"A urgência de se estudar a ruralidade prende-se com o facto do património ir desaparecendo e perder-se assim uma riqueza cultural importantíssima", defende.
A classificação do património do mundo rural foi o assunto desenvolvido por Saikiran Datta por considerar que actualmente esta realidade em vias de desenvolvimento "ganha nova interpretação e relevância".
No seu estudo de inventário do Património Rural de Óbidos, o autor utiliza esta ferramenta como "alicerce" para o processo de preservação e valorização, e defende que esta classificação antecede o processo de musealização e de dinamização do património no próprio local. O trabalho realizado em 2007/08 abarcou três aldeias piloto (A-da-Gorda, A-dos-Negros e Sobral da Lagoa) onde efectuou um inventário assente nos sistemas de produção tradicionais, nos espaços de uso agrícola e sistemas de captação e de abastecimento da água, na análise do estado de conservação e de funcionalidade. O resultado do ensaio, que tem uma aplicação universal, mostra a "identidade rural de uma região estremenha através do estado dos seus bens patrimoniais", refere o autor.
Saikiran Datta destaca ainda que podem ser incluídas outras ferramentas que, no seu estudo, não incluiu porque não existiam no local, como é o caso dos espigueiros ou dos pombais.
"Através deste trabalho podemos fazer uma leitura integrada não só dos bens como do conjunto onde se inserem", refere o investigador, adiantando que o estudo também permite distinguir as aldeias. Por exemplo em A-dos-Negros distinguem-se as eiras.
Após o inventário, o passo seguinte é a classificação para, depois, puderem ser definidas medidas de intervenção e preservação desse património. Para garante desta preservação é também necessária legislação.
O desafio seguinte do investigador, que o ocupou durante os dois últimos anos, foi o estudo dos recursos de captação e abastecimento de água, relacionando-os com equipamentos de apoio doméstico e agrícola. "São dois mil anos da história da água no concelho de Óbidos", diz, referindo-se ao levantamento que fez de poços, fontes, minas de água, lavadouros públicos e azenhas.
O investigador salienta que esta é uma "terra de água", e a prová-lo estão os muitos vestígios que encontrou numa "viagem" que começou na cidade romana de Eburobrittium e passa pela vila de Óbidos, quintas, Convento de S. Miguel e por cada uma das aldeias do concelho.
Também encontrou algumas situações "preocupantes", resultado da intervenção humana, como construções em excesso, impermeabilizações do solo e captações de água em excesso. E os reflexos dessa má utilização da água reflecte-se, por exemplo, na seca, em determinadas épocas do ano, das nascentes do Olho Marinho ou de algumas fontes emblemáticas, que agora funcionam com água da rede.
O trabalho vai agora ser entregue à autarquia e o investigador na área do património, formado em museologia e património cultural, pretende continuar a trabalhar na área da ruralidade, que diz ter um manancial imenso de estudo.