Estamos a ser varridos por dois tufões mediáticos: a morte circense de Michael Jackson e a vida circense de Cristiano Ronaldo. Não por acaso, estes dois circos partilham a mesma raiz: a paranóia com a saúde e com o corpo. Jackson e Ronaldo são os dois extremos dessa mania. No extremo enfermo, encontramos Jackson. No extremo saudável, encontramos Ronaldo. Juntas, a fragilidade (sexualmente ambígua) de Jackson e a vitalidade (sexualmente ambígua) de Ronaldo compõem as duas faces da mesma moeda: essa maldita obsessão com a saúde, a deusa pagã da nossa era.
Ronaldo é o gladiador dos tempos modernos. Esta criatura, robotizada em ginásios e em clínicas, é o alfa da saúde e o ómega do corpo; é o monstro da forma física que exporta saúde enquanto trucida os adversários com um mero abrir de pernas. E, claro, numa sociedade sem um pingo de ética monoteísta, as massas só podem venerar um gladiador que mete medo até à mais virulenta das bactérias (mas, se não se importam, eu prefiro os velhos Paneira e Chalana, homens com pêlos e sem trabalho de ginásio; perante o mundo depilado de Ronaldo, tenho mesmo saudades do bigode bávaro do Chalana).
Jackson é o oposto de Ronaldo. E, de forma paradoxal, Jackson é mais parecido com as pessoas normais do que Ronaldo. As multidões veneram Ronaldo, porque ele é um semideus oriundo de um Olimpo medicado onde as doenças não têm lugar. Se Ronaldo mete medo aos vírus, Jackson vivia aterrorizado pela possibilidade de uma constipação. Na verdade, Jackson era uma caricatura de uma sociedade, a nossa, que tem medo do próprio ar que respira. O menino-que-nunca-foi-homem personificou a sociedade, a nossa, que anda sempre a molhar o algodão no álcool, tal como os antigos molhavam o pão na carne. Quando saía à rua, Jackson andava sempre de máscara. Fora da 'Terra do Nunca', tudo era encarado como uma ameaça bacteriológica: as outras pessoas não eram pessoas, mas potenciais transmissores de doenças. E esta paranóia chegou a atingir a intimidade, digamos, mais fluida: este Peter Pan negro conseguiu a proeza de ser pai sem nunca ter ido para a cama com as mães das suas crianças. Jackson higienizou o sexo.
Durante esta semana, o estranho mundo de Jackson ameaçou arrombar o nosso dia-a-dia: os paranóicos da Gripe A fecharam escolas, e ameaçaram lançar uma horda de máscaras sobre as nossas bocas. Este histerismo sanitário ainda vai produzir milhões de Michael Jacksons, isto é, milhões de pessoas que encaram a rua e os vizinhos como permanentes ameaças médicas, enquanto ficam em casa a divinizar os Ronaldos, os deuses da metrossexualidade bacteriologicamente pura.
Mateus 22, 21
Não tenho problemas com o Papa, e até gosto de católicos. Mas há uma coisa que irrita no Papa: é quando ele se põe a trazer Marx para o Evangelho. Aquilo que o Papa tem dito sobre a - suposta - falta de ética do capitalismo não ficaria mal na colectânea dos summer hits de Francisco Louçã. Não vou aqui desconstruir a falácia antiliberal que está sempre presente na Igreja Católica. Deixo somente uma pergunta: no "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", qual é a parte que o Papa não entende?
Henrique Raposo