À partida, parece uma decisão lógica. Alguém fez um seguro de vida numa altura em que tinha um cônjuge (ou outro dependente) que razoavelmente podia sobreviver-lhe. Essa pessoa, por qualquer motivo, já não se acha presente. O detentor da apólice encontra-se numa fase da vida em que precisa de tratamentos médicos dispendiosos - ou simplesmente quer gozar a vida, viajar, comprar coisas, etc. Sem ninguém a quem deixar benefícios, resolve converter a apólice em dinheiro. Infelizmente, a seguradora que lha vendeu oferece-lhe pouco. Mas há investidores especializados que oferecem mais. Porque não?
A compra de seguros de vida tem uma longa tradição nos Estados Unidos. Em 1911, uma decisão do Supremo Tribunal afirmou expressamente que o detentor de uma apólice podia vendê-la, mantendo-se como titular nominal. O negócio foi-se desenvolvendo, e conheceu uma grande expansão nos anos 80, por causa da sida.
Pessoas que, de repente, viam a sua expectativa de vida baixar a pique, e que precisavam de aliviar o sofrimento com tratamentos caros, começaram a vender as suas apólices. Esse tipo de contrato, dito viático, só se aplica a doentes terminais. Diferente é o caso de alguém que apenas se encontra em idade relativamente avançada, sem especiais problemas de saúde. Aí entra em jogo uma estatística mais refinada.
Numa conferência internacional realizada em Londres há duas semanas, voltou-se a insistir na necessidade de as tabelas de mortalidade serem fiáveis, e sobretudo estáveis. Uma recente revisão de fundo levada a cabo pelos analistas de risco fez subir as estimativas, e causou graves prejuízos à indústria do 'life-settlement'.
Conforme um representante de indústria, Thomas Moran (do Heritage Group) explica na Internet, o grande problema das companhias são "as expectativas de vida incorrectas... As pessoas estão a viver demais... Como resultado, a reserva dos prémios diminui demasiado depressa e falta o dinheiro para pagar os prémios". Já em Março uma outra conferência, a Life Settlement Investment Summit, em Nova York, incluia workshops sobre esses problemas.
O cliente-tipo destes investimentos é uma pessoa com idade a partir de sessenta e cinco anos e um património considerável. Não é preciso ser fumador, mas ajuda - o tabaco é a 'variável de mortalidade' instantaneamente citada nas estatísticas.
Há muitas outras, incluindo o estado em que se vive, acontecimentos familiares recentes, e, como é óbvio, a história médica pessoal. Não se exige forçosamente um exame adicional. "O nosso pessoal trabalhará com os vossos médicos", explica uma empresa da especialidade. Uma vez feita a estimativa e concluído o negócio, o ex-segurado recebe dinheiro e o investidor que lhe comprou a apólice torna-se responsável pelos prémios.
Admitindo que não houve fraude - isto é, que o idoso não fingiu ser menos saudável do que era, desatando a fumar ou a engordar nas semanas anteriores, por exemplo - toda a gente lucra.
Um dos participantes na conferência em Londres admitiu que o lugar onde teve lugar a mesma - a cripta de uma igreja metodista - contribuía para reforçar a imagem algo tenebrosa do life-settlement.
Mas a indústria parece estar em boa forma, com 12 biliões de receita ao ano a justificarem a atenção que lhe é prestada mesmo por instituições respeitáveis como o Credit Suisse, o Deutsche Bank e a Goldman Sachs. O aperfeiçoamento de tecnologia RAMM (Risk Assessment and Mitigation Methodology) pode ajudar. De qualquer modo, há-de sempre haver factores imprevisíveis.
No "risco de mortalidade volátil" citado noutro site, inclui-se a "flutuação devida a eventos catastróficos". Exemplo? Uma eventual cura para o cancro. Segundo a empresa Towers Perrin, semelhante descoberta seria nada menos que um catastrophic mortality event para a indústria.