04/02/2012 atualizado às 0:18
Página Inicial » Blogues » Do outro mundo » Investidores compram seguros de vida a idosos

Investidores compram seguros de vida a idosos

Quando pensávamos que já tínhamos visto tudo em matéria de produtos financeiros, surgem notícias sobre um ramo que aposta na morte atempada do cliente.

Luís M. Faria
21:55 Segunda feira, 29 de junho de 2009
A compra de seguros de vida tem uma longa tradição nos Estados Unidos
A compra de seguros de vida tem uma longa tradição nos Estados Unidos
António Pedro Ferreira

À partida, parece uma decisão lógica. Alguém fez um seguro de vida numa altura em que tinha um cônjuge (ou outro dependente) que razoavelmente podia sobreviver-lhe. Essa pessoa, por qualquer motivo, já não se acha presente. O detentor da apólice encontra-se numa fase da vida em que precisa de tratamentos médicos dispendiosos - ou simplesmente quer gozar a vida, viajar, comprar coisas, etc. Sem ninguém a quem deixar benefícios, resolve converter a apólice em dinheiro. Infelizmente, a seguradora que lha vendeu oferece-lhe pouco. Mas há investidores especializados que oferecem mais. Porque não?

A compra de seguros de vida tem uma longa tradição nos Estados Unidos. Em 1911, uma decisão do Supremo Tribunal afirmou expressamente que o detentor de uma apólice podia vendê-la, mantendo-se como titular nominal. O negócio foi-se desenvolvendo, e conheceu uma grande expansão nos anos 80, por causa da sida.

Pessoas que, de repente, viam a sua expectativa de vida baixar a pique, e que precisavam de aliviar o sofrimento com tratamentos caros, começaram a vender as suas apólices. Esse tipo de contrato, dito viático, só se aplica a doentes terminais. Diferente é o caso de alguém que apenas se encontra em idade relativamente avançada, sem especiais problemas de saúde. Aí entra em jogo uma estatística mais refinada.

Numa conferência internacional realizada em Londres há duas semanas, voltou-se a insistir na necessidade de as tabelas de mortalidade serem fiáveis, e sobretudo estáveis. Uma recente revisão de fundo levada a cabo pelos analistas de risco fez subir as estimativas, e causou graves prejuízos à indústria do 'life-settlement'.

Conforme um representante de indústria, Thomas Moran (do Heritage Group) explica na Internet, o grande problema das companhias são "as expectativas de vida incorrectas... As pessoas estão a viver demais... Como resultado, a reserva dos prémios diminui demasiado depressa e falta o dinheiro para pagar os prémios". Já em Março uma outra conferência, a Life Settlement Investment Summit, em Nova York, incluia workshops sobre esses problemas.

O cliente-tipo destes investimentos é uma pessoa com idade a partir de sessenta e cinco anos e um património considerável. Não é preciso ser fumador, mas ajuda - o tabaco é a 'variável de mortalidade' instantaneamente citada nas estatísticas.

Há muitas outras, incluindo o estado em que se vive, acontecimentos familiares recentes, e, como é óbvio, a história médica pessoal. Não se exige forçosamente um exame adicional. "O nosso pessoal trabalhará com os vossos médicos", explica uma empresa da especialidade. Uma vez feita a estimativa e concluído o negócio, o ex-segurado recebe dinheiro e o investidor que lhe comprou a apólice torna-se responsável pelos prémios.

Admitindo que não houve fraude - isto é, que o idoso não fingiu ser menos saudável do que era, desatando a fumar ou a engordar nas semanas anteriores, por exemplo - toda a gente lucra.

Um dos participantes na conferência em Londres admitiu que o lugar onde teve lugar a mesma - a cripta de uma igreja metodista - contribuía para reforçar a imagem algo tenebrosa do life-settlement.

Mas a indústria parece estar em boa forma, com 12 biliões de receita ao ano a justificarem a atenção que lhe é prestada mesmo por instituições respeitáveis como o Credit Suisse, o Deutsche Bank e a Goldman Sachs. O aperfeiçoamento de tecnologia RAMM (Risk Assessment and Mitigation Methodology) pode ajudar. De qualquer modo, há-de sempre haver factores imprevisíveis.

No "risco de mortalidade volátil" citado noutro site, inclui-se a "flutuação devida a eventos catastróficos". Exemplo? Uma eventual cura para o cancro. Segundo a empresa Towers Perrin, semelhante descoberta seria nada menos que um catastrophic mortality event para a indústria.

Palavras-chave  Blogues, Blogues, histórias, Insólitos
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Se dá certo para todos...
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 23:14 | Segunda feira, 29 de junho de 2009
... então é um bom negócio.
 
 Regras da comunidade
Edge Funds para velhotes...
Samm (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 0:56 | Terça feira, 30 de junho de 2009
Sabemos que do mercado não podemos esperar comportamentos morais e sabemos que há gente que faz de tudo para ganhar dinheiro.

Ora, estas empresas "vivem" no limiar da legalidade, por vezes cruzando esse mesmo limite.

A seu tempo, essas empresas começarão a distribuir aos seus clientes séniores vouchers para paraquedismo, mergulho em apneia ou mesmo cruzeiros para zonas do globo infectas de gripes mexicanas.
Organizar-se-ão "conferências" onde se disponibilizam moças brasileiras semi-denudadas e paletes de viagra.

Tudo na esperança, e legalidade, que o seu investimento tenha retorno, que é como quem diz, que os velhotes batam a bota.

Quando partir, quero fazê-lo com uma ou mais cidadã de leste sobre mim, após ingestão de uma overdose "marilimonróviana" de viagra ...
 
 Regras da comunidade
«Viver demais» é um problema
userEX30860 (seguir utilizador), 1 ponto , 0:14 | Terça feira, 30 de junho de 2009
para as seguradoras
 
 Regras da comunidade
    Re: «Viver demais» é um problema    Ver comentário
Pedra-Mó (seguir utilizador), 1 ponto , 15:42 | Terça feira, 30 de junho de 2009
Curas!
userEX245960 (seguir utilizador), 1 ponto , 1:40 | Terça feira, 30 de junho de 2009
Ok. Já percebo o porquê de não encontrarem a cura para doenças como o Cancro!
Decididamente o Mundo move-se por interesses!
 
 Regras da comunidade
    Re: Curas!    Ver comentário
Lopes02 (seguir utilizador), 1 ponto , 4:00 | Terça feira, 30 de junho de 2009
o maior casino do mundo
portamoedas (seguir utilizador), 1 ponto , 8:19 | Terça feira, 30 de junho de 2009
E legal, chama-se finança internacional, com o apoio dos governos, o resto é conversa enquanto houver pobres a sonhar, esta gente enche os bolsos, como as guerras, as vitimas sao sempre as mesmas.
 
 Regras da comunidade
Por cá também há coisas semelhantes
Entrelinhas (seguir utilizador), 1 ponto , 8:40 | Terça feira, 30 de junho de 2009
Por cá também há coisas semelhantes e até interessantes, tais como:

A venda da raiz ou nua propriedade de um andar que se habita, ficando apenas com o usufruto vitalicio.
O andar é vendido com a condição da pessoa ou pessoas, no caso de marido e mulher, o usufruirem vitaliciamente.

Senhoriios há também que, para realizarem dinheiro, vendem o usufruto aos inquilinos.
Os senhorios realizam dinheiro (livre de impostos), sem se desfazerem da propriedade.
Os inquilinos pagam "adiantadas" as rendas, mas se viverem mais tempo do que as rendas que pagaram adiantadas ficam a ganhar.
 
 Regras da comunidade
Fantástico este "mercado".
Sebastião da Treta (seguir utilizador), 1 ponto , 9:57 | Terça feira, 30 de junho de 2009
O ponto a que se chega...
 
 Regras da comunidade
Negócios
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:19 | Terça feira, 30 de junho de 2009
A morte roda num mercado astronómico
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP