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Israel, Turquia, América e Europa

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 18 de junho de 2010

Quanto a Israel, a questão israelo-palestiniana foi animada recentemente pela intercepção brutal de uma flotilha desarmada de ajuda a Gaza por tropas especiais israelitas. A faixa de Gaza, bloqueada por Israel depois de por este ser sido bombardeada e invadida, é governada hoje segundo princípios e práticas cada vez mais próximas de lei islâmica pura e dura pelo movimento Hamas, eleito por sufrágio universal, que se recusa a aceitar a existência do Estado de Israel ou a acabar com acções armadas contra ele (e está também em luta contra a Fatah, movimento laico moderado que reconhece Israel, renunciou a atacá-lo militarmente e governa na Margem Ocidental do Jordão o resto dos territórios palestinianos ocupados). Apesar do bloqueio imposto a Gaza (que hoje isola mais o Estado judeu do que isola Gaza), Israel é a única democracia da região e vive em perigo existencial permanente, cercado por vizinhos que o demonizam e querem aniquilá-lo.

A Turquia, desde a chegada dos islamistas moderados de Erdogan ao poder em Ancara, foi passando de único amigo de Israel na região a um dos seus críticos mais veementes sobretudo agora que cidadãos turcos foram assassinados por forças israelitas. Mas os militares turcos continuam a prezar a ligação entre os dois países e, para o papel pós-imperial que a Turquia moderna começa finalmente a desempenhar na região, um Israel não hostil dará sempre jeito ao Governo como contrapeso a persas e a árabes. As relações entre ambos não voltarão a ser o que eram mas ir-se-ão recompondo.

Os Estados Unidos, grande amigo de ambos, farão o que puderem (e, se quiserem, podem muito) para que tal aconteça. Na visão de Washington, o país que mais ajudam no mundo e o aliado na NATO com as maiores forças armadas depois das suas, têm de se entender. Além disso, a mão que Obama estendeu aos muçulmanos terá muito mais chances de encontrar mãos que a apertem se Ancara continuar em boas relações com Washington. Mas, para isso, Washington terá de fazer avançar o processo de paz israelo-palestiniano, o que implicará outra maneira de tratar de Gaza e, provavelmente, a formação de nova coligação em Telavive.

Quanto à Europa, aquilo a que chamamos anti-semitismo era a maneira corrente - e legal - de tratar os judeus, simbolicamente até à Revolução Francesa de 1789; na prática de alguns lugares até ao fim da II Guerra Mundial; noutros lugares ainda quase até hoje. (Um velho cirurgião judeu francês a quem alguém perguntava há pouco tempo como era ser judeu respondeu: "É ter medo"). Quem não perceber isto pouco perceberá da questão israelo-palestiniana. Entre um Norte ainda incomodado por culpas de Holocausto, um Leste onde os pogroms faziam parte da história da moral pública e um Sul pró-árabe, nostálgico de haréns e de preguiça, os europeus vão pagando mais do que quaisquer outros mas não se entendem sobre linha política a tomar. E vista de Israel a Europa continua a ser um vasto cemitério.

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010

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