O dicionário define independência como libertação, falta de dependência. Povos, grupos e indivíduos aspiram pela genuína independência, tantas vezes condicionada por disfarçadas dependências.
No próximo dia 1 de Dezembro, celebra-se o dia da Restauração da Independência, no qual alguns fidalgos e muitos anónimos plebeus, sacrificaram a vida e bens para que, em 1640, iniciássemos a luta que levou à recuperação da nossa independência.
Na vida, todos temos o direito a ser independentes. O pleno uso desse direito é que se afigura problemático. O estatuto de independente é muito mais exigente do que muitos países, grupos e indivíduos, intitulados independentes, querem fazer crer. Ser efectivamente independente, correndo os riscos dessa livre e nobre opção, requer uma forte arquitectura ética, um elevado gosto pelo risco e o atirar pela janela saborosas situações, designadamente materiais, geradoras de dependências.
Não se pode usar orgulhosamente o estatuto de independente, querendo, simultaneamente, tirar partido, ou aceitando situações de dependência, designadamente materiais ou sociais.
Os restauradores tiveram uma demorada luta, como é timbre nas duras conquistas pela liberdade. Logo em 1628, no Porto, ocorreu o "Motim das Maçarocas". É normal. A maçaroca representa um importante e tentador elemento condicionador da efectiva independência.
Houve também as "Alterações de Évora", quando os plebeus da cidade deixaram de obedecer aos fidalgos e desrespeitaram o arcebispo. Ora nestas questões de dependências e independências há sempre 'fidalgos' com poder e 'arcebispos' que exigem ser respeitados.
Daí as recomendações que, embora vigorosas na forma, deixam amplas janelas para sensata flexibilidade do exercício da independência, quando estão em causa assuntos que envolvem 'fidalgos' que valorizam a dependência dos súbditos plebeus ou podem não agradar a 'arcebispos' que apreciam o beijo no anel.
Acresce que a verdadeira independência não resulta apenas do cumprimento formal de regras. Depois de 1945 e antes da queda do Muro de Berlim, países como a Hungria e a Checoslováquia eram formalmente independentes. Respeitavam todas as regras. Constituição. Parlamento. Governo. Tribunais. Exército. No entanto, nada faziam que ofendesse os 'arcebispos' do Kremlin e estavam sempre de acordo com os 'fidalgos' ali sediados.
Quando húngaros e checos revelaram a sua inquebrantável e legítima vontade de independência, sofreram a repressão. E esta gera medos que tornam os amantes da independência cautelosos, prudentes e silenciosos.
Bem diz o povo, na sua secular sabedoria, que "quem tem cu tem medo".
As minhas desculpas ao João Duque. Assumi o compromisso de escrever sobre a importância da independência e as condicionantes da acção dos independentes plebeus no governo das sociedades em Portugal, mas entusiasmei-me com o Primeiro de Dezembro. Fica para outra oportunidade.
De qualquer modo, permitiu-me, com uma ponta de saudade, recordar o Liceu Nacional da Guarda, que celebrava aquele dia, onde terminei o sétimo ano, e que me deixou gratas dependências de amizades para a vida.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009