e não para os leitores. Felizmente para as almas destes (e para os confortos que os direitos de autor lhe permitiram) nunca retirou o "Catcher" de circulação.
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010