13/02/2012 atualizado às 13:15

"Antes não havia telemóveis, mas jogava-se à batalha naval"

Indisciplina nas escolas é fenómeno antigo

Investigadora de Educação da Faculdade de Ciências de Lisboa defende, com base em alguns estudos, que não há mais miúdos indisciplinados, mas sim maior divulgação.

11:38 Domingo, 30 de março de 2008

A "diversidade" de alunos nas escolas e o apelo à "distracção" pelos media podem justificar a indisciplina nas escolas, um fenómeno que sempre existiu, mas que tem hoje maior divulgação, defende uma investigadora da área da educação.

"Há um público mais diversificado, a escola democratizou-se e há outros códigos culturais, outras maneiras de estar e de pensar que não são compatíveis com os valores que a escola pede. A escola alargou-se mas não se modificou e a sua estrutura já vem muito de trás", explicou à Lusa a investigadora do departamento de educação da Faculdade de Ciências de Lisboa Maria Benedita Melo.

Este é um problema "generalizado" do primeiro ciclo à universidade onde, segundo a investigadora, as "diferentes etnias, diversas culturas e graus económicos distintos" estão em dissonância com o modelo escolar.

Face ao problema, a socióloga salientou, no entanto, que, "apesar de tudo", hoje em dia não há mais indisciplina, mas sim mais divulgação.

"Tem-se muito a ideia de que no passado é que era bom, mas não é verdade. Alguns estudos têm demonstrado que não há mais miúdos indisciplinados, há é mais divulgação. Antes não havia telemóveis, mas jogava-se à batalha naval", explicou.

Para a investigadora, a influência dos media e de uma cultura visual que "apela mais à distracção do que ao trabalho e mais ao lazer do que ao esforço" contribui também para a "resistência" dos alunos à disciplina.

"Mas isto é um problema generalizado e diversos estudos demonstram que estas questões são recorrentes nas escolas europeias", concluiu.

Indisciplina é modelo em casa

Para a socióloga, a indisciplina não existe apenas nas escolas e baseia-se no aparecimento de "uma atitude diferente entre os mais novos e os mais velhos".

"O modelo de autoridade que existia foi substituído por um modelo mais negociável entre pais e filhos e também entre alunos e professores. Só que na escola é mais difícil impor regras e comportamentos a quem não os quer receber porque em casa não é assim", sublinhou a investigadora, acrescentando que os "miúdos" acabam por transportar para a escola esse modelo.

Professores sublinham mudança de valores

Opinião diferente têm Madalena Ferreira, uma professora em fim de carreira, e Raul Mendes, um professor reformado, que são unânimes em afirmar que a indisciplina está cada vez mais presente nas salas de aula portuguesas, causada por mudanças na sociedade e dos seus valores e por políticas educativas "que não têm respondido ao problema".

A professora de economia e sociologia, que lecciona há 31 anos numa escola de Torres Vedras, disse à agência Lusa que "houve um aumento da indisciplina desde que se generalizou o acesso à escola e se massificou o ensino".

"A indisciplina tem a ver com a própria mudança da sociedade, onde se assistiu a uma mudança de valores: existe uma grande falta de respeito e os alunos não ouvem os outros", explicou.

Para Raul Mendes, antigo professor de português e latim, que leccionou durante 35 anos em Setúbal, a indisciplina "está de tal forma disseminada no ensino público, que muitos professores já nem fazem queixa destas situações ao conselho directivo das suas escolas e convivem com elas como se se tivesse tornado norma".

Autoridade caso falhe o diálogo

"As políticas do ministério da Educação também têm contribuído, existindo um desrespeito pelos professores, que se estende aos alunos", explicou Madalena Ferreira.

Ambos concordam que estas situações são mais frequentes no terceiro ciclo, apesar de no ensino secundário também existirem.

"Para resolver estas questões é preciso autoridade, que o professor se afirme e que não deixe passar situações mais graves. Mas há que tentar sempre a via do diálogo, falando com os alunos e reflectindo com eles", justificou a professora de economia e sociologia.

"A autoridade consegue-se muitas vezes com uma postura mais distante, para a qual a idade e a experiência também ajudam", explicou Raul Mendes.

Lusa
Palavras-chave  Dossiês, Sociedade
Relacionados
08 abril 2008

Polícias fora das escolas

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
É ANTIGO?
KIFAS (seguir utilizador), 1 ponto , 12:30 | Domingo, 30 de março de 2008
Aceito que seja antigo, mas contrario que sejam iguais em termos comparativos. Nem pensar. Actualmente , seja pelo laxismo dos srs. profs, seja pela regra de disciplina em que o aluno sai altamente a lucrar, antigamente chumbava-se por faltas e daí o maior receio em se ser indisciplinado. Mas agora há uma situação que quase não se fala. Porque não sucede esta indisciplina no ENSINO PRIVADO? Alguém me responde por favor????
 
 Regras da comunidade
Causas várias.
user178221 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:49 | Domingo, 30 de março de 2008
A indisciplina nas escolas tem várias causas, umas mais imediatas, outras menos.
1-À falta de uma educação séria e responsável no seio familiar. Educar com tolerância e amor, mas com regras de boa educação, disciplina e autoridade serena e firme, que não pode ser confundida com repressão, dureza, severidade, violência ou autoritarismo. Educar é ensinar as bases de civismo, de cordialidade, respeito mútuo e boa educação que são as regras indispensáveis a um convívio humano civilizado.
2-A uma desastrada e iníqua orientação do ministério da (des)educação, no campo da disciplina interna das escolas, que vem a verificar-se acentuadamente desde há mais de 20 e tal anos.
O 25 de Abril (digo, o abençoado 25 de Abril!) subiu à cabeça dessa gente que tem ocupado cargos directivos no ministério da pior maneira. Gente que -pasme-se!- tem ignorado de forma inqualificável o papel que a escola tem que ter na formação cívica, moral e intelectual de futuros cidadãos responsáveis, dignos e civilizados.
3-Aos professores -que, em grande percentagem, não o deveriam ser- capazes de grandes mobilizações para lutar contra certas disposições ministeriais, necessárias embora mal orientadas, mas que são inexplicavelmente incapazes de se unirem e lutarem seriamente contra aquilo que é completamente intolerável nas escolas: o desregramento disciplinar e cívico, os afloramentos de delinquência juvenil, os ambientes de permissividade sem regras, etc.

É dito que dantes não havia telemóveis mas jogava-se à batalha naval. É evidente que ambas as situações não podem ser permitidas numa sala de aula. Só que, apesar de tudo, há diferenças: a batalha naval não interrompe uma aula, o telemóvel perturba toda a turma.
Nuno Costa
 
 Regras da comunidade
Arre!Arre!
beija (seguir utilizador), 1 ponto , 18:01 | Domingo, 30 de março de 2008
Quando é que vão perceber, de uma vez por todas, que foram as ciências da educação e as psicologias baratas que conduziram a este estado de coisas? O ME foi tomado por esta gente e qualquer que seja o ministro, temos sempre o mesmo problema!
 
 Regras da comunidade
    Respostas fáceis aos problemas de ontém...    Ver comentário
Spitzer (seguir utilizador), 1 ponto , 11:16 | Quarta feira, 2 de abril de 2008
    Re: Respostas fáceis aos problemas de ontém...    Ver comentário
Marnatsim (seguir utilizador), 1 ponto , 23:54 | Terça feira, 8 de abril de 2008
Reconhecer o problema para lidar com ele
Spitzer (seguir utilizador), 1 ponto , 11:07 | Quarta feira, 2 de abril de 2008
É verdade que a indisciplina é um fenómeno antigo, mas é um phonómeno que a Escola nega: A organização do sistema escolar não prevê a necessidade de medidas disciplinares. Como a escola não lida com o problema o problema persiste e amplia-se.

A estructura organizativa da «Escola» deve contemplar a necessidade de «trabalhar» estes alunos problema. Pessoalmente, acho que se deveriam concentrar em escolas especializadas, com turmas mais reduzidas, estatuto do aluno diferente do normal, e professores muito bem seleccionados, mas esta é só a minha opnião sobre a solução. Outras fórmulas podem ser consideradas. O que não pode continuar é o ME continuar a fingir que o problema não existe.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
1. Toni 2 ( 294pts )
2. carlos-carlos ( 173pts )
3. moncarapacho ( 169pts )
4. Runaldinho ( 167pts )
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Ovação à ministra
17:21 Quarta feira, 12 de novembro de 2008, 39
Ana Benavente acusa Governo de chantagem e de autoritarismo
18:03 Terça feira, 15 de abril de 2008, 51
Valter Lemos diz que há condições para avançar o processo
15:53 Segunda feira, 14 de abril de 2008, 6
Acordo entre Ministério da Educação e sindicatos
15:16 Sábado, 12 de abril de 2008,
Ministra cede aos sindicatos
9:30 Sábado, 12 de abril de 2008, 23
Alunos castigados com aulas extra de civismo
16:37 Sexta feira, 11 de abril de 2008, 13
Ministra garante "tranquilidade" no processo
20:23 Sábado, 5 de abril de 2008, 21
"Dê Voz ao Cartoon" - Humor nota 20
18:46 Sábado, 5 de abril de 2008, 1
Escolas-piloto no combate ao insucesso escolar
17:39 Sábado, 5 de abril de 2008, 1
25% do crime juvenil é cometido na escola
12:24 Sábado, 5 de abril de 2008, 7
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP