O Instituto de Meteorologia (IM) critica em comunicado as afirmações feitas por Delgado Domingos numa entrevista à Antena 1, onde o coordenador do Grupo de Previsão Numérica do Tempo do Instituto Superior Técnico diz que, se o IM recorresse aos modelos de previsão mais modernos, a tragédia da Madeira podia ter sido prevista sete dias antes.
Esta notícia foi dada pelo Expresso na edição de 27 de Fevereiro, onde Delgado Domingos salientava que a precipitação acumulada da semana que antecedeu a catástrofe "era absolutamente excepcional, sendo previsível a completa saturação do solo em água, o que potenciaria deslizamentos de terras, derrocadas e grandes cheias".
O grupo do IST fez na altura uma simulação sobre a Madeira em exclusivo para o Expresso, porque só elabora previsões meteorológicas para o Continente, e provou que sete dias antes do dilúvio da manhã de 20 de Fevereiro era possível prever a enorme quantidade de chuva que iria cair na ilha, e tomar as medidas de prevenção necessárias para minimizar a destruição e o número de mortes (42) que se registaram.
"Falta de conhecimento sobre o Instituto de Meteorologia"
O comunicado do IM refere que "grande parte das afirmações efectuadas pelo Prof. Delgado Domingos à Antena 1 demonstram falta de conhecimento existente sobre o IM e as suas actividades, bem como sobre a evolução da meteorologia, quer em Portugal quer na Europa".
O instituto sublinha que "os modelos deterministas como o corrido no IST, têm limites que podem resultar em erros de previsão, devido fundamentalmente ao desconhecimento perfeito das condições iniciais (erros ou falta de observações) que se propagam e diminuem a qualidade da sua previsão ao longo do tempo".
Essa é a razão pela qual "se utilizam cada vez mais previsões probabilísticas", e para suprir "as falhas dos modelos numéricos, os institutos de meteorologia europeus mantêm vigilância permanente com meios de detecção remota" (radares, detectores de descargas eléctricas, satélites e observação local) que permitem "melhorar a previsão num período muito curto, entre uma e seis horas".
O IM recorda que "a grandeza mais difícil de prever de forma quantitativa em meteorologia é a precipitação", e quanto ao que se passou na Madeira diz que dos modelos disponíveis no instituto, apenas um "dava valores indicativos da quantidade de precipitação próxima da que se viria a verificar".
Delgado Domingos: "Temos o programa mais avançado que existe"
"Estamos a usar o programa mais avançado que existe em termos de previsão", contrapõe Delgado Domingos ao Expresso, "e a informação de base é americana, do Global Forecast System (GFS)".
A falta de "previsões adequadas" para a Madeira é proporcionada "pelo monopólio do IM em relação aos dados das estações meteorológicas, ao acesso aos dados europeus e à representação nacional em todos os organismos internacionais", prossegue o professor do IST.
"Por isso, a qualidade do IM degradou-se de uma forma chocante em termos de capacidade científica de previsão". E este é também um problema "que afecta os institutos meteorológicos agregados ao Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo".
Delgado Domingos argumenta ainda que, "como o trabalho de previsão destes institutos e de recolha de dados não é aberto, também não é escrutinado". E uma das consequências práticas desta situação é que "todas as grandes universidades europeias trabalham com dados americanos".