O Governo queixa-se de "intrigas mesquinhas", o Presidente fala de "intrigas montadas". Isto porque houve notícias, supostamente inspiradas por fontes de Belém, dando conta do também suposto desagrado de Cavaco com o facto de Sócrates ter faltado à cerimónia de posse dos novos membros do Conselho de Estado e à reunião semanal com o Presidente. No meio da intrigalhada - os dois gabinetes coincidem no reconhecimento oficial de que ela existiu, ainda que possam divergir quanto à sua origem -, o PS manda um deputado acusar Cavaco Silva de "se intrometer na agenda dos partidos" só porque, perguntado sobre o casamento gay, ele disse estar atento a outros assuntos.
Esta guerrilha fútil e estéril foi praticamente assumida pelas partes, ou não haveria fontes anónimas a alimentá-la. Nem o primeiro-ministro faria questão de elogiar publicamente o deputado que desferiu o mais directo e violento ataque a Cavaco.
Não é crível que a falta de Sócrates à reunião das quintas e à posse dos novos membros do Conselho de Estado tenha ficado a dever-se à inexistência de uma auto-estrada entre Portalegre e Beja. O primeiro-ministro conhece o país, está habituado a gerir agendas bem mais complicadas e nenhum dos actos em questão, nem as jornadas parlamentares do PS que, aparentemente motivaram o atraso definitivo, eram acontecimentos imprevistos ou de última hora. Que a sua ausência tenha tido uma leitura política, ou fosse vista como simples deselegância, é perfeitamente natural. O que já é menos natural é que Belém, se foi o caso, se tenha dado ao trabalho de fazer publicamente essa leitura, deitando achas para a fogueira.
O mesmo para a história do casamento gay. A urgência que o Governo imprimiu a esta sua promessa não deixa de ser discutível num quadro de emergência económica e social. Cavaco quis marcar distâncias. Tem todo o direito de o fazer, sem que, por isso, seja acusado de se intrometer na agenda socialista. Mas a fórmula que escolheu, insinuando que, ao contrário de si próprio, o Executivo não dá atenção ao que é importante, foi provavelmente mais acintosa do que qualquer outra a que poderia ter recorrido se estivesse, claro está, empenhado em não aumentar o nível da crispação política. Como o bom senso recomenda e a situação do país reclama.
Infelizmente, nada disto é inédito. Pode dizer-se que voltámos atrás 15 anos - talvez um ou dois níveis abaixo -, quando Cavaco estava no lugar de Sócrates e Mário Soares era o inquilino de Belém. Esta nova experiência de coabitação prometeu bastante, mas há muito que deu o que tinha a dar. E mostra, uma vez mais, que as virtudes do semipresidencialismo só se manifestam quando o Presidente e o primeiro-ministro são da mesma cor política. Ou quando a paz institucional convém, não exactamente ao país, mas às estratégias de ambos os protagonistas.
Contra Passos... e Marcelo
Se Manuela Ferreira Leite se recandidatasse à liderança do PSD nas próximas 'directas' - ou se houvesse um candidato 'oficial' da actual direcção numa posição mais forte do que a de Passos Coelho -, teria apoiado tão prontamente o Congresso proposto por Santana Lopes? É pouco provável. Fê-lo porque não quer deixar como sucessor alguém que não considera à altura, que sempre a contestou e a quem, por isso mesmo, até vedou a entrada no Parlamento.
O próximo Congresso do PSD, a existir, será, antes de mais, um Congresso contra Passos. É o receio de ele vir a ganhar as 'directas' - pelas quais Santana tanto se bateu e de que agora parece arrependido - que justifica o apoio de Manuela à iniciativa de um ex-líder que, segundo a própria deixou insinuado em tempos, não terá merecido o seu voto quando se candidatou a primeiro-ministro.
O próprio Santana tem outras motivações que não o ódio cego - aliás, nunca foi homem de ódios, políticos ou outros. Candidato perpétuo a todos os cargos para que o partido o chame, como já tem admitido, talvez alimente a esperança de ser chamado uma vez mais. Será uma esperança remota, tendo em conta as excessivas entradas e saídas de palco dos últimos anos. Mas a verdade é esta: recém-chegado de uma derrota eleitoral, ainda que honrosa, e quando parecia não ter qualquer papel a desempenhar nas guerras próximas do PSD, está de novo no centro dos acontecimentos. E a 'encostar às cordas' o putativo candidato Marcelo Rebelo de Sousa. Quem tanto queria um debate sobre o país e o partido, como Marcelo, pode agora faltar a um Congresso convocado para esse fim?
Frio, como compete
Após 11 dias de conversa global acerca do sobreaquecimento do planeta - a qual deu em quase nada e foi mais um golpe na doce expectativa de que Obama tivesse vindo para salvar o mundo - o Natal chega frio como compete. E até chuvoso, o que é um luxo neste nosso país cada vez mais seco e murcho, onde o défice de chuva, tal como o outro, se agrava ano após ano. Quem já perdeu as raízes da terra, não dá pela falta. Protesta porque a chuva incomoda, mal se dando conta de que, sem ela, bem podem os políticos acenar com a prosperidade ao virar da esquina. Já quanto à murchidão do espírito, de que também padecemos por estes dias cinzentos e falhos de esperança, temos que ser uns para os outros, como se costuma dizer e nesta quadra mais se aplica. Talvez o sol brilhe amanhã, dia de Natal, e nos aqueça um pouco a alma. Boas-Festas!
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009