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Ir lá

Mário Cláudio
9:00 Sexta feira, 4 de dezembro de 2009

A viagem, reduzida à pura dimensão do consumo da distância, e dos lugares, alinha com outras formas desse ter, agigantado sobre o ser, que sustenta o discurso dos moralistas hipócritas, quando não aparece simplesmente responsável pela globalidade do desconforto. E a competição que se estabelece entre os que estiveram aqui, ou acolá, e os que nunca lá foram, configura característico traço da actualidade urbana, agora que o ruralismo deixou de contar como área imageticamente registável, salvo na medida em que constitui isso mesmo, destino de veraneio, ou de fim-de-semana. Quando até ao advento do turismo de massas se mencionava um viajante, implicava-se na referência a vénia por aquele que sem dúvida deduziria assinalável aprendizado do seu nomadismo, e desde logo esse proveito que o conhecimento do Mundo apresentava quanto ao que na feliz locução inglesa se exprimia por "to broaden the mind", ou "alargar as ideias".

Que espírito se ampliará hoje, permitam os histéricos da modernidade que se pergunte, com a package holiday nas Bahamas, na Patagónia, ou no Árctico? Tão-só o do sujeito que quiser que o reputem de muito sabido, ou de muito arejado, ficção que uma classe cada vez menos média, voltando ao país após a surtida-relâmpago, põe a circular entre as secretárias da repartição pública, à roda da mesa da sala dos professores, ou por detrás do balcão da loja do centro comercial. Esquecem-se entretanto a infame diarreia, provocada pelo tandoori deglutido na jornada ao Taj Mahal, a descarga eléctrica da alforreca, atingindo as partes que não deveria no Mar das Caraíbas, ou a humilhação que se sofreu, quando apenas se desejava pernoitar no Raffles de Singapura, e o recepcionista, reparando nas malas em reles imitação de pele de porco, estatuiu sem delongas, "Deliveries by the back door!" Em vez disto exibem-se as fotos onde todos surgem sorridentes, e relata-se a noite no alpendre do bungalow, a observar num fascínio a desova dos corais.

Recordo os garridos excursionistas portugueses que avistei, há tempos, defronte do Baptistério em Florença. De costas viradas às esplêndidas portas de Ghiberti, abriam-se eles em magotes para as fotos que lhes tiravam, calculando já a quem haveriam de as mostrar. E a pobre guia falava, e falava, sobre aquelas maravilhas, apontando-as a ninguém que se dispusesse a prestar-lhe a mais ínfima das atenções.

Com as curtas férias da passagem de ano, e a tentação das neves que tão interessantes clichés proporcionam, tolera-se aos vagamundos que ostentem a dentadura diante da câmara, ou do telemóvel, e em cima dos skis. Mas pede-se-lhes que se abstenham de qualquer movimento menos cauto, não vá ficar-lhes o regresso a casa dolorosamente marcado pela fractura do perónio.

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