Uma das poucas coisas com as quais todos os economistas concordam é que depois de uma crise vem sempre um período de crescimento. O problema é saber quando e a sua intensidade. No caso português essa incógnita é ainda maior. Portugal não atravessa só uma crise mas sim um conjunto de crises que nos colocam numa das piores situações económicas de que há memória.
Além da enorme crise internacional, a nossa pequena economia enfrenta uma crise interna potenciada pelo descalabro das finanças públicas. E como se não fosse suficiente, está instalada uma crise de confiança generalizada. Os portugueses não confiam nos políticos, no sistema de Saúde, no Fisco, na Justiça...
Por isso, quando olhamos para o fim da linha e procuramos uma ténue luz, não vemos nada.
A crise internacional não controlamos, mas é aquela que melhor sinais dá. Ainda esta semana os mercados acordaram para uma quarta-feira eufórica, depois de terem sido divulgados dados económicos relativos ao sector industrial dos Estados Unidos e da China, agora a segunda maior economia do mundo. Não foram indicadores fantásticos, mas o crescimento registado permitiu afastar os receios de que poderíamos estar perante uma recessão double dip, ou seja, uma nova quebra mais profunda na atividade económica depois de um curto período de crescimento.
Por cá tudo na mesma, o período estival só serviu para colocar grande parte das pessoas sem contacto com a triste realidade de tudo estar na mesma, se não pior. A economia portuguesa vai sobrevivendo sob a ameaça constante do agravamento da crise no crédito, dada a impossibilidade de o Governo cumprir a meta do défice. As portagens nas SCUT ainda não existem, as contas públicas não estão melhores, a crise na Justiça já é endémica, e os políticos entretêm-se a tentar fabricar outra crise, desta vez política, em torno do Orçamento do Estado.
É como se tivéssemos ido dormir uma soneca e durante essas semanas o tempo tivesse parado.
A crise internacional há-de passar, a crise económica interna há-de esbater-se e o resto irá provavelmente manter-se na mesma - tudo adormecido até à próxima crise. Enquanto a crise no Estado e na política não for combatida a sério, a crise económica será uma constante do nosso desempenho e não sairemos da mediocridade. Mas se assim é, porque não se resolve? Porque a mediocridade é o adubo de uma classe política que nela floresce e prospera. Que a protege para continuar a alimentar-se.
É por isso que, quando conseguimos, dificilmente, ver a luz ao fundo do túnel, ela tem assim uma cor... vermelha!
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010